Quarta-feira, 25 de Novembro de 2020

Recordando... Maria do Rosário Pedreira

SE PARTIRES, NÃO ME ABRACES...

 

Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta

uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre

e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

 

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão

das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;

mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,

porque o ar que respiras junto de mim é como um vento

a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

 

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno

nos dias sem ninguém –longe de ti, o corpo não faz

senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta

as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto

espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

 

Se me abraçares, não partas.

 

In “O Canto do Vento nos Ciprestes”,

Gótica - 2001

 

Maria do Rosário Pedreira

(N.1959)

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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2019

Recordando... Maria do Rosário Pedreira

NÃO SEI POR QUE RAZÃO O MUNDO SE INQUIETA

 

Não sei por que razão o mundo se inquieta

quando estamos sozinhos. Talvez não saiba

que esgotámos os olhos no rigor dos espelhos

e que, por isso, não somos capazes de traçar

um caminho senão para o evitarmos. Na verdade,

 

se cai a noite, estiolam-se as aventuras entre nós –

o teu silêncio respira longamente, às vezes

paira sobre as dunas do meu corpo a conspirar,

como um tear de nuvens a fiar tempestades

ou um vento salgado a prometer naufrágios;

mas nunca converte o assomo numa história.

 

Não sei porque se aflige tanto o mundo

se ficamos sozinhos. Talvez ignore

que nós não somos mar de nenhuma praia,

que escolhemos poupar às falésias as cicatrizes

das ondas; e tudo para não aprendermos

o verdadeiro nome das feridas.

 

In "Revista Relâmpago"

N.º 22 - Abril.2008

Edição da Fundação Luís Miguel Nava

 

Maria do Rosário Pedreira

(N.1959)

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Sábado, 1 de Novembro de 2014

Recordando... Maria do Rosário Pedreira

MÃE, EU QUERO IR-ME EMBORA

 

Mãe, eu quero ir-me embora - a vida não é nada

daquilo que disseste quando os meus seios começaram

a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,

murcharam tão depressa as rosas que me deram –

se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu

deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

 

Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão

cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,

só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais

que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos

os sonhos que tiveste para mim - tenho a casa vazia,

deitei-me com mais homens do que aqueles que amei

e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

 

Mãe, eu quero ir-me embora - nenhum sorriso abre

caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.

Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez

não chames pelo meu nome, não me peças que fique –

as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-m

embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue

de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como

uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

 

Mãe, eu vou-me embora - esperei a vida inteira por quem

nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta

hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.

Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas

essa voz, tu sabes, não é a tua - a última canção sobre

o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias

foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão

tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam

virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

 

In 'O Canto do Vento nos Ciprestes'

Editora Gótica

 

Maria do Rosário Pedreira

N.1959

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Terça-feira, 1 de Outubro de 2013

Recordando... Maria do Rosário Pedreira

DIZ-ME O TEU NOME

 

Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

 

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

 

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

 

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

 

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.

 

In “Nenhum Nome Depois”
Gótica Editora

 

Maria do Rosário Pedreira

N. 1959

 

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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

Recordando... Maria do Rosário Pedreira

NÃO ADORMEÇAS

 

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto

e a luz é fraca e treme e eu tenho medo

das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas

da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

 

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava

no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha

a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi

de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs

com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje

te mordem os gestos e as palavras.

 

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai

demorar-se a regressar. Há tempo para uma história

que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,

serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,

como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono

se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

 

 

In “A Casa e o Cheiro dos Livros”

Edições Quetzal – 1996

 

Maria do Rosário Pedreira

N.1959

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Quarta-feira, 13 de Abril de 2011

Recordando... Maria do Rosário Pedreira

SE TERMINAR ESTE POEMA, PARTIRÁS

 

Se terminar este poema, partirás. Depois da

mordedura vã do meu silêncio e das pedras

que te atirei ao coração, a poesia é a última

coincidência que nos une. Enquanto escrevo

 

este poema, a mesma neblina que impede a

memória límpida dos sonhos e confunde os

navios ao retalharem um mar desconhecido

 

está dentro dos meus olhos – porque é difícil

olhar para ti neste preciso instante sabendo que

não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que

 

continuo a amar-te em surdina com essa inércia

sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não

beijos, porque o poema é o único refúgio onde

podemos repetir o lume dos antigos encontros.

 

Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,

que apenas escreva até ao fim mais esta página

(que, como as outras, será somente tua – esse

 

beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que

aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade

nos faz adultos para sempre, sei que te perderei

 

em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;

e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á

a última coincidência que nos une.

 

 

In “O Canto do Vento nos Ciprestes”

Editora Gótica,

 

Maria do Rosário Pedreira

N. 1959

 

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