Quarta-feira, 31 de Março de 2021

Recordando... Luís Filipe Castro Mendes

TENTAÇÃO

 

Eu não resistirei à tentação,

não quero que de mim possas perder-te,

que só na fonte fria da razão

renasça a minha sede de beber-te.

 

Eu não resistirei à tentação

de quanto adivinhei nesta amargura:

um sim que só assalta quem diz não,

um corpo que entrevi na selva escura.

 

Resistirei a te chamar paixão,

a te perder nos versos, nas palavras:

mas não resistirei à tentação

 

de te dizer que o céu é o que rasa

a luz que nos teus olhos eu perdi

e que na terra toda não mais vi.

 

"Os Amantes Obscuros"

 

In “Poesia reunida (1985-1999)”

Quetzal Editores

 

Luís Filipe Castro Mendes

(N.1950)

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Quinta-feira, 25 de Março de 2021

Recordando... Papiniano Carlos

MENINO POVO

 

O meu Menino Povo de olhos resplandecentes

mora

na choça negra de terra e colmo,

a meio da floresta,

entre a fome

e a noite.

E sua mãe pobre

nada mais tem para lhe dar

que dois grandes seios.

Agora

o piar das aves agoirentas enche a noite

e o Menino treme

de pavor.

Lá fora uivam as alcateias

e a floresta range diabòlicamente.

Parece que a noite

será sempre noite...

Ai se assim fosse!

Mas eu que venho de longe

e sou a clara esperança

trago comigo o canto das calhandras

na alvorada,

e juro ao meu Menino Povo de olhos resplandecentes

que a manhã não tarda,

ela aí vem a caminho por todos os caminhos do mundo,

é breve Dia.

 

In "Estrada Nova"

Edição do autor

 

Papiniano Carlos

(1918-2012)

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Sexta-feira, 19 de Março de 2021

Recordando... Nuno de Figueiredo

JÁ NINGUÉM SE MATA POR AMOR

 

Já ninguém se mata por amor,

ninguém segue o rasto de um perfume

durante a vida inteira. Já nem

se aproveitam as guerras para

aquelas paixões impossíveis, fulminantes

as guerras são no ar agora, não

como dantes, quando se ia marchando

de terra em terra. Os homens são

pássaros mortais com armas de

gigantes. Já ninguém se deixa

 

enlouquecer por uns olhos esculpidos

no retrato, ninguém acorda com

um nome gasto e sempre novo

deposto com doçura sobre os lábios.

 

São tempos outros de maior usura.

Flores só submetidas a horrorosos

suplícios, vendidas a peso de ouro.

Já ninguém colhe uma rosa

já não há mulher formosa que

componha entre o cabelo, entre

os seios, no decote, uma camélia.

 

Já não dizem um do outro: o meu

amor. Já só dizem: ele, ela...

 

In “Poemas de amor e valimento”

Editora Tartaruga

 

Nuno de Figueiredo

(N.1943)

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Sábado, 13 de Março de 2021

Recordando... Helena Figueiredo

LIBERDADE

 

Contigo,

Rebolo na erva dos prados,

Abraçando o sol ao meio dia.

Não importa a língua que falo,

Ou se a noite já baixou.

Canto árias,

Danço tangos e boleros

Pela terra acabada de lavrar.

Enfio-me nas florestas,

E brinco às escondidas com o lobo mau.

 

Contigo,

Como amoras silvestres,

E sujo a boca no sumo das laranjas.

Monto cavalos de espuma.

Cubro-me de lama

E banho-me em ribeiros cristalinos.

Ando descalça pelos campos de searas,

E peço à chuva que me molhe,

E às estrelas que mudem de lugar.

 

Contigo,

Galgo montanhas

E sei de cor o nome das nuvens.

Atravesso tempestades e vendavais

E adormeço numa cama de musgo.

Deito-me nua ao luar,

E gozo o frio das geadas.

Contigo,

Acendo fogueiras no deserto,

E toco uma balada para o vento.

 

Contigo,

Sou um pássaro com asas a crescer.

 

In “Ao sabor da pele” 2009

 

Helena Figueiredo

(N.1959)

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Domingo, 7 de Março de 2021

Recordando... Maria Amália Vaz de Carvalho

A SEU PAE

 

                José Vaz de Carvalho

 

Ouve-me Pae, da minha lyra tímida

ouso as premicias a teus pés depôr,

e leia n´ellas o teu vasto espirito

humilde preito de infinito amor!

 

C´rôa singella de nevados lyrios,

por mim tecida com suave enleio!

vagas cadencias amorosas, languidas,

que a primavera me verteu no seio!...

 

Scentelhas soltas d´uma chamma etherea…

mysticos sonhos que eu soletro só…

que são?.. que valem, para o mundo frívolo

todo envolvido em seu doirado pó?

 

Só tu meu Pae acolherás sollicito

a minha incerta e juvenil canção!

tu, que de amores me doiraste a infância!..

me és premio à lira, e ao mal, se o fiz, perdão!

 

Oh! se n´um sonho fugitivo, rápido,

vira da gloria a divinal miragem…

se em magas horas de fugaz delírio

me endoidecera essa risonha imagem…

 

Se o echo ao longe dos aplausos fervidos

désse à minh´alma embriaguez febril,

e se os laureis d´entre inspirados extasis

me florejassem num perpetuo abril!

 

Sabes o premio que antevira, esplendido!

e a recompensa que eu sonhára então?

fôra em teus lábios um sorrir de jubilo

fôra uma bênção da tua nobre mão!

 

(mantém a grafia original)

 

In “Uma Primavera de Mulher”

 

Maria Amália Vaz de Carvalho

(1847-1921)

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Segunda-feira, 1 de Março de 2021

Recordando... Guerra Junqueiro

PARASITAS

 

No meio duma feira, uns poucos de palhaços

Andavam a mostrar em cima dum jumento

Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,

Aborto que lhes dava um grande rendimento.

 

Os magros histriões, hipócritas, devassos,

Exploravam assim a flor do sentimento.

E o monstro arregalava os grandes olhos baços,

Uns olhos sem calor e sem entendimento.

 

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos;

Deram esmola até mendigos quase nus.

E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos.

 

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,

Que andais pelo universo há mil e tantos anos

Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

 

In “A Velhice do Padre Eterno”

Editora Livraria Minerva – Lisboa

 

Guerra Junqueiro

(1850-1923)

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