Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2019

Recordando... Sebastião da Gama

COMPANHEIRA

 

Não te busquei, não te pedi: vieste.

E desde que eu nasci houve mil coisas

que a meus olhos se deram com igual

simplicidade: o Sol, a manhã de hoje,

essa flor que é tão grácil que a não quero,

o milagre das fontes pelo Estio...

Vieste (O Sol veio também, a flor,

a manhã de hoje, as águas... ). Alegria,

mas calada alegria, mas serena,

entendimento puro, natural

encontro, natural como a chegada

do Sol, da flor, das águas, da manhã,

de ti, que eu não buscara nem pedira.

E o Amor? E o Amor? E o Amor?

- Vieste.

 

In “Campo Aberto”

Editora Ática

 

Sebastião da Gama

(1924-1952)

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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2019

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

ÀS VEZES

 

Às vezes julgo ver nos meus olhos

A promessa de outros seres

Que eu podia ter sido,

Se a vida tivesse sido outra.

 

Mas dessa fabulosa descoberta

Só me vem o terror e a mágoa

De me sentir sem forma, vaga e incerta

Como a água.

 

POESIA I

 

In "Obra Poética I"

Editorial Caminho

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(1919-2004)

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Sábado, 19 de Janeiro de 2019

Recordando... Vasco Graça Moura

AMAR-TE CORPO A CORPO

 

Se é esta a doce lei que eu imagino

do amor que nos impõe o seu ditado,

amar-te corpo a corpo é o meu fado

E amarrar-me a ti o meu destino

 

sentir a própria alma em carne viva

respirar boca a boca e nesse jogo

atravessar-me em fogo no teu fogo

e  alimentá-lo a beijos e saliva

 

se mais atino quando desatino

por meus jeitos de amor alvoroçado

é no alto mar revolto e desmaiado

que entre peripécias loucas me declino,

 

sendo cada carícia a mais lasciva

a inventar seus rumos afinal

na pura escuridão, na mais carnal,

que me cativa a mim e te cativa

 

entre as línguas, os sorvos, as gargantas,

doces gemidos, ternas resistências

e violências brandas, impaciências,

e tantas mais caricias, tantas, tantas

 

In “A Puxar Ao Sentimento”

Quetzal Editores

 

Vasco Graça Moura

(1942-2014)

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Domingo, 13 de Janeiro de 2019

Recordando... Edmundo de Bettencourt

HORAS

 

Gelava o tempo branco do relógio.

Fundiu-se um dia o mostrador

aberto para dentro

num foco por onde as horas negras fugiram enlouquecidas!

Lá para longe na faixa rósea da distância

recuaram ante o incessante alarido dos sinos

e logo regressaram

desesperadamente procurando em vão

o maquinismo do relógio.

Via-se a dia fechado de silêncio

num quadrado de luz amarelada

e de novo preso o pé do jovem

quando ia para sair...

 

Lisboa, 1934

 

In Revista “Pirâmide”

Nº 3 – Dezembro.1960 – Ano I

Pág. 44

 

Edmundo de Bettencourt

(1889-1973)

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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2019

Recordando... Alexandre O'Neil

O MELHOR PRETEXTO

     

É tão frágil a vida,

tão efémero, tudo!

(Não é verdade, amiga,

olhinhos-cor-de-musgo ?)

    

E ao mesmo tempo é forte,

forte da veleidade,

de resistir à morte

quanto maior a idade.

  

Assim, aos trinta e sete,

fechados alguns ciclos,

a vida ainda pede

mais sentimento, vínculos.

    

Não tanto os que nos deram

a fúria de viver,

como esses descobertos

depois de se saber

     

Que a vida não é outra

senão a que fazemos

(e a vida é uma só,

pois jamais voltaremos).

   

Partidários da vida,

melhor: do que está vivo,

digamos "não!" a tudo

que tenha outro sentido.

  

E que melhor pretexto

(quem o saiba que o diga!)

teremos p'ra viver

senão a própria vida?

    

In "Poemas com endereço"

Moraes Editores

 

Alexandre O'Neil

(1924-1986)

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Terça-feira, 1 de Janeiro de 2019

Recordando... Afonso Duarte

ORAÇÃO

 

Sol, meu tesouro e luz dos meus sentidos,

O Sol da minha terra.

Sol a que meu espectro à flor dos campos erra,

E os cavadores cantam sucumbidos,

Terrosos como corpo em sepultura.

Seu destino fatal de imperfeição e agrura!

Ó elegias do Sol caindo no horizonte!

Rostos cristãos, os cavadores,

Rompe do saibro  a sua fronte,

Rios são água de suores.

Sol, esposo da Terra, e Sol, meu pai dos Céus,

A ti respeito, adoração!

Hoje sacra harmonia, antes Apolo pagão.

Homens dos homens somos réus.

 

In “Rapsódia do Sol-Nado e Ritual do Amor”

Renascença Portuguesa

 

Afonso Duarte

(1884-1958)

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