Sábado, 31 de Março de 2018

Recordando... Manuel da Fonseca

SEGUNDO DOS POEMAS DA INFÂNCIA

 

Quando foi que demorei os olhos

sobre os seios nascendo debaixo das blusas,

das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...

... Como nasci poeta,

devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso

e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.

Quando, não sei ao certo.

 

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,

foi um grande mistério.

Tão grande

que eu corria até ao cansaço.

E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,

como sejam os pássaros quando passam voando.

E desafiava,

sem razão aparente,

rapazes muito mais velhos e fortes!

E uma vez,

de cima de um telhado,

joguei uma pedrada tão certeira,

que levou o chapéu do senhor administrador!

Em toda a vila,

se falou, logo, num caso de política;

o senhor administrador

mandou vir, da cidade, uma pistola,

que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;

e os do partido contrário,

deixaram crescer o musgo nos telhados

com medo daquela raiva de tiros para o céu...

 

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!

 

In “Obra Poética”

Editorial Caminho

 

Manuel da Fonseca

(1911-1993)

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Domingo, 25 de Março de 2018

Recordando... João Apolinário

É PRECISO AVISAR…

 

É preciso avisar toda a gente

dar notícia informar prevenir

que por cada flor estrangulada

há milhões de sementes a florir

 

É preciso avisar toda a gente

segredar a palavra e a senha

engrossando a verdade corrente

duma força que nada detenha

 

É preciso avisar toda a gente

que há fogo no meio da floresta

e que os mortos apontam em frente

o caminho da esperança que resta

 

É preciso avisar toda a gente

transmitindo este morse de dores

É preciso imperioso e urgente

mais flores mais flores mais flores

 

In “Morse de Sangue”

Editora Gráficos Reunidos

 

João Apolinário

(1924-1988)

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Segunda-feira, 19 de Março de 2018

Recordando... Camilo Pessanha

FOI UM DIA DE INÚTEIS AGONIAS

 

Foi um dia de inúteis agonias.
Dia de sol, inundado de sol!...
Fulgiam nuas as espadas frias...
Dia de sol, inundado de sol!...

 

Foi um dia de falsas alegrias.
Dália a esfolhar-se, – o seu mole sorriso...
Voltavam os ranchos das romarias.
Dália a esfolhar-se, – o seu mole sorriso...

 

Dia impressível mais que os outros dias.
Tão lúcido... Tão pálido... Tão lúcido!...
Difuso de teoremas, de teorias...

 

O dia fútil mais que os outros dias!
Minuete de discretas ironias...
Tão lúcido... Tão pálido... Tão lúcido!...

 

Clepsidra

 

In ”Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

Camilo Pessanha

(1867-1926)

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Terça-feira, 13 de Março de 2018

Recordando... João Carlos Esteves

SOPRO

 

Sopro-te um beijo

sempre que respiro

as marcas da tua presença

na linha dos dias

meus

 

Dou-te o mar, o céu, as estrelas,

nas palavras que te invento

e te afagam docemente

em sentires que fazes

teus

 

In “Absolvição”

Edições Temas Originais

 

João Carlos Esteves

(N.1961)

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Quarta-feira, 7 de Março de 2018

Recordando... Ivone Chinita

É A GUERRA, MEU AMOR

 

É a guerra

meu amor, é a guerra

 

e os homens que fazem a guerra

não sabem o que é

Natal sem lâmpadas

mesas sem flores

tardes sem mãos.

Não entendem

isso não!

A metafísica das árvores no Natal

nem essa questão

de andar de mãos dadas

todo o ano

 

Para eles

o símbolo da continuidade

está nos filhos

carne do seu próprio nome

 

Se entendessem, meu amor

não teria morrido

o soldado que nunca vi

e tem dois filhos pequenos

 

Se entendessem, meu amor

não haveria uma esposa

apenas com um par de mãos

 

Mas eles não entendem

não entendem isto

de andar de mãos dadas

todo o ano, meu amor

 

In “Antologia da memória poética da Guerra Colonial”

Edições Afrontamento, 2011

 

Ivone Chinita

(1943-1983)

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Quinta-feira, 1 de Março de 2018

Recordando... Al Berto

ACORDAR TARDE

 

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu

quando o rio parou de correr e a noite

foi tão luminosa quanto a mota que falhou

a curva - e o serviço postal não funcionou

no dia seguinte

 

procuras ávido aquilo que o mar não devorou

e passas a língua na cola dos selos lambidos

por assassinos - e a tua mão segurando a faca

cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado

dos amantes ocasionais - nada a fazer

 

irás sozinho vida dentro

os braços estendidos como se entrasses na água

o corpo num arco de pedra tenso simulando

a casa

onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

 

In "Horto de Incêndio"

Ed. Assírio & Alvim - 2000

 

Al Berto **

(1948-1997)

 

** Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares

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