Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

Recordando... Edmundo de Bettencourt

O SEGREDO E O MISTÉRIO

 

Mistérios a pouco e pouco vão morrendo

e extenuados de vigília os anjos

são afinal a sussurrantes sibilinas vozes

que desvendam adivinham segredos

atrás de sentinelas

cuja ferocidade é uma ironia de ternura…

Na palidez da luz

cercando uma velha cabeça

a quem um sono de embrião já tolda os olhos

sorriem enigmáticos os sonhos.

 

1935

 

In Revista “Pirâmide”

Nº 3 – Dezembro.1960 – Ano I

Pág. 44

 

Edmundo de Bettencourt

(1889-1973)

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Terça-feira, 19 de Setembro de 2017

Recordando... Célia Moura

NO ÚTERO E NO PÓ

 

Surges

Na cálida brisa da tarde,

Como Deusa

No cume da trave talhada

A ouro

Com rosto de prata,

Boca de serpente mansa,

Vestindo de fogo

O sexo.

 

És a mulher,

A prostituta doce

Dos seios firmes,

Da madrugada,

Dos vãos de escada…

Serpenteias em rituais loucos

Sob a máscara de cristal

Estilhaçada,

Chupando o sangue

Às rosas inventadas

Do Jardim.

 

Quem sabe se não serás a Musa,

Por quem os poetas clamam,

Ou o flagelo dos dias

E dos rostos baços?

Agora,

És somente

A Afrodite dos tempos

E do desalento.

Da carne!

 

Mulher,

Mito ausente

Na verdade e no ventre

Cuspindo a semente da raiva

Ao vento norte.

 

Mulher saudade,

Saudosa do regresso,

Dos hinos ao Sol,

Dos campos férteis do acaso,

E da Festa

Que as crianças sábias comemoram

No hálito das estrelas.

 

Terás talvez

Que encarnar a inocência

Na face uterina da noite,

Quando a voz estrangulada

Já não soar a grito,

Num pedestal de pó descarnado…

 

Uma sombra descerá

Com rosto brando

De anjo,

Sob a pia baptismal

Te despirá!

 

In “Vestida De Silêncio”

Universitária Editora 

 

Célia Moura

(N. 1971)

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Quarta-feira, 13 de Setembro de 2017

Recordando... Pedro Homem de Mello

FONTE

 

Meu amor diz-me o teu nome

- Nome que desaprendi...

Diz-me apenas o teu nome.

Nada mais quero de ti.

Diz-me apenas se em teus olhos

Minhas lágrimas não vi,

Se era noite nos teus olhos,

Só porque passei por ti!

Depois, calaram-se os versos

- Versos que desaprendi...

E nasceram outros versos

Que me afastaram de ti.

Meu amor, diz-me o teu nome.

Alumia o meu ouvido.

Diz-me apenas o teu nome,

Antes que eu rasgue estes versos,

Como quem rasga um vestido!

 

In "Poemas escolhidos"

INCM - Imprensa Nacional-Casa da Moeda

 

Pedro Homem de Mello

(1904-1984)

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Quinta-feira, 7 de Setembro de 2017

Recordando... Afonso Lopes Vieira

SAUDADES NÃO AS QUERO

 

Bateram fui abrir era a saudade

vinha para falar-me a teu respeito

entrou com um sorriso de maldade

depois sentou-se à beira do meu leito

e quis que eu lhe contasse só a metade

das dores que trago dentro do meu peito

 

Não mandes mais esta saudade

ouve os meus ais por caridade

ou eu então deixo esfriar esta paixão

amor podes mandar se for sincero

saudades isso não pois não as quero

 

Bateram novamente era o ciúme

e eu mal me apercebi de que batera

trazia o mesmo ódio do costume

e todas as intrigas que lhe deram

e vinha sem um pranto ou um queixume

saber o que as saudades me fizeram

 

Não mandes mais esta saudade,

ouve os meus ais por caridade,

ou eu então deixo esfriar esta paixão,

amor podes mandar se for sincero,

saudades isso não pois não as quero.

 

In “Antologia Poética"

Guimarães Editores - 1966

 

Afonso Lopes Vieira

(1878 - 1946)

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Sexta-feira, 1 de Setembro de 2017

Recordando... Nuno Júdice

GÉNESIS

 

No princípio era o verbo, e eu traduzia-o

em palavras com um sentido fundo como o poço

de onde as mulheres puxavam os baldes de água,

à tarde, para refrescar o chão de agosto. Nas

cordas de roupa do quintal, eu estendia as palavras

para as secar: e via o sol atravessá-las até ao osso,

dissecando o seu corpo mais vago — as vogais fechadas

do fim, ou a enunciação de um infinito

Até ao limite do verbo.

 

No principio também eram as coisas: umas

sobre as outras, no alinhamento curvo do destino,

corno se não estivessem para cair nessa trepidação

de rimas que um fim de verso pode trazer. Então,

levantava-as do chão onde se tinham partido em pedaços,

as coisas brancas da lua e as coisas vermelhas do sol,

e colava-as na parede, vendo o muro subir

até ao tecto celeste..

 

E no fim, volta a ser o verbo. Arranha-me a língua

com as suas unhas de consoantes; e pego-lhe ao colo,

para que não fira os pés nas pedras do campo, ouvindo

a sua voz de carne e oo escrever-me, no fundo

da cabeça, e a toda a largura da alma, a frase

redonda do amor. Trabalho a sua sintaxe, até

descobrir as articulações do segredo; e abraço

o corpo que nasce na conjugação

das suas pálpebras, abertas até ao fundo

dos olhos, onde te vejo.

 

In “O Estado dos Campos”

Publicações Dom Quixote

 

Nuno Júdice

(N. 1949)

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Quinta-feira, 31 de Agosto de 2017

Recordando... Luís Filipe Castro Mendes

MÚSICA CALADA

 

Dizias que nos sobram as palavras:

e era o lugar perfeito para as coisas

esse escuro vazio no teu olhar.

 

E demorava a dura paciência,

fruto do frio nas nossas mãos vazias

que mais coisas não tinham para dar.

 

Dizia então a dor o nosso gesto

e durava nas coisas mais antigas

a solidão sem rasto que há no mar.

 

In “Poesia Reunida (1985-1999)”

Quetzal, 1999

 

Luís Filipe Castro Mendes

(N. 1950)

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Sexta-feira, 25 de Agosto de 2017

Recordando... Políbio Gomes dos Santos

GÉNESIS

 

O mundo existe desde que eu fui nado.

Tudo o mais é um… era uma vez

- A história que se contou.

 

No princípio criou-se o leite que mamei

E eu vi que era bom e chorei

Quando a fonte materna secou.

 

A terra era sem forma

E vazia;

Havia trevas no abismo.

 

E formou-se o chão

E amassou-se o pão

Que eu comi.

(Era este aquela esponja que eu mordia,

Que eu babava,

Que eu sujava,

Que uma gente andrajosa pedia).

 

E então se fez

A geração remota dos papões:

Nascera a esmola, o medo, a prece

E o rosto que empalidece…

E a rosa criou-se,

Desejada,

E logo o espinho,

A lágrima,

O sangue.

Este era vermelho e doce,

A lágrima doce, brilhante, salgada;

No espinho havia o gosto

Da vingança perfumada.

 

E eu vi que tudo era bom.

E fizeram-se os luminares,

Porque eu tinha olhos,

E o som fez-se de cantares

E de gemidos,

Porque eu tinha ouvidos.

Nasceram as águas

E os peixes das águas

E alguns seres viventes da terra

E as aves dos céus.

O homem que então era vagamente feito,

Dominou o homem, comprimiu-lhe o peito,

E fizeram-se as mágoas

E o adeus,

 

E eu vi que tudo era bom.

 

A mulher só mais tarde se fez:

Foi duma vez

Em que eu e ela nos somámos

E ficamos três.

 

Nisto e no mais se gastaram

Sete longuíssimos dias,

O mundo era feito

E embora por tudo e nada imperfeito,

Eu vi que era bom.

 

Acaba o mundo

Quando eu morrer.

Sim… será o fim!

Também tu deixas de existir,

No mesmo dia.

 

E o resto que seguir

É profecia.

 

In “As Três Pessoas”

Portugália Editora

 

Políbio Gomes dos Santos

(1911-1939)

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Sábado, 19 de Agosto de 2017

Recordando... Gastão Cruz

ODE SONETO À CORAGEM

 

O silêncio coragem não consente

o amor da linguagem o silêncio

é um incêndio grande e a nossa fala

estremece de palavras abraçadas

 

Há um amor do que se diz do fogo

onde sempre se esgota a nossa voz

dizer palavras é lutar se a luta

reconhece as palavras que produz

 

se as acende nas ruas

do sentido que o coração dos homens conseguiu

impor-lhes em silêncio incêndio grande

 

é a língua maior incêndio os homens

sobre a fala esgotada coragem sobre

o fogo maior incêndio o amor

 

In “A doença”

Editora Portugália

 

Gastão Cruz

(N. 1941)

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Domingo, 13 de Agosto de 2017

Recordando... António Ladeira

OS AMIGOS

 

Quando se abrem os portões das grandes casas

e os amigos se entreolham antes de recolherem

aos respectivos túmulos

todos tão estranhamente corteses e finais

tão esquecidos de tudo o que um dia prometeram

tão emudecidos e gratos

tão suspensos de uma sede que os tornou irredutíveis

com os seus cabelos verdes e revoltos

a roupa que o corpo ainda segrega

por ter frio

por ser sempre de noite.

 

Amigos tímidos como certos dias de chuva

com os seus passos de borracha

os seus velhos sobretudos

as suas vozes em coro.

 

Os rostos inclinados sobre a cidade limpa

onde os vejo escrever, aplicadamente,

sobre o tampo metálico de uma mesa de café

a uma janela que dá sobre o Tejo

a ver passar o mundo.

 

Amigos pensativos como nuvens baixas,

como janelas abertas sobre praias escuras,

heras, campos de heras,

campos de ossos.

 

In “Eu vi jardins no inferno”

Palimpsesto Editora - 2010

 

António Ladeira

(N. 1966)

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Segunda-feira, 7 de Agosto de 2017

Recordando... Eugénio de Andrade

SERÃO PALAVRAS

 

Diremos prado bosque

primavera,

e tudo o que dissermos

é só para dizermos

que fomos jovens

 

Diremos mãe amor

um barco,

e só diremos

que nada há

para levar ao coração

 

Diremos terra mar

ou madressilva,

mas sem música no sangue

serão palavras só,

e só palavras, o que diremos.

 

In “Mar de Setembro” (1961)

 

Eugénio de Andrade **

(1923-2005)

 

** Pseudónimo de José Fontinhas

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