Terça-feira, 31 de Julho de 2018

Recordando... Soror Violante do Céu

SE APARTADA DO CORPO A DOCE VIDA

Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte
Se ausente da alma estou, que me dá vida?

Não quero sem Silvano já ter vida,
Pois tudo sem Silvano é viva morte;
Já que se foi Silvano, venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida.

Ah! suspirando ausente, se esta morte
Não te obriga querer vir dar-me vida,
Como não ma vem dar a mesma morte?

Mas se na alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.

 

In “Cem Sonetos Portugueses”

(Selecção, organização e introdução de

José Fanha e José Jorge Letria)

Terramar Editores

 

Soror Violante do Céu

(1601-1693)

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Quarta-feira, 25 de Julho de 2018

Recordando... Cândida Ayres de Magalhães

MOCIDADE

 

Não ter amor, esperança ou fé que alente,

não ter sequer um bem que nos sorria,

nem consolo, nem paz... e não ter guia

na vida que promete e assim nos mente;

 

sentir, dentro de nós, sempre gemente,

o coração faminto de alegria,

como um cego que pela luz do dia

viva a chorar na sua noite ingente-;

 

bradar, erguendo os braços para a Morte:

“Em ti encontrarei quem me conforte;

Oh! leva quem não deixa uma saudade!...”

 

E volver-nos, de longe, a Morte: “É cedo,

és moço ainda, cumpre o teu degredo!”

Para quantos é isto a mocidade...

 

In “Antologia da Poesia Feminina Portuguesa”

Organizada por António Salvado

Edições JF (Jornal do Fundão)

 

Cândida Ayres de Magalhães

(1875-1964)

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Quinta-feira, 19 de Julho de 2018

Recordando... Vicente Campinas

UMA CANÇÃO DE PAZ

 

Arraza tudo que se oponha à tua

aspiração de ver a paz na terra

Que a guerra mesmo a menos crua

é sempre guerra

Ergue bem alto a força da palavra

e torna-a mais potente que o canhão

Que a guerra seja apenas sombra escrava

da má recordação

 

Arraza tudo que se oponha à tua

decisão de alcançar a paz na terra

Que a guerra mesmo a menos crua

é crime é sempre guerra

 

In "Raiz da Serenidade"

Edição do autor - 1967

 

Vicente Campinas

(1910-1998)

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Sexta-feira, 13 de Julho de 2018

Recordando... Albano Martins

ACONTECIMENTO

 

Tu choravas e eu ia apagando

com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas

– riscos na areia mole e quente do teu rosto.

Choravas como quem se procura.

E eu descobria mundos, inventava nomes,

enquanto ia espremendo com as mãos

o meu sangue todo no teu sangue.

 

Não sei se o mundo existia e nós existíamos, realmente.

Sei que tudo estava suspenso

esperando não sei que grave acontecimento

e que milhares de insectos paravam e zumbiam nos meus sentidos.

Só a minha boca era uma abelha inquieta

percorrendo e picando o teu corpo de beijos.

 

Depois só dei pela manhã,

a manhã atrevida,

entrando devagar, muito devagar e acordando-me.

Desviei os meus olhos para ti:

ao longo do teu corpo morriam as estrelas.

A noite partira. E, lentamente,

o sol rompeu no céu da tua boca.

 

In “ÁRVORE ”

Folhas de Poesia

Direcção e Edição de António Luís Moita, António Ramos Rosa,

José Terra, Luís Amaro, Raul de Carvalho

2.º Fascículo - Inverno de 1951

Pág. 98

 

Albano Martins

(1930-2018)

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Sábado, 7 de Julho de 2018

Recordando... Carlos de Lemos

ALÉM DA MORTE

 

Fecho os olhos num sonho que me leva

Às paragens divinas da saudade,

Lá onde a noite é apenas claridade

Dando origem talvez a nova treva.

 

Fecho os olhos e avisto a Eternidade,

Lá onde um sol fantástico se eleva

Num perpétuo fulgor, sem que descreva

Sua órbita de luz na imensidade.

 

Fecho os olhos e vejo a minha imagem

Anoitecendo os longes da paisagem,

Como a única sombra que persiste...

 

Sou eu! sou eu aquele vulto errando!

Sou eu, além da morte ainda sonhando

Na tua graça e neste amor tão triste!...

 

In “Palingenésia”

 

Carlos de Lemos

(1867-1954)

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Domingo, 1 de Julho de 2018

Recordando... Adolfo Casais Monteiro

ACTO DE CONTRIÇÃO

 

Pelo que não fiz, perdão! 

Pelo tempo que vi, parado,

correr chamando por mim,

pelos enganos que talvez

poupando me empobreceram,

pelas esperanças que não tive

e os sonhos que somente

sonhando julguei viver,

pelos olhares amortalhados

na cinza de sóis que apaguei

com riscos de quem já sabe,

por todos os desvarios

que nem cheguei a conceber,

pelos risos, pelas lágrimas,

pelos beijos e mais coisas,

que sem dó de mim malogrei

 

– por tudo, vida, perdão!

 

In “Poesias Completas - 1969”

 

Adolfo Casais Monteiro   

(1908-1972)

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