Domingo, 30 de Junho de 2019

Recordando... Fernando Pessoa

A MORTE É A CURVA DA ESTRADA

 

A morte é a curva da estrada,

Morrer é só não ser visto.

Se escuto, eu te oiço a passada

Existir como eu existo.

 

A terra é feita de céu.

A mentira não tem ninho.

Nunca ninguém se perdeu

Tudo é verdade e caminho.

 

Cancioneiro

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

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Terça-feira, 25 de Junho de 2019

Recordando... Álvaro de Campos

AH, ABRAM-ME OUTRA REALIDADE!

 

Ah, abram-me outra realidade!

Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos

E ter visões por almoço.

Quero encontrar as fadas na rua!

Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,

Desta civilização feita com pregos.

Quero viver, como uma bandeira à brisa,

Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!

 

Depois encerrem-me onde queiram.

Meu coração verdadeiro continuará velando

Pano brasonado a esfinges,

No alto do mastro da visões

Aos quatro ventos do Mistério.

O Norte – o que todos querem

O Sul – o que todos desejam

O Este – de onde tudo vem

O Oeste – aonde tudo finda

– Os quatro ventos do místico ar da civilização

– Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo

 

4-4-1924

 

In “Poesia”

Edição de Teresa Rita Lopes

Assírio & Alvim – 2002

 

Álvaro de Campos

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Quarta-feira, 19 de Junho de 2019

Recordando... Alberto Caeiro

O QUE VALE A MINHA VIDA?

 

O que vale a minha vida? No fim (não sei que fim)

Um diz: ganhei trezentos contos,

Outro diz: tive três mil dias de glória,

Outro diz: estive bem com a minha consciência e isso é bastante...

E eu, se lá aparecerem e me perguntarem o que fiz,

Direi: olhei para as cousas e mais nada.

E por isso trago aqui o Universo dentro da algibeira.

E se Deus me perguntar: e o que viste tu nas cousas?

Respondo: apenas as cousas... Tu não puseste lá mais nada.

E Deus que é da mesma opinião. Fará de mim uma nova espécie de santo.

 

[Poemas Inconjuntos]

 

In “Poesia”

Ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith

Assírio & Alvim

 

Alberto Caeiro

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Quinta-feira, 13 de Junho de 2019

Recordando... Fernando Pessoa

LIBERDADE

 

Ai que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada,

Estudar é nada.

O sol doira

Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa...

 

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!

 

Grande é a poesia, a bondade e as danças...

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

 

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca...

 

In “Seara Nova” N.º 526 – 11/9/1937

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

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Sexta-feira, 7 de Junho de 2019

Recordando... Alexander Search

CANÇÃO PARA FANNY

 

Vimos da onda, da costa

Em som arrebatador,

E da aragem que recosta

Numa nuvem seu langor;

Vimos do rio que murmura,

Da folhagem que sussurra,

Nós vimos alegremente.

 

Como os pingos do orvalho,

Brilhantes e numerosos

Nós descemos até Fanny

Como os dias luminosos;

Do alto cume do monte

E do cintilar da fonte,

Nós vimos alegremente.

 

Vimos do vale, da colina,

Da montanha, do valado;

Da tristeza da tardinha

Com tanto conto contado;

Do prado em sua doçura,

Da sombra em sua frescura,

Nós vimos alegremente.

 

Habitámos no salgueiro

E no ninho que acoberta,

Mas fizemos travesseiro

Do coração do poeta;

E de tudo o que repassa

As almas de amor e graça,

Nós vimos alegremente.

 

In “Poesia”

Edição e tradução de Luísa Freire

Assírio & Alvim – 1999

 

Alexander Search

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Sábado, 1 de Junho de 2019

Recordando... Ricardo Reis

AQUI, NESTE MISÉRRIMO DESTERRO

 

Aqui, neste misérrimo desterro

Onde nem desterrado estou, habito,

Fiel, sem que queira, àquele antigo erro

Pelo qual sou proscrito.

O erro de querer ser igual a alguém

Feliz, em suma — quanto a sorte deu

A cada coração o único bem

De ele poder ser seu.

 

6-4-1933

 

In “Odes de Ricardo Reis”

Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor

Ática, 1946 (imp.1994)

Pág. 153

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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