Sexta-feira, 31 de Maio de 2019

Recordando... Nuno Júdice

DEFINIÇÃO

 

Quem esquece o amor, e o dissipa, saberá

que sentimento corrompe, ou apenas se o coração

se encontra no vazio da memória? O vento

não percorre a tarde com o seu canto alucinado,

que só os loucos pressentem, para que tu

o ignores; nem a sabedoria melancólica das árvores

te oferece uma sombra para que lhe

fujas com um riso ágil de quem crê

na superfície da vida. Esses são alguns limites

que a natureza põe a quem resiste à convicção

da noite. O caminho está aberto, porém,

para quem se decida a reconhecê-los; e os própnos

passos encontram a direcção fácil nos sulcos

que o poema abriu na erva gasta da linguagem. Então,

entra nesse campo; não receies o horizonte

que a tempestade habita, à tarde, nem o vulto inquieto

cujos braços te chamam. Apropria-te do calor

seco dos vestíbulos. Bebe o licor

das conchas residuais do sexo. Assim, os teus lábios

imprimem nos meus uma marca de sangue, manchando

o verso. Ambos cedemos à promiscuidade do poente,

ignorando as nuvens e os astros. O amor

é esse contacto sem espaço,

o quarto fechado das sensações,

a respiração que a terra ouve

pelos ouvidos da treva.

 

In "Um Canto na Espessura do Tempo"

Quetzal Editores

 

Nuno Júdice

(N.1949)

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Sábado, 25 de Maio de 2019

Recordando... Pedro Homem de Mello

REVELAÇÃO

Tinha quarenta e cinco... e eu, dezasseis...
Na minha fronte, indómitos anéis
Vinham da infância, saltitando ainda.

Contavam dela: — Já falou a reis!
Tinha quarenta e cinco... e eu, dezasseis...
Formosa? Não. Mais que formosa: linda.

Seu olhar diz: Seja o que o Amor quiser
A verdade planta que os meus dedos tomem!

Pela última vez foste mulher...
E eu, pela vez primeira, fui um homem!

 

Pedro Homem de Mello

(1904-1984)

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Domingo, 19 de Maio de 2019

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

QUEM ME ROUBOU O TEMPO

 

Quem me roubou o tempo que era um

quem me roubou o tempo que era meu

o tempo todo inteiro que sorria

onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro

e onde por si mesmo o poema se escrevia

 

In “Cem poemas de Sophia”

Org. de José Carlos de Vasconcelos

Edição de Visão - 2004

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(1919-2004)

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Segunda-feira, 13 de Maio de 2019

Recordando... Ruy Belo

NÓS OS VENCIDOS DO CATOLICISMO

 

Nós os vencidos do catolicismo

que não sabemos já donde a luz mana

haurimos o perdido misticismo

nos acordes dos carmina burana

 

Nós é que perdemos na luta da fé

não é que no mais fundo não creiamos

mas não lutamos já firmes e a pé

nem nada impomos do que duvidamos

 

Já nenhum garizim nos chega agora

depois de ouvir como a samaritana

que em espírito e verdade é que se adora

Deixem-me ouvir os carmina burana

 

Nesta vida é que nós acreditamos

e no homem que dizem que criaste

se temos o que temos o jogamos

«Meu deus meu deus porque me abandonaste?»

 

In “Obra Poética”

 

Ruy Belo

(1933-1978)

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Terça-feira, 7 de Maio de 2019

Recordando... Teresa Brinco de Oliveira

PORQUE ME SINTO VIDA

 

Não me apago hoje...

Antes árvore vacilante ao vento

barco em tempestades mansas

campo de girassóis

 

Não me apago hoje...

Hoje sou construção

castelo feito quimeras

contidas numa só mão

 

Não me apago hoje...

antes onda que me navegue

mar de tantas descobertas

astrolábio dos meus lábios

 

Entranhar-me em mim

é sulcar-me oceano inteiro

sortilégio de madrugadas claras

e pecar em anoiteceres salgados

 

É ser maçã serpenteando a chuva

Gota de orvalho em uva

é ser pingo de mel

derramado em pétalas

 

Não me apago hoje

nem amanhã nem nunca...

Sonhar –me é ter-me

num corpo suplicando chama

e acesa quero arder

em cada aurora da vida

em cada acontecer.

 

In "Laços de luar e outras histórias"

Editora Edita-Me

 

Teresa Brinco de Oliveira

(N.1961)

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Quarta-feira, 1 de Maio de 2019

Recordando... Vitorino Nemésio

A TEMPO

 

A tempo entrei no tempo,

Sem tempo dele sairei:

Homem moderno,

Antigo serei.

Evito o inferno

Contra tempo, eterno

À paz que visei.

Com mais tempo

Terei tempo:

No fim dos tempos serei

Como quem se salva a tempo.

E, entretanto, durei.

 

In “O Verbo e a Morte”

Moraes Editora

 

Vitorino Nemésio

(1901-1978)

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