Quinta-feira, 13 de Junho de 2024

Recordando... Fernando Pessoa

NÃO TENHO HOJE MEMÓRIA, NESTE SONHO

 

Não tenho hoje memória, neste sonho

Que sou de mim, de quanto quis ser eu.

Nada de nada surge do medonho

Abismo de quem sou em Deus, do meu

Ser anterior a mim, a me dizer

Quem sou, esse que fui quando no céu,

Ou o que chamam céu, pude querer.

 

Sou entre mim e mim o intervalo —

Eu, o que uso esta forma definida —

Em outro mundo ulterior resvalo.

 

Em outro mundo, onde a vontade é lei,

Livremente escolhi aquela vida

Com que primeiro neste mundo entrei.

Livre, a ela fiquei preso e eu a paguei

Com o preço das vidas subsequentes

De que ela é a causa, o deus; e esses entes,

Por ser quem fui, serão o que serei.

 

[1932?]

 

In “Poemas Esotéricos - Fernando Pessoa” – 1ª edição Abril.2014

Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith

Assírio & Alvim

Pág. 96

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

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Sexta-feira, 7 de Junho de 2024

Recordando... Ricardo Reis 

VOSSA FORMOSA JUVENTUDE LEDA

 

Vossa formosa juventude leda,

Vossa felicidade pensativa,

Vosso modo de olhar a quem vos olha,

        Vosso não conhecer-vos – 

 

Tudo quanto vós sois, que vos semelha

À vida universal que vos esquece

Dá carinho de amor a quem vos ama

        Por serdes não lembrando

 

Quanta igual mocidade a eterna praia

De Cronos, pai injusto da justiça,

Ondas, quebrou, deixando à só memória

        Um branco som de espuma.

 

2-9-1923

 

In “Odes de Ricardo Reis”

Ática, 1946 (imp.1994)

Pág. 81

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Sábado, 1 de Junho de 2024

Recordando... Alberto Caeiro

SE O HOMEM FOSSE…

 

Se o homem fosse, como deveria ser,

Não um animal doente, mas o mais perfeito dos animais,

Animal directo e não indirecto,

Devia ser outra a sua forma de encontrar um sentido às cousas,

Outra e verdadeira.

Devia haver adquirido um sentido do «conjunto»;

Um sentido como ver e ouvir do «total» das cousas

E não, como temos, um pensamento do «conjunto»;

E não, como temos, uma ideia, do «total» das cousas.

E assim – veríamos – não teríamos noção do «conjunto» ou do «total»,

Porque o sentido do «total» ou do «conjunto» não vem de, um total ou de um conjunto

Mas da verdadeira Natureza talvez nem todo nem partes.

 

1-10-1917

 

(Poemas Inconjuntos)

 

In “Obra Poética e em Prosa”

Lello & Irmão

 

Alberto Caeiro

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Sexta-feira, 31 de Maio de 2024

Recordando... Gastão Cruz

GOLPE

 

Por medo da insónia adio o sono

nas noites em que com um golpe frio

a memória levanta a onda morta

do irrecuperável: o que adio?

 

Estou deitado num tempo muito extenso

entre a luz e o escuro, estou perdido

entre o imaginado e a verdade

de um mundo sem imagens: o que adio

 

não é o sono de que temo a falta

nem o sonho feroz nele contido

é a história do corpo percutindo

na fundura impiedosa do vazio

 

In “Existência”

Assírio & Alvim

 

Gastão Cruz

(1941-2022)

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Sábado, 25 de Maio de 2024

Recordando... Daniel Faria 

CONSERTO A PALAVRA…

 

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio

Restauro-a

Dou-lhe um som para que ela fale por dentro

Ilumino-a

 

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa

Reunida numa forma comparada à lâmpada

A um zumbido calado momentaneamente em exame

 

Ela não se come como as palavras inteiras

Mas devora-se a si mesma e restauro-a

A partir do vómito

Volto devagar a colocá-la na fome

 

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza

Como um homem nadando para trás

E sou uma energia para ela

 

E ilumino-a

 

In “Poesia”

Assírio & Alvim

 

Daniel Faria 

(1971-1999)

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Domingo, 19 de Maio de 2024

Recordando... Beatriz Pinheiro

ANHÉLIA

 

A tarde finda. O Sol, numa agonia,

Morde a terra co' a boca chamejante...

Na loura paz d'um sonho edulcorante

Feérica a paisagem irradia.

 

Curvada sobre o peito a fronte mésta,

Branca e radiosa, Anhélia, a peregrina,

Como impelida pela mão da Sina,

Sonâmbula, caminha p’rá floresta.

 

In “Ave Azul” - Revista de arte e crítica

Fascículo n.º1 - 15.Janeiro.1899

 

Beatriz Pinheiro

(1872-1922)

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Segunda-feira, 13 de Maio de 2024

Recordando... Fátima Maldonado

CERIMÓNIA FUNESTA

 

O corpo não responde

às vozes de comando,

como um cão estropiado

já desdenha os apelos

os antigos convites

às funestas moradas,

esqueceu-se do ponto

vai olvidando senhas

os códigos das grutas

acumulando lixos

as servidões austeras

diluem-se num canto

o corpo não atende chamadas

não estremece ao ruído da chave

não suporta

qualquer intromissão

secou num aterro,

os restos à vista

a memória escava

da lembrança os rastos

avidamente suga

de tal fausto os ossos,

de tão vitais cerimónias

nos tão secretos barcos

mesmo o pouco que resta

ainda se mastiga.

 

In "Vida Extenuada"

& etc Editora

 

Fátima Maldonado

(N.1941)

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Terça-feira, 7 de Maio de 2024

Recordando... Carlos Macedo

PORMENOR

 

Por não saber o porquê

Eu choro de nostalgia...

… Eu choro mas ninguém vê.

 

Nem ninguém me entenderia!

 

Pois eu choro e ninguém vê

Que choro da nostalgia

De não saber o porquê.

 

In “Altura“  

Cadernos de Poesia

N.º 1 de Fevereiro de 1945

 

Carlos Macedo

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Quarta-feira, 1 de Maio de 2024

Recordando... A. M. Pires Cabral

SILÊNCIO

 

Toda a minha vida me escutaste em silêncio.

Tinhas à disposição as vozes enormes

do vento, das águas, do trovão, do pintassilgo -

mas nunca dei por que as usasses comigo.

Envelheci enredado

nas teias dessa mudez.

Ganhei a industriosa astúcia dos velhos

à custa de perder a candura original,

li com cada vez mais desenganada luz

o teu silêncio.

Assim, a princípio achava-o cúmplice,

quente e generoso. Um silêncio

de quem concorda e apoia,

e não acha necessário proclamá-lo.

Com a continuação,

começou-me a parecer o teu silêncio

já só condescendência. O silêncio

de alguém que se dispensa de mostrar

desacordo por simples cortesia.

 

In “As Têmporas da Cinza”

Editora Cotovia  

A. M. Pires Cabral

(N.1941)

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Terça-feira, 30 de Abril de 2024

Recordando... Maria de Lourdes Belchior

COSTUMES BURGUESES

 

Steack au poivre... assim mesmo...

Não é qualquer bifeco de vaca portuguesa...

e quanto a especiarias, há séculos as deixámos

cair em mãos alheias. Sempre é mais saborosa

a pimenta francesa. E caracóis parisienses,

com requintes de garfo especial para os extrair das conchas

Nenhum parentesco com a lusitana caracoleira,

por mais bem temperada que seja...

Requintes burgueses, saborosos e caros

S. João Baptista comia gafanhotos no deserto

O Cristo porém não faltou a banquetes

e não consta que fizesse ali jejum...

Mas os pobres do Biafra? E os chinas de Cantão

Xangai ou Pequim com a malga diária de arroz

para a sua fome?

Desigualdades controversas... Mas, não come camarão

e lagostim o proletário, endinheirado pela Revolução?

Comentário reaccionário – dirão – E o cristão?

Há-de praticar os mesmos costumes burgueses

dos proletários ou dos burgueses seus irmãos?

Santa Teresa disse –  por piada? –  bem achada:

quando penitência, penitência

quando perdiz, perdiz. Encontrada

a solução para a equação?

Qual equação?

 

In “Gramática do Mundo”
INCA - Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1985

 

Maria de Lourdes Belchior

(1923-1999)

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