Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

Recordando... Miguel Torga **

INVERNO

 

Apagou-se a fogueira.

Que frio na lareira

Do coração!

Neva

Na solidão

Da vida.

E o vento traz e leva

Um recado de eterna despedida.

Amor! Amor!

Sei ainda o teu nome redentor,

Chamo ainda por ti a cada hora!

Arde outra vez em mim

Como ardias outrora,

Nos dias de ventura.

Não me deixes assim

Nesta algidez de morte prematura

 

Coimbra, 17 de Janeiro de 1978

 

In “Diário XIII”

Edições Dom Quixote

 

Miguel Torga **

(1907-1995)

 

** Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha

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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2019

Recordando... Eugénio de Andrade **

LITANIA

 

O teu rosto inclinado pelo vento;

a feroz brancura dos teus dentes;

as mãos, de certo modo, irresponsáveis,

e contudo sombrias, e contudo transparentes;

 

o triunfo cruel das tuas pernas,

colunas em repouso se anoitece;

o peito raso, claro, feito de água;

a boca sossegada onde apetece

 

navegar ou cantar, ou simplesmente ser

a cor dum fruto, o peso duma flor;

as palavras mordendo a solidão,

atravessadas de alegria e de terror,

 

são a grande razão, a única razão.

 

In “Até Amanhã”

Guimarães Editores

 

Eugénio de Andrade **

(1923-2005)

 

** Pseudónimo de José Fontinhas

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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2019

Recordando... Maria do Rosário Pedreira

NÃO SEI POR QUE RAZÃO O MUNDO SE INQUIETA

 

Não sei por que razão o mundo se inquieta

quando estamos sozinhos. Talvez não saiba

que esgotámos os olhos no rigor dos espelhos

e que, por isso, não somos capazes de traçar

um caminho senão para o evitarmos. Na verdade,

 

se cai a noite, estiolam-se as aventuras entre nós –

o teu silêncio respira longamente, às vezes

paira sobre as dunas do meu corpo a conspirar,

como um tear de nuvens a fiar tempestades

ou um vento salgado a prometer naufrágios;

mas nunca converte o assomo numa história.

 

Não sei porque se aflige tanto o mundo

se ficamos sozinhos. Talvez ignore

que nós não somos mar de nenhuma praia,

que escolhemos poupar às falésias as cicatrizes

das ondas; e tudo para não aprendermos

o verdadeiro nome das feridas.

 

In "Revista Relâmpago"

N.º 22 - Abril.2008

Edição da Fundação Luís Miguel Nava

 

Maria do Rosário Pedreira

(N.1959)

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Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2019

Recordando... Sebastião da Gama

COMPANHEIRA

 

Não te busquei, não te pedi: vieste.

E desde que eu nasci houve mil coisas

que a meus olhos se deram com igual

simplicidade: o Sol, a manhã de hoje,

essa flor que é tão grácil que a não quero,

o milagre das fontes pelo Estio...

Vieste (O Sol veio também, a flor,

a manhã de hoje, as águas... ). Alegria,

mas calada alegria, mas serena,

entendimento puro, natural

encontro, natural como a chegada

do Sol, da flor, das águas, da manhã,

de ti, que eu não buscara nem pedira.

E o Amor? E o Amor? E o Amor?

- Vieste.

 

In “Campo Aberto”

Editora Ática

 

Sebastião da Gama

(1924-1952)

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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2019

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

ÀS VEZES

 

Às vezes julgo ver nos meus olhos

A promessa de outros seres

Que eu podia ter sido,

Se a vida tivesse sido outra.

 

Mas dessa fabulosa descoberta

Só me vem o terror e a mágoa

De me sentir sem forma, vaga e incerta

Como a água.

 

POESIA I

 

In "Obra Poética I"

Editorial Caminho

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(1919-2004)

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Sábado, 19 de Janeiro de 2019

Recordando... Vasco Graça Moura

AMAR-TE CORPO A CORPO

 

Se é esta a doce lei que eu imagino

do amor que nos impõe o seu ditado,

amar-te corpo a corpo é o meu fado

E amarrar-me a ti o meu destino

 

sentir a própria alma em carne viva

respirar boca a boca e nesse jogo

atravessar-me em fogo no teu fogo

e  alimentá-lo a beijos e saliva

 

se mais atino quando desatino

por meus jeitos de amor alvoroçado

é no alto mar revolto e desmaiado

que entre peripécias loucas me declino,

 

sendo cada carícia a mais lasciva

a inventar seus rumos afinal

na pura escuridão, na mais carnal,

que me cativa a mim e te cativa

 

entre as línguas, os sorvos, as gargantas,

doces gemidos, ternas resistências

e violências brandas, impaciências,

e tantas mais caricias, tantas, tantas

 

In “A Puxar Ao Sentimento”

Quetzal Editores

 

Vasco Graça Moura

(1942-2014)

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Domingo, 13 de Janeiro de 2019

Recordando... Edmundo de Bettencourt

HORAS

 

Gelava o tempo branco do relógio.

Fundiu-se um dia o mostrador

aberto para dentro

num foco por onde as horas negras fugiram enlouquecidas!

Lá para longe na faixa rósea da distância

recuaram ante o incessante alarido dos sinos

e logo regressaram

desesperadamente procurando em vão

o maquinismo do relógio.

Via-se a dia fechado de silêncio

num quadrado de luz amarelada

e de novo preso o pé do jovem

quando ia para sair...

 

Lisboa, 1934

 

In Revista “Pirâmide”

Nº 3 – Dezembro.1960 – Ano I

Pág. 44

 

Edmundo de Bettencourt

(1889-1973)

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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2019

Recordando... Alexandre O'Neil

O MELHOR PRETEXTO

     

É tão frágil a vida,

tão efémero, tudo!

(Não é verdade, amiga,

olhinhos-cor-de-musgo ?)

    

E ao mesmo tempo é forte,

forte da veleidade,

de resistir à morte

quanto maior a idade.

  

Assim, aos trinta e sete,

fechados alguns ciclos,

a vida ainda pede

mais sentimento, vínculos.

    

Não tanto os que nos deram

a fúria de viver,

como esses descobertos

depois de se saber

     

Que a vida não é outra

senão a que fazemos

(e a vida é uma só,

pois jamais voltaremos).

   

Partidários da vida,

melhor: do que está vivo,

digamos "não!" a tudo

que tenha outro sentido.

  

E que melhor pretexto

(quem o saiba que o diga!)

teremos p'ra viver

senão a própria vida?

    

In "Poemas com endereço"

Moraes Editores

 

Alexandre O'Neil

(1924-1986)

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Terça-feira, 1 de Janeiro de 2019

Recordando... Afonso Duarte

ORAÇÃO

 

Sol, meu tesouro e luz dos meus sentidos,

O Sol da minha terra.

Sol a que meu espectro à flor dos campos erra,

E os cavadores cantam sucumbidos,

Terrosos como corpo em sepultura.

Seu destino fatal de imperfeição e agrura!

Ó elegias do Sol caindo no horizonte!

Rostos cristãos, os cavadores,

Rompe do saibro  a sua fronte,

Rios são água de suores.

Sol, esposo da Terra, e Sol, meu pai dos Céus,

A ti respeito, adoração!

Hoje sacra harmonia, antes Apolo pagão.

Homens dos homens somos réus.

 

In “Rapsódia do Sol-Nado e Ritual do Amor”

Renascença Portuguesa

 

Afonso Duarte

(1884-1958)

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Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2018

Recordando... Natália Correia

DE AMOR NADA MAIS RESTA QUE UM OUTUBRO

 

De amor nada mais resta que um Outubro

e quanto mais amada mais desisto:

quanto mais tu me despes mais me cubro

e quanto mais me escondo mais me avisto.

 

E sei que mais te enleio e te deslumbro

porque se mais me ofusco mais existo.

Por dentro me ilumino, sol oculto,

por fora te ajoelho, corpo místico.

 

Não me acordes. Estou morta na quermesse

dos teus beijos. Etérea, a minha espécie

nem teus zelos amantes a demovem.

 

Mas quanto mais em nuvem me desfaço

mais de terra e de fogo é o abraço

com que na carne queres reter-me jovem.

 

In “Poesia Completa”

Publicações Dom Quixote

 

Natália Correia

(1923-1993)

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