Terça-feira, 1 de Março de 2016

Recordando... Augusto Gil

WORDS, WORDS...

 

                           Ao Guedes Teixeira

 

Contam que em pequenino costumava,

Ao ver-me num cristal reproduzido,

Beijar a própria boca, em que julgava

Ver a boca de alguém desconhecido

 

Cresci. Amei-a. E tão alheio andava,

No sonho por seus olhos promovido,

Que em vez de cartas que ela me enviava,

Eu lia o que trazia no sentido...

 

Rodou o tempo. Estou doente e velho...

Agora, se me acerco dum espelho...

Oh meus cabelos, noto que alvejais...

 

E as cartas dela, se as releio agora,

Só vejo por aquelas linhas fora

Palavras e palavras... Nada mais!

 

In “Versos” [1898]

Ulmeiro - 1981

 

Augusto Gil

(1873-1929)

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Sexta-feira, 13 de Março de 2015

Recordando... Fernando Echevarría

O TEMPO VIVE

 

O tempo vive, quando os homens, nele,

se esquecem de si mesmos,

ficando, embora, a contemplar o estreme

reduto de estar sendo.

O tempo vive a refrescar a sede

dos animais e do vento,

quando a estrutura estremece

a dura escuridão que, desde dentro,

irrompe. E fica com o uivo agreste

espantando o seu estrondo de silêncio.

 

In "Sobre os Mortos”

Edições Afrontamento

 

Fernando Echevarría

(N. 1929)

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Quinta-feira, 25 de Abril de 2013

Recordando... Manuel Alegre

ABRIL DE ABRIL

Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.

In “30 Anos de Poesia”

Publicações  Dom Quixote

 

Manuel Alegre

N.1936

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Domingo, 13 de Maio de 2012

Recordando... David Mourão-Ferreira

POESIA DE AMOR

 

Vieram as aves negras em teu nome,

Secas folhas de plátano e de tília...

Amargamente, a fonte segredou-me

Tudo quanto eu sabia

Da sorte de Marília;

E que Dirceu

Poderei ser eu

- Tão infeliz! - nesta prisão sombria.

 

Ausente embora, continuo

A endereçar-te mil endechas.

Não sei mais nada: sei amor. Assim destruiu,

Pela canção doentia

Coloração das minhas queixas.

Bárbara escrava?

Que me importava?

Além do amor, o meu amor quer melodia.

 

Cantei às flores do pinho, verde e vivo;

Cantei nas margens verdes das ribeiras.

- Quando hás-de ver que foste só motivo

Para falsas canções tão verdadeiras?

 

 

In “Tempestade de Verão”

Guimarães Editores

 

David Mourão-Ferreira

1927 – 1996

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