Terça-feira, 25 de Fevereiro de 2020

Recordando... Egito Gonçalves

O TEU NOME É UM VOCÁBULO

 

O teu nome é um vocábulo

de amor, uma carícia

que a língua desenvolve.

Não o posso pronunciar

em voz alta

quando não estou só. As

respirações alheias

corrompem: poderia

dissolver-se no vento,

fragmentar-se

perder

o seu mistério indecifrável,

desviar

a flecha do seu alvo.

Pronuncio-o eliminando

o som, das duas sílabas

que rolam no meu corpo,

abrem os poros e,

pelos olhos,

enviam a mensagem necessária

ao suporte de Outubro.

Tudo canta, rodeando o silêncio,

a ligeira brisa que perfuma

as letras

quando passas a porta

e o teu sorriso doce

avança para mim

A garganta abre-se,

as sílabas esvoaçam, transformam

o espaço em música,

os acordes da água:

o meu corpo é agora um piano

onde a alegria abre

a felicidade, as suas asas.

 

In “Os Confrades da Poesia”

Boletim Mensal Nº 43 – Dezembro.2011

 

Egito Gonçalves

(1920-2001)

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Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2020

Recordando... Alexandra Santos

PASSEIO AS MÃOS PELO TEU CORPO E SINTO-TE…

 

Passeio as mãos pelo teu corpo e sinto-te…

Sinto o pulsar do teu coração que bate desenfreado

Sinto a tua respiração num ritmo descontrolado…

Sinto que queres ser minha como eu ser teu

Sinto que és a rainha deste plebeu…

Mas sinto essencialmente a tua pele…

Toda ela é a tua essência

Toda ela é a mulher que foste,

A mulher que és, a mulher que amo:

Pele madura, vivida,

Repleta de marcas do tempo,

Perfeita para mim;

Pele suave, sensível,

Propensa a arrepios,

Beijada até ao fim…

Pele… é tua… é minha… é nossa…

Onde a tua termina, a minha começa…

Quando a tua sente frio, a minha te aquece

Quando a tua sente ardor, a minha te arrefece…

Não preciso de mapa para me orientar

Mas na tua pele ainda me posso perder

Em cada cicatriz, em cada recanto,

Em cada sinal, em cada encanto…

Pele com pele, eu sinto o teu aroma…

Pele com pele, o nosso único idioma…

 

In “Palavras Sussurradas”

Chiado Editora

 

Alexandra Santos

(N.1980)

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Quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2020

Recordando... Olga Gonçalves

FESTEJAR NO TEU CORPO A LIBERDADE

 

Festejar no teu corpo a liberdade

que a dobra desta noite pronuncia

sobre o nervo da voz foça de alarme

garganta milimétrica de abril

 

um cravo da coronha de um soldado

no campo há meia hora ainda em sentido

para o gesto tão fundo tão volável

infância já da luz dentro do sismo

 

jornais não censurados no tapete

uma fábula fértil de fogueiras

crepitando onde rola o som da estampa

 

interior ao rumo à labareda

o desenho final do nosso beijo

na premissa mais livre do meu sangue

 

(Abril 1974)

 

In “Só de Amor”

Edições Ática

 

Olga Gonçalves

(1929-2004)

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Sexta-feira, 7 de Fevereiro de 2020

Recordando... Afonso Simões

UM NINHO

 

"Sabeis o que é um ninho, esse pequeno lar

Onde a ventura mora em noites de luar,

Onde a brisa suspira e canta a cotovia

Desde o romper da aurora ao declinar do dia?

Sabeis o que é um ninho em dias estivais,

Perdido no rumor dos bastos salgueirais,

À borda dum riacho alegre, saltitante,

Que vai de pedra em pedra até morrer, distante?

Sabeis o que é um ninho inundado de sol,

Onde desperta o melro e dorme o rouxinol?

Não, não sabeis! Pois bem. Juntai toda a ventura

Do vosso lar ditoso: os beijos, a ternura

D' uma extremosa mãe, os cuidados d'um pai,

Os risos d' uma irmã que tanto vos distrai,

Um doce olhar de avó, vaidosa no carinho,

E ficareis sabendo o que se chama um ninho."

 

In “Folhas em Branco” 1914

Imprensa Libanio da Silva

 

Afonso Simões

(1866-1947)

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Sábado, 1 de Fevereiro de 2020

Recordando... Natália Correia

A RAPARIGA DO SWEATER VERMELHO

 

Para os que gostam de fruta tu tens o sabor almiscarado.

Entre os balubas serias uma fêmea baluba cor de cera.

No Egipto era uma flor de lótus o teu penteado

para os insectos serás outra variedade de pêra.

 

Na cama dos solitários andrenídeos

és um corpo apetecido pelas abelhas

e se em teus dedos nascer a flor dos suicídios

és um pecado venial de unhas vermelhas,

 

venial volumosa e branca muito odorífera

dando claridade à sombra dos quartos de aluguer.

Para os assassinos serás uma arma mortífera

para os pederastas a raiva de não serem mulher.

 

Para os anjos és talvez a alternativa

de em ti encarnar a graça que eles têm no ar.

É de ti mesma que estás arborizada e viva

ou serás como as rosas apenas para ver e cheirar?

 

In "O vinho e a lira"

Edições Afrodite

 

Natália Correia

(1923-1993)

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