Sexta-feira, 30 de Novembro de 2018

Recordando... Marcolino Candeias

ROTA DE ÍTACA

 

Mas se tenho de partir que de novo eu parta

é talvez bem melhor do que ficarem

meus pés no cais chumbados em argola

meus olhos no horizonte ao sonho a velejar.

 

Que eu parta. E assuma o risco de partir

fender a bruma sobre este coração cerrada

colher num bojador espinhos perfumados

partir e não saber em que angra fundear.

 

Largar amarras. Ir decifrando

quantos portulanos na vida houver a decifrar.

E se no fim faltar o cais para a chegada

o mar também é terra onde morar.

 

In “Na Distância deste Tempo”

Edições Salamandra

 

Marcolino Candeias

(1952-2016)

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Domingo, 25 de Novembro de 2018

Recordando... Daniel Faria

TENHO SAUDADES DO CALOR Ó MÃE

 

Tenho saudades do calor ó mãe que me penteias

Ó mãe que me cortas o cabelo — o meu cabelo

Adorna-te muito mais do que os anéis

 

Dá-me um pouco do teu corpo como herança

Uma porção do teu corpo glorioso — não o que já tenho —

O que em ti já contempla o que os santos vêem nos céus

Dá-me o pão do céu porque morro

Faminto, morro à míngua do alto

 

Tenho saudades dos caminhos quando me deixas

Em casa. Padeço tanto

Penso tanto

Canto tão alto quando calculo os corpos celestes

 

Ó infinita ó infinita mãe

 

In "Dos Líquidos"

Fundação Manuel Leão - Porto

 

Daniel Faria

(1971-1999)

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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018

Recordando... Américo Cortês Pinto

AQUÁRIO

 

Para que serve a Inquietação? Oh, alma inquieta

E em fogo!

Peixe vermelho do aquário

Que tem o mundo sem fim

Só na ilusão dos meus olhos!

Tenta varar a vida lado a lado,

E corta em frente

O aquário transparente…

Mas anda à roda, à roda,

Teimosamente à roda,

Inutilmente à roda,

Desesperado e iludido,

– Porque o mundo, adonde mora

Seu sonho, fica de fora

Do seu aquário de vidro…

 

In “A Alma e o Deserto”

Portugália Editora

 

Américo Cortês Pinto

(1896-1979)

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Terça-feira, 13 de Novembro de 2018

Recordando... José Saramago

POEMA À BOCA FECHADA

 

Não direi:

Que o silêncio me sufoca e amordaça.

Calado estou, calado ficarei,

Pois que a língua que falo é de outra raça.

 

Palavras consumidas se acumulam,

Se represam, cisterna de águas mortas,

Ácidas mágoas em limos transformadas,

Vaza de fundo em que há raízes tortas.

 

Não direi:

Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,

Palavras que não digam quanto sei

Neste retiro em que me não conhecem.

 

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,

Nem só animais bóiam, mortos, medos,

Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam

No negro poço de onde sobem dedos.

 

Só direi,

Crispadamente recolhido e mudo,

Que quem se cala quando me calei

Não poderá morrer sem dizer tudo.

 

In “Os Poemas Possíveis”

Editorial Caminho

 

José Saramago

(1922-2010)

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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2018

Recordando... Cesário Verde

VAIDOSA

 

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.

Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.

Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração como as estátuas.

E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.

Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loira e doirada como as messes,
E possuis muito amor... muito amor próprio.

 

In “O Livro de Cesário Verde”

 

Cesário Verde

(1855-1886)

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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2018

Recordando... Alexandre O'Neill

QUE VERGONHA, RAPAZES

 

Que vergonha, rapazes! Nós práqui

caídos na cerveja ou no uísque,

a enrolar a conversa no "diz que"

e a desnalgar a fêmea ("Vist'? Viii!")

 

Que miséria, meus filhos! Tão sem geito

é esta videirunha à portuguesa,

que às vezes me soergo no meu leito

e vejo entrar quarta invasão francesa.

 

Desejo recalcado, com certeza...

mas logo desço à rua, encontro o Roque

("O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!")

e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:

 

você nunca quis ver outros países?

- Bem queria, sr. O'Neill! E... as varizes?

 

In "De ombro na ombreira"

 

Alexandre O'Neill

(1924-1986)

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