Terça-feira, 25 de Abril de 2017

Recordando... Sebastião da Gama

VIESSES TU, POESIA...

 

Viesses tu, Poesia,

e o mais estava certo.

Viesses no deserto,

viesses na tristeza,

viesses com a Morte...

 

Que alegria mereço, ou que pomar,

se os não justificar,

Poesia,

a tua vara mágica?

 

Bem sei: antes de ti foi a Mulher,

foi a Flor, foi o Fruto, foi a Água...

Mas tu é que disseste e os apontaste:

- Eis a Mulher, a Água, a Flor, o Fruto.

E logo foram graça, aparição, presença,

sinal...

 

(Sem ti, sem ti que fora

das rosas?)

Mortas, mortas pra sempre na primeira,

morta à primeira hora.)

 

Ó Poesia!, viesses

na hora desolada

e regressara tudo

à graça do princípio...

 

In "Pelo Sonho é que Vamos"

Edições Ática

 

Sebastião da Gama

(1924-1952)

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Domingo, 19 de Fevereiro de 2017

Recordando... Sebastião da Gama

NASCI PARA SER IGNORANTE  

 

Nasci para ser ignorante

mas os parentes teimaram

(e dali não arrancaram)

em fazer de mim estudante.

 

Que remédio? Obedeci.

Há já três lustros que estudo.

Aprender, aprendi tudo,

mas tudo desaprendi.

 

Perdi o nome às Estrelas,

aos nossos rios e aos de fora.

Confundo fauna com flora.

Atrapalham-me as parcelas.

 

Mas passo dias inteiros

a ver um rio passar.

Com aves e ondas do Mar

tenho amores verdadeiros.

 

Rebrilha sempre uma Estrela

por sobre o meu parapeito;

pois não sou eu que me deito

sem ter falado com ela.

 

Conheço mais de mil flores.

Elas conhecem-me a mim.

Só não sei como em latim

as crismaram os doutores.

 

No entanto sou promovido,

mal haja lugar aberto,

a mestre: julgam-me esperto,

inteligente e sabido.

 

O pior é se um director

espreita p'la fechadura:

lá se vai licenciatura

se ouve as lições do doutor.

 

Lá se vai o ordenado

de tuta-e-meia por mês.

Lá fico eu de uma vez

um Poeta desempregado.

 

Se me não lograr o fado

porém, com tais directores,

e de rios, aves e flores

somente for vigiado,

 

enquanto as aulas correrem

não sentirei calafrios,

que flores, aves e rios

ignorante é que me querem.

 

In ”Cabo da Boa Esperança”

Ática Editora

 

Sebastião da Gama

(1924-1952)

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Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

Recordando... Sebastião da Gama

DEFESA

 

O sól é meu e dos meninos ricos...

 

- Triste de quem não vê florir as rosas!

Triste de a quem somente foram dadas

ruas sombrias, lôbregos desvãos!

 

Ah!, mas não tenho a culpa. Sou moreno

sou forte, porque o Sol me quer assim.

Digam ao Sol, se entendem, que se esconda:

não me peçam a mim que esconda as mãos,

nem que neguem meus olhos e meus lábios

o milagre de o Sol gostar de mim!

 

In "Cabo da Boa Esperança"

Edições Ática

 

Sebastião da Gama

1924 – 1952

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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

Recordando... Sebastião da Gama

SOMOS ASSIM AOS DEZASSETE

 

Somos assim aos dezassete.

Sabemos lá que a Vida é ruim!

A tudo amamos, tudo cremos.

Aos dezassete eu fui assim.

 

Depois, Acilda, os livros dizem,

Dizem os velhos, dizem todos:

«A Vida é triste! A Vida leva,

A um e um, todos os sonhos.»

 

Deixá-los lá falar os velhos,

Deixá-los lá… A Vida é ruim?

Aos vinte e seis eu amo, eu creio.

Aos vinte e seis eu sou assim.

 

 

In “Pelo Sonho é que Vamos”

Editora Ática

 

Sebastião da Gama

1924 – 1952

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Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010

Recordando... Sebastião da Gama

BALADA DAS QUATRO MENINAS

 

As quatro meninas têm quinze anos.

Têm nas gavetas cadernos de escola

fechados à chave… Têm nas gavetas

(que ninguém o sonhe!) as tranças cortadas

há dois ou três dias… Têm quinze anos.

 

As quatro meninas têm namorados.

(Como gostam delas!...) As quatro meninas

sabem que são belas, que o juram aquelas

cartas escondidas entre os seios tímidos.

 

As quatro meninas sabem-se miradas.

Sabem da inveja que têm na praia

os outros rapazes dos quatro rapazes

que à tarde lhes dizem… as coisas que dizem.

E as quatro meninas sentem-se felizes.

 

Chove… chove… chove… Esbeltas, à janela,

por detrás dos vidros, cismam as meninas.

– que palavras meigas estarão escrevendo,

por detrás dos vidros, escutando a chuva,

os quatro rapazes, os quatro mais belos,

martes, mais ágeis, que existem no Mundo?

 

As quatro meninas sorriem: bem sabem.

 

 

In “Campo Aberto” – 1951

Portugália Editora

 

Sebastião da Gama

1924 – 1952

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