Terça-feira, 31 de Dezembro de 2019

Recordando... Paulo Teixeira

AUTO-DE-FÉ

 

Quando o amor é como os papéis velhos

e anseia por mais arte que a do poema

o coração é forno onde ardem as palavras.

 

Nesse dia elas foram, amarradas com barbante,

viúvas precipitando-se dentro da pira.

Fiquei a vê-las abrirem-se como pétalas

para logo definharem a meus olhos

numa florescência não cumprida.

O seu frémito era ainda uma ânsia minha.

 

Remexi as cinzas, agitei o ar com as mãos.

Vi como um poema se mostra servil ante o fogo.

E pensei: ardessem também os meus dedos!

Para que o poema não deixe crias ao morrer

e não mais confira o direito à vida

do que nele vai escrito.

 

Porque o amor é a arte que fica além do poema,

no dia em que não escrever mais poemas

sei que o amor resgatará o meu corpo da chama.

 

In "Autobiografia Cautelar"

Gótica - 2001

 

Paulo Teixeira

(N.1962)

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Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2019

Recordando... Miguel Torga

NATAL

 

Ninguém o viu nascer.

Mas todos acreditam

Que nasceu.

É um menino e é Deus.

Na Páscoa vai morrer, já homem,

Porque entretanto cresceu

E recebeu

A missão singular

De carregar a cruz da nossa redenção.

Agora, nos cueiros da imaginação,

Sorri apenas

A quem vem,

Enquanto a Mãe,

Também

Imaginada,

Com ele ao colo,

Se enternece

E enternece

Os corações,

Cúmplice do milagre, que acontece

Todos os anos e em todas as nações.

 

In “Diários - Volumes XIII a XVI”

Publicações Dom Quixote

 

Miguel Torga **

(1907-1995)

 

** Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha

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Quinta-feira, 19 de Dezembro de 2019

Recordando... Cecília Vilas Boas

INQUIETUDE

 

Ouço-te silêncio.

Diz-me o que sinto

O que anseio

O que me sufoca!

 

Esta inquietude permanente

Sem razão aparente de ser

O vazio profundo

Do querer e não querer.

Estou aqui

Vou, não sei onde

De onde venho, não recordo!

 

Nas horas aladas do desencontro

Fecho as pálpebras da vida

Perfumo de tomilho a alma

E parto, nas pétalas dos lírios brancos.

 

In "O Eco do Silêncio"

Esfera do Caos Editores

 

Cecília Vilas Boas

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Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019

Recordando... António Ramos Rosa

AS PALAVRAS TÊM ROSTO…

 

As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue.

O cavalo que nos domina é uma sombra apenas.

Sem sílabas de água, avança até ao outono.

Uma árvore estende os ramos. As nuvens subsistem.

 

O cavalo é uma hipótese, uma paixão constante

Na rede das suas veias corre um sangue de tempo,

uma árvore se desloca com a alegria das folhas.

Árvore e cavalo transformam-se num só ente real.

 

Eu que acaricio a árvore sinto a força tenaz

da testa do cavalo, a eternidade férrea,

o ser em explosão e eu tão leve folha

 

na sombra deste ser animal vegetal

busco a razão perfeita, a humildade estática,

a força vertical de ser quem sou e o ar.

 

In "Círculo Aberto"

Ed. Caminho

 

António Ramos Rosa

(1924-2013)

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Sábado, 7 de Dezembro de 2019

Recordando... Eugénio de Andrade

CANÇÃO

 

Tu eras neve.

Branca neve acariciada.

Lágrima e jasmim

no limiar da madrugada.

 

Tu eras água.

Água do mar se te beijava. 

Alta torre, alma, navio,

adeus que não começa nem acaba.

 

Eras o fruto

nos meus dedos a tremer.

Podíamos cantar

ou voar, podíamos morrer.

 

Mas do nome

que maio decorou,

nem a cor

nem o gosto me ficou.

 

In “As palavras Interditas - Até Amanhã”

Assírio & Alvim

 

Eugénio de Andrade **

(1923-2005)

 

** Pseudónimo de José Fontinhas

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Domingo, 1 de Dezembro de 2019

Recordando... António Rebordão Navarro

O INVERNO

 

Sabíamos do mar sem o sabermos,

do mar dos mapas, da cor azul do mar,

dos naufrágios no mar,

do sol solto no mar.

 

Sabíamos do mar sem o sentirmos

nos poros dilatados pelo mar,

o verdejante mar escalando as montanhas

tão bruscas como o sal.

 

Sabíamos do mar em sinuosos sinos

assinalando a noite

com corações arrepiados,

abertos como mãos

sulcadas de cabelos e molhadas

de rugas e escamas.

 

Sabíamos do mar em signos, símbolos,

tropos e metáforas.

 

Sabíamos do mar?

Sabíamos o mar.

Sabíamos a mar

 

In “A Condição Reflexa” (Poemas, 1952-1982)

Imprensa Nacional-Casa da Moeda – Lisboa – 1990

 

António Rebordão Navarro

(1933-2015)

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