Quarta-feira, 7 de Abril de 2021

Recordando... Vitorino Nemésio

DEFESA

 

Guarda a manhã como uma rosa,

Molha-a, que a noite vem aí.

Dorme tu nos espinhos; goza

O que é próprio de ti.

 

Não dês flores a ninguém

Que tua mão lhe corte,

E, se puderes,

Leva as mais que puderes à tua morte

Em coroa que te fique bem.

 

Não gastes o jardim puro

De que tu mesmo és terra:

A tua vida, muro,

Teu coração a encerra.

 

Rosas façam de sangue os que as desejam;

Cada um se floresça:

As tuas não se vejam

Quando a roseira cresça.

 

Abre ao lume doído

Os botõezinhos novos.

No ninho despido,

Ave, os teus ovos.

 

Ao frio e ao escuro cria

Larvas de luz compostas

Do que deita alegria

Sobre as coisas que gostas.

 

Mas rosas dadas, não:

Nem que tu fosses flores

E raiz teu destino

Engrossando no chão.

As tuas flores

São do menino

Sempre foste. Não!

 

In “O Bicho Harmonioso”

 

 

(1901-1978)

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Quinta-feira, 1 de Abril de 2021

Recordando... Florbela Espanca

ÀS MÃES DE PORTUGAL

 

Ó mães doloridas, celestiais,

Misericordiosas,

Ó mães d’olhos benditos, liriais,

Ó mães piedosas

Calai as vossas mágoas, vossas dores!

Longe na crua guerra

Vossos filhos defendem, vencedores,

A nossa linda terra!

E se eles defendem a bandeira

Da terra que adorais,

Onde viram um dia a luz primeira

Ó mães, porque chorais?!

Uma lágrima triste, agora é

Cobardia, fraqueza!

Nos campos de batalha cai de pé

A alma portuguesa!

Pela terra de estrela e tomilhos,

De sol, e de luar;

Deixai ir combater os vossos filhos

Ao longe, heróis do mar!

Dum português bendito, sem igual

Eu sigo o mesmo trilho:

Por cada pedra deste Portugal

Eu arriscava um filho!

Por isso ó mãe doloridas, pelo leito

De morte, onde ajoelhais,

Esmagai vossa dor dentro do peito,

Ó mães não choreis mais!

A Pátria rouba os filhos, mas é mãe

A mãe de todos nós

Direito de a trair não tem ninguém

Ó mães nem sequer vós!

 

In “Trocando olhares” 1915-1917

Editora Martin Claret

 

Florbela Espanca

(1894-1930)

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Quarta-feira, 31 de Março de 2021

Recordando... Luís Filipe Castro Mendes

TENTAÇÃO

 

Eu não resistirei à tentação,

não quero que de mim possas perder-te,

que só na fonte fria da razão

renasça a minha sede de beber-te.

 

Eu não resistirei à tentação

de quanto adivinhei nesta amargura:

um sim que só assalta quem diz não,

um corpo que entrevi na selva escura.

 

Resistirei a te chamar paixão,

a te perder nos versos, nas palavras:

mas não resistirei à tentação

 

de te dizer que o céu é o que rasa

a luz que nos teus olhos eu perdi

e que na terra toda não mais vi.

 

"Os Amantes Obscuros"

 

In “Poesia reunida (1985-1999)”

Quetzal Editores

 

Luís Filipe Castro Mendes

(N.1950)

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Quinta-feira, 25 de Março de 2021

Recordando... Papiniano Carlos

MENINO POVO

 

O meu Menino Povo de olhos resplandecentes

mora

na choça negra de terra e colmo,

a meio da floresta,

entre a fome

e a noite.

E sua mãe pobre

nada mais tem para lhe dar

que dois grandes seios.

Agora

o piar das aves agoirentas enche a noite

e o Menino treme

de pavor.

Lá fora uivam as alcateias

e a floresta range diabòlicamente.

Parece que a noite

será sempre noite...

Ai se assim fosse!

Mas eu que venho de longe

e sou a clara esperança

trago comigo o canto das calhandras

na alvorada,

e juro ao meu Menino Povo de olhos resplandecentes

que a manhã não tarda,

ela aí vem a caminho por todos os caminhos do mundo,

é breve Dia.

 

In "Estrada Nova"

Edição do autor

 

Papiniano Carlos

(1918-2012)

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Sexta-feira, 19 de Março de 2021

Recordando... Nuno de Figueiredo

JÁ NINGUÉM SE MATA POR AMOR

 

Já ninguém se mata por amor,

ninguém segue o rasto de um perfume

durante a vida inteira. Já nem

se aproveitam as guerras para

aquelas paixões impossíveis, fulminantes

as guerras são no ar agora, não

como dantes, quando se ia marchando

de terra em terra. Os homens são

pássaros mortais com armas de

gigantes. Já ninguém se deixa

 

enlouquecer por uns olhos esculpidos

no retrato, ninguém acorda com

um nome gasto e sempre novo

deposto com doçura sobre os lábios.

 

São tempos outros de maior usura.

Flores só submetidas a horrorosos

suplícios, vendidas a peso de ouro.

Já ninguém colhe uma rosa

já não há mulher formosa que

componha entre o cabelo, entre

os seios, no decote, uma camélia.

 

Já não dizem um do outro: o meu

amor. Já só dizem: ele, ela...

 

In “Poemas de amor e valimento”

Editora Tartaruga

 

Nuno de Figueiredo

(N.1943)

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Sábado, 13 de Março de 2021

Recordando... Helena Figueiredo

LIBERDADE

 

Contigo,

Rebolo na erva dos prados,

Abraçando o sol ao meio dia.

Não importa a língua que falo,

Ou se a noite já baixou.

Canto árias,

Danço tangos e boleros

Pela terra acabada de lavrar.

Enfio-me nas florestas,

E brinco às escondidas com o lobo mau.

 

Contigo,

Como amoras silvestres,

E sujo a boca no sumo das laranjas.

Monto cavalos de espuma.

Cubro-me de lama

E banho-me em ribeiros cristalinos.

Ando descalça pelos campos de searas,

E peço à chuva que me molhe,

E às estrelas que mudem de lugar.

 

Contigo,

Galgo montanhas

E sei de cor o nome das nuvens.

Atravesso tempestades e vendavais

E adormeço numa cama de musgo.

Deito-me nua ao luar,

E gozo o frio das geadas.

Contigo,

Acendo fogueiras no deserto,

E toco uma balada para o vento.

 

Contigo,

Sou um pássaro com asas a crescer.

 

In “Ao sabor da pele” 2009

 

Helena Figueiredo

(N.1959)

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Domingo, 7 de Março de 2021

Recordando... Maria Amália Vaz de Carvalho

A SEU PAE

 

                José Vaz de Carvalho

 

Ouve-me Pae, da minha lyra tímida

ouso as premicias a teus pés depôr,

e leia n´ellas o teu vasto espirito

humilde preito de infinito amor!

 

C´rôa singella de nevados lyrios,

por mim tecida com suave enleio!

vagas cadencias amorosas, languidas,

que a primavera me verteu no seio!...

 

Scentelhas soltas d´uma chamma etherea…

mysticos sonhos que eu soletro só…

que são?.. que valem, para o mundo frívolo

todo envolvido em seu doirado pó?

 

Só tu meu Pae acolherás sollicito

a minha incerta e juvenil canção!

tu, que de amores me doiraste a infância!..

me és premio à lira, e ao mal, se o fiz, perdão!

 

Oh! se n´um sonho fugitivo, rápido,

vira da gloria a divinal miragem…

se em magas horas de fugaz delírio

me endoidecera essa risonha imagem…

 

Se o echo ao longe dos aplausos fervidos

désse à minh´alma embriaguez febril,

e se os laureis d´entre inspirados extasis

me florejassem num perpetuo abril!

 

Sabes o premio que antevira, esplendido!

e a recompensa que eu sonhára então?

fôra em teus lábios um sorrir de jubilo

fôra uma bênção da tua nobre mão!

 

(mantém a grafia original)

 

In “Uma Primavera de Mulher”

 

Maria Amália Vaz de Carvalho

(1847-1921)

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Segunda-feira, 1 de Março de 2021

Recordando... Guerra Junqueiro

PARASITAS

 

No meio duma feira, uns poucos de palhaços

Andavam a mostrar em cima dum jumento

Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,

Aborto que lhes dava um grande rendimento.

 

Os magros histriões, hipócritas, devassos,

Exploravam assim a flor do sentimento.

E o monstro arregalava os grandes olhos baços,

Uns olhos sem calor e sem entendimento.

 

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos;

Deram esmola até mendigos quase nus.

E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos.

 

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,

Que andais pelo universo há mil e tantos anos

Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

 

In “A Velhice do Padre Eterno”

Editora Livraria Minerva – Lisboa

 

Guerra Junqueiro

(1850-1923)

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Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2021

Recordando... Ruy Belo

A FLOR DA SOLIDÃO

 

Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário silencioso
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos.

In “Obra Poética I”
Ed. Presença - 1990

Ruy Belo

(1933-1978)

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Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2021

Recordando... Joaquim Pessoa

FAZER AMOR É SEMPRE TÃO COMPLEXO

 

Fazer amor é sempre tão complexo

e tão simples também que às vezes pasmo

dos traumas que alguns têm com o sexo

e dos que não tiveram um orgasmo.

 

Não sabem o que perdem uns e outros

e o que fazem, enfim, é perder tempo.

Acordam vivos, vivem quase mortos

como troncos sem seiva e sem rebentos.

 

Ajuda-os, Senhor, nessa agonia,

ajuda-os a pôr a escrita em dia,

que a ponta não lhes ceda nem se mude.

 

Já que falo contigo, meu Senhor,

ajuda-me hoje à noite no amor

que ontem não fiz mais porque não pude.

 

In “Sonetos Eróticos & Irónicos & Satíricos & De Amor

& Desamor & De Bem & De Maldizer Do Poeta”

Litexa Editora

 

Joaquim Pessoa

(N.1948)

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