Segunda-feira, 30 de Setembro de 2019

Recordando... Al Berto

SE UM DIA A JUVENTUDE VOLTASSE

 

se um dia a juventude voltasse

na pele das serpentes atravessaria toda a memória

com a língua em teus cabelos dormiria no sossego

da noite transformada em pássaro de lume cortante

como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

 

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu

veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza

apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras

porque só aquele que nada possui e tudo partilhou

pode devassar a noite doutros corpos inocentes

sem se ferir no esplendor breve do amor

 

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio

de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos

mas aconteça o que tem de acontecer

não estou triste não tenho projectos nem ambições

guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos

espalho a saliva das visões pela demorada noite

onde deambula a melancolia lunar do corpo

 

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim

com suas raízes de escamas em forma de coração

e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido

pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu

humilde e cansado piloto

que só de te sonhar me morro de aflição

 

In “O Medo (1974-1986)”

 

Al Berto **

(1948-1997)

 

** Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares

 

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Quarta-feira, 25 de Setembro de 2019

Recordando... Paula Raposo

PARA TI DAQUI

 

Deixo que me prendas o olhar

em cada beijo que te dou;

um lampejo de sabor a ti,

uma luz que se prolonga em mim.

E eu deixo o olhar prender-se

no regresso à realidade.

Um desencontro ilumina a noite,

e quando a madrugada reaparece

toda a nostalgia chora em sonetos:

és tu que me compões a canção do infinito.

 

In “O laço impenetrável do silêncio”

Chiado Editora

 

Paula Raposo

(N.1954)

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Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019

Recordando... Luís Veiga Leitão

MANHÃ

 

- Bom dia. Diz-me um guarda.

Eu não ouço...apenas olho

das chaves o grande molho

parindo um riso na farda.

 

Vómito insuportável de ironia

Bom dia, porquê bom dia?

 

Olhe, senhor guarda

(no fundo a minha boca rugia)

aqui é noite, ninguém mora,

deite esse bom dia lá fora

porque lá fora é que é dia!

 

In “Noite de Pedra”

 

Luís Veiga Leitão **

(1912-1987)

 

** Pseudónimo de Luís Maria Leitão

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Sexta-feira, 13 de Setembro de 2019

Recordando... Célia Moura

DESTINO

 

Minhas mãos

Que jamais tocaram teu corpo, mulher,

Saboreiam teu andar de cigana,

Descalço,

Sobre o trigo.

Esse trigo já maduro, já rebelde do perder da infância…

Meu amor de abandono e de segredo,

Qual absinto.

Rosa vermelha entre os seios…ombros largos de Abril.

Meu destino.

 

Guardo teu riso de euforia a despertar todas as alvoradas

Minha amante, meu suplício…

 

Guardo tuas lágrimas de menina como uma promessa

Nenúfar de luar.

…E no teu ventre por mim incendiado de ternura,

Mulher,

Resplandecerá Semente

Tal como o lavrador lançando o arado à terra,

Só para ser tua eira, teu caminho, tua vereda,

O próprio pó que acaricia teus pés,

E poder contemplar-te para sempre

Na gestação de um hino,

Ou num grito,

Que minhas mãos erguem à ventania num compasso

De sinfonia,

Este pão, este caminho parido como um filho,

Este diálogo entre o silêncio e a coragem,

Entre o sangue e a seiva de um povo num agitar de bandeira,

No teu ventre de Mulher.

 

In “Enquanto Sangram As Rosas…”

Edição do autor com apoio da C.M. Loures

 

Célia Moura

(N.1971)

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Sábado, 7 de Setembro de 2019

Recordando... António Vera

DENTRO DE MIM CAI A PEDRA

 

Dentro de mim cai a pedra

Que me arrasta para o fundo.

As pistolas inundadas

Deste amor de que me inundo

Só me pesam. Punhais de aço

O que podem contra água?

De tudo quanto era garra

Me desentrego e desfaço.

 

Ficam-me os olhos no espaço

E o coração por guitarra.

 

In “ÁRVORE ”

Folhas de Poesia

Direcção e Edição de António Luís Moita, António Ramos Rosa, José Terra, Luís Amaro, Raul de Carvalho

1.º Fascículo - Outono de 1951

Pág. 15

 

António Vera

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Domingo, 1 de Setembro de 2019

Recordando... Luís Pignatelli

SONETILHO PARA UMA ADOLESCENTE

 

Que vento norte

Na manhã do mar

Sopra teus seios

De flores de morte?

 

Que nuvem arde

Sobre o teu corpo

Teu corpo aberto

À tempestade?

 

Que vaga lua

Virá de noite

Doce tanagra

 

Pôr-te mais nua

Que a nua praia

Doce e amarga?

 

In "Obra Poética"

Organização, prefácio e notas de Zetho Cunha Gonçalves

Editora &etc - 1999

Pág. 84

 

Luís Pignatelli **

(1935-1993)

 

** Pseudónimo de Luís Oliveira de Andrade

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