Sábado, 30 de Novembro de 2019

Recordando... Rosa Alice Branco

DIAS MELHORES

 

A mulher espera as noites e também os dias,

esperta o lume enquanto, esperta a espera.

Há umas quantas coisas que a prendem, coisas

que arrecadou para a vida e já não servem.

Quem serve é ela e serve a Deus desfiando o rosário

pelos que já lá estão.

Por aqui vai-se indo, vai-se levando a vida

para o outro lado enquanto se esperam dias melhores,

dias mecânicos, a labuta dos músculos, a cabeça em paz

e a noite cansada, os pensamentos cansados,

o sofrimento cansado só quer estender o corpo

até de manhã. Quando mal nunca pior,

o café quente, o pão acabado de fazer

como se fosse cedo e as mãos na sua azáfama

pudessem fazer os dias gloriosos as noites luminosas

com que sonhou e já não servem. Agora só a espera

e as coisas que foi arrecadando para a morte.

 

In “Da Alma e dos Espíritos Animais”

Editora Campo das Letras

 

Rosa Alice Branco

(N.1950)

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Segunda-feira, 25 de Novembro de 2019

Recordando... Orlando Neves

LEVA-LHE AS PALAVRAS O PENSAMENTO

 

Leva-lhe as palavras o pensamento, posto

nos vitrais sangrentos da catedral, quando

os lábios de Laura rezam. Na solene

fixidez do silêncio, entre as pedras erectas,

 

vindas do sol, as orações de Laura ateiam

o incêndio, devoram o coração

de Francesco. Dentro, em algum canto do coro,

cantam as musas. Sob o ruído atroante

 

das naves ao céu, na solene fixidez

do silêncio, vão as palavras fugindo,

linhas de luz e noite no novo vitral

 

de cores lunares, desenhado nas mãos

rígidas do poeta. O canto poderoso

repete a eterna impiedade do amor.

 

In “Nocturnidade”

Campo das Letras – 1999

 

Orlando Neves

(1935 -2005)

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Terça-feira, 19 de Novembro de 2019

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

EIS-ME

 

Eis-me

Tendo-me despido de todos os meus mantos

Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses

Para ficar sozinha ante o silêncio

Ante o silêncio e o esplendor da tua face

 

Mas tu és de todos os ausentes o ausente

Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca

O meu coração desce as escadas do tempo

[em que não moras

E o teu encontro

São planícies e planícies de silêncio

 

Escura é a noite

Escura e transparente

Mas o teu rosto está para além do tempo opaco

E eu não habito os jardins do teu silêncio

Porque tu és de todos os ausentes o ausente

 

In “Livro Sexto”

Assírio & Alvim

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(1919-2004)

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Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019

Recordando... Vasco Costa Marques

ÚLTIMO POEMA DO AMOR AUSENTE

 

Todo o corpo lhes dói de acertar os relógios

De momento a momento às vantagens do tempo

Meu amor meu amor tem por vezes o gosto

Do veneno sorvido ao desabar das pontes

 

A mais frágil aragem os confunde

O espaço aberto enreda-lhes os passos

O convívio da vida esboroa as palavras

A liberdade é um peso enorme nos seus ombros

 

«Tudo quando perdi na violência do tempo

Veio hoje até mim como o espinho da flor

Como o operário morto entre o ferro e o cimento

Da construção do amor

 

Foi um lento e incógnito perfume

Foi um lago sem margens intransposto

Foi uma pedra vermelha de lume

O mais belo sorrir de desgosto»

 

In “Poesia dos Dias Úteis”

Publicações Europa-América

 

Vasco Costa Marques

(1928-2006)

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Quinta-feira, 7 de Novembro de 2019

Recordando... Edgar Carneiro

ENLEIOS

 

Que direi de enleios,

galanteios ternos

prematuro voo

da miragem tonta?

 

Onde estão represos

os murmúrios de água

deslizando lenta

no dossel dos montes?

 

Já não sinto as aves

nem sequer as penas

adejando soltas.

 

Quanto às águas sei

ir morrer de sede

mesmo vendo as fontes.

 

In “Périplo”

Edições Húmus - 2009

 

Edgar Carneiro

(1913-2011)

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Sexta-feira, 1 de Novembro de 2019

Recordando... Al Berto

MUDANÇA DE ESTAÇÃO

 

Para te manteres vivo - todas as manhãs

arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e

o mesmo fazes com a alma - puxas-lhe brilho

regas o coração e o grande feto verde-granulado

 

deixas o verão deslizar de mansinho

para o cobre luminoso do outono e

às primeiras chuvadas recomeças a escrever

como se em ti fertilizasses uma terra generosa

cansada de pousio - uma terra

necessitada de águas de sons de afectos para

intensificar o esplendor do teu firmamento

 

passa um bando de andorinhões rente à janela

sobrevoam o rosto que surge do mar - crepúsculo

donde se soltaram as abelhas incompreensíveis

da memória

 

luzeiros marinhos sobre a pele - peixes

que se enforcam com a corda de noctilucos

estendida nesta mudança de estação

 

In “Horto de incêndio”

Assírio & Alvim

 

Al Berto **

(1848-1997)

 

** Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares

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