Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018

Recordando... José Miguel Silva

NÃO É TARDE

 

O amor é como o fogo, não se propaga

onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,

eu fecho mais a porta.

 

Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro

funciona! Poderoso combustível

é o corpo. Acende deste lado.

 

Ainda não é tarde, foi agora anunciado

pela rádio, são dezoito e vinte cinco.

Respira-nos, repara, a ilusão

 

de que a vida não se esgota, como os saldos

de verão. E a morte, à medida que te despes,

vai perdendo o nosso número de telefone.

 

In “Ulisses já não mora aqui”

Editora & etc

 

José Miguel Silva

(N. 1969)

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Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2018

Recordando... José Jorge Letria

QUANDO EU FOR PEQUENO

 

Quando eu for pequeno, mãe,

quero ouvir de novo a tua voz

na campânula de som dos meus dias

inquietos, apressados, fustigados pelo medo.

Subirás comigo as ruas íngremes

com a certeza dócil de que só o empedrado

e o cansaço da subida

me entregarão ao sossego do sono.

 

Quando eu for pequeno, mãe,

os teus olhos voltarão a ver

nem que seja o fio do destino

desenhado por uma estrela cadente

no cetim azul das tardes

sobre a baía dos veleiros imaginados.

 

Quando eu for pequeno, mãe,

nenhum de nós falará da morte,

a não ser para confirmarmos

que ela só vem quando a chamamos

e que os animais fazem um círculo

para sabermos de antemão que vai chegar.

 

Quando eu for pequeno, mãe,

trarei as papoilas e os búzios

para a tua mesa de tricotar encontros,

e então ficaremos debaixo de um alpendre

a ouvir uma banda a tocar

enquanto o pai ao longe nos acena,

lenço branco na mão com as iniciais bordadas,

anunciando que vai voltar porque eu sou

pequeno

e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

 

In "O Livro Branco da Melancolia"

Quetzal Editores

 

José Jorge Letria

(N.1951)

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Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018

Recordando... Luís Adriano Carlos

UM VERSO VEM

 

Um verso vem. Calculo o peso da neblina

que envolve o seu teor, o preso ritmo

da esfera em movimento: cerro o olhar na alma tensa

que ao longo do percurso mais ensina. O verso

vem por si em si da imagem que vier

no imaginar do corpo em sua ascese leve, peso

de uma estrutura fina ao seu redor.

 

Um verso vem. O olhar na alma mais se inclina.

 

In “Livro de Receitas”

Campo das Letras - 2000

 

Luís Adriano Carlos

(N. 1959)

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Sábado, 13 de Janeiro de 2018

Recordando... Sena Camacho

SE PENSO

 

Se penso,

em quem sou me estranho;

Se fico,

há sempre um sonho

amarfanhado no espírito;

Se fujo,

há sempre uma razão

que me alcança sobre o abismo.

E assim se me consome a vontade,

inutilmente.

 

In Revista “Pirâmide”

Nº 2 – Junho.1959 – Ano I

Pág. 22

 

Sena Camacho

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Domingo, 7 de Janeiro de 2018

Recordando... Vasco Costa Marques

O MAR MAR DE PESCAR

 

O mar mar de pescar

quase não há

Um destino de dor e de paixão

pão de pedra da fome

enreda lentamente o pescador

lentamente o consome

 

E face a esta morte anunciada

ao Velho do Restelo só lhe resta

pegar no seu bordão e na sacola

e ir pedir reforma antecipada

que para ele decerto

é coisa ainda mais amarga

do que pedir esmola

 

In “Algumas Trovas de Haver o Mar e um Post Scriptum”

Editora Campo das Letras

 

Vasco Costa Marques

(1928-2006)

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Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2018

Recordando... Luís Miguel Nava

PAIXÃO

 

Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos

situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos

erguer entre eles uma parede e abrir

depois caminho à água.

 

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia

de súbito em profundas minas, a memória

das suas mais longínquas galerias

extrai aquilo de que é feito o coração.

 

Ficávamos no quarto, onde por vezes

o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior

paixão que pelo coração se chega à pele.

Não há então entre eles nenhum desnível.

 

In “Poemas de amor “

Antologia de Poesia Portuguesa

Org. Inês Pedrosa

Publicações Dom Quixote

 

Luís Miguel Nava

(1957-1996)

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