Sábado, 25 de Março de 2017

Recordando... José Saramago

NÃO ME PEÇAM RAZÕES...

 

Não me peçam razões, que não as tenho,

Ou darei quantas queiram: bem sabemos

Que razões são palavras, todas nascem

Da mansa hipocrisia que aprendemos...

Não me peçam razões por que se entenda

A força de maré que me enche o peito,

Este estar mal no mundo e nesta lei:

Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,

Deste modo de amar e destruir:

Quando a noite é de mais é que amanhece

A cor de primavera que há-de vir.

 

In "Os Poemas Possíveis"

Editorial Caminho

 

José Saramago

(1922-2010)

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Domingo, 7 de Julho de 2013

Recordando... José Saramago

CIRCO

 

Poeta não é gente, é bicho coiso

Que da jaula ou gaiola vadiou

E anda pelo mundo às cambalhotas,

Recordadas do circo que inventou.

 

Estende no chão a capa que o destapa,

Faz do peito tambor, e rufa, salta,

É urso bailarino, mono sábio,

Ave torta de bico e pernalta.

 

Ao fim toca a charanga do poema,

Caixa, fagote, notas arranhadas,

E porque bicho é, bicho lá fica,

A cantar às estrelas apagadas.

 

In “Os Poemas Possíveis”

Editorial Caminho

 

José Saramago

1922 – 2010

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Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

Recordando... José Saramago

FORÇA CAMARADA...

 

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.


In “Os Poemas Possíveis”

Editorial Caminho

 

José Saramago

1922 – 2010

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Terça-feira, 9 de Novembro de 2010

Recordando... José Saramago

RETRATO DO POETA QUANDO JOVEM


Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

 

 

In “Os Poemas Possíveis”

Editorial Caminho – 1982

 

José Saramago

1922 – 2010

 

 

 

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