Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

Recordando... Miguel Torga... Poeta do Séc. XX

HISTÓRIA ANTIGA

 

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.

Feio bicho, de resto:

Uma cara de burro sem cabresto

E duas grandes tranças.

A gente olhava, reparava, e via

Que naquela figura não havia

Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.

Porque um dia,

O malvado,

Só por ter o poder de quem é rei

Por não ter coração,

Sem mais nem menos,

Mandou matar quantos eram pequenos

Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,

Por acaso ou milagre, aconteceu

Que, num burrinho pela areia fora,

Fugiu

Daquelas mãos de sangue um pequenito

Que o vivo sol da vida acarinhou;

E bastou

Esse palmo de sonho

Para encher este mundo de alegria;

Para crescer, ser Deus;

E meter no Inferno o tal das tranças,

Só porque ele não gostava de crianças.

 

 

Coimbra, 12 de Outubro de 1937

 

In “ Revista UNEARTA”

Ano 3 – N.º 32 – Agosto 2004

 

Miguel Torga

1907 – 1995

 

 

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Sábado, 20 de Dezembro de 2008

Recordando... Poetas e o Natal... Miguel Torga

NATAL

 

Outro natal,

Outra comprida noite

De consoada

Fria,

Vazia,

Bonita só de ser imaginada.

 

Que fique dela, ao menos,

Mais um poema breve

Recitado

Pela neve

A cair, ao de leve,

No telhado.         

 

In “Antologia Poética”

 

Miguel Torga

1907 – 1995

 

 

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Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007

Recordando... Miguel Torga

 

À FLOR DAS VAGAS

 

Vai a barca do mundo à flor das vagas

No seu mar de tormentas;

Gemem os remadores,

Mordidos pelo beijo de chicote;

E tu, poeta, como um sacerdote,

Da bonança,

A conjurar o mal,

A cantar,

Sem nenhum desespero,

Te desesperar!

Sabe cada ternura a pão azedo

Os acenos são olhos disfarçados;

E os teus versos,

Gratuitos, desfolhados,

Sobre as chagas da vida

Como pensos sagrados

De beleza calmante e condoída!

 

 

Que humanidade tens, irmão?

De onde te vem a força, a decisão

E esse gosto de nunca desertar?

És o Cristo, talvez...

Um Cristo sem altar

Que ficaste a lutar

Junto de nós,

Tão presente, real e natural,

Que podemos ouvir-lhe a própria voz.

 

 

Miguel Torga

1907 – 1995

 

 

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Sexta-feira, 25 de Maio de 2007

Recordando... Miguel Torga

PRECE

 

Senhor, deito-me na cama
Coberto de sofrimento;
E a todo o comprimento
Sou sete palmos de lama:
Sete palmos de excremento
Da terra-mãe que me chama.

Senhor, ergo-me do fim
Desta minha condição
Onde era sim, digo não
Onde era não, digo sim;
Mas não calo a voz do chão
Que grita dentro de mim.

Senhor, acaba comigo
Antes do dia marcado;
Um golpe bem acertado,
O tiro de um inimigo.....
Qualquer pretexto tirado
Dos sarcasmos que te digo.

 

Poema escrito a 11/12/1934

 

Miguel Torga

1907 – 1995

 

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