Domingo, 7 de Agosto de 2016

Recordando... José Duro

DOENTE

 

Que negro mal o meu! estou cada vez mais rouco!

Fogem de mim com asco as virgens d'olhar cálido...

E os velhos, quando passo, vendo-me tão pálido,

Comentam entre si: - coitado, está por pouco!...

 

Por isso tenho ódio a quem tiver saúde,

Por isso tenho raiva a quem viver ditoso,

E, odiando toda a gente, eu amo o tuberculoso.

E só estou contente ouvindo um alaúde.

 

Cada vez que me estudo encontro-me diferente,

Quando olham para mim é certo que estremeço;

E vai, pensando bem, sou, como toda a gente,

O contrário talvez daquilo que pareço...

 

Espírito irrequieto, fantasia ardente,

Adoro como Poe as doidas criações,

E se não bebo absinto é porque estou doente,

Que eu tenho como ele horror às multidões.

 

E amando doudamente as formas incompletas

Que às vezes não consigo, enfim, realizar,

Eu sinto-me banal ao pé dos mais poetas,

E, achando-me incapaz, deixo de trabalhar...

 

São filhos do meu tédio e duma dor qualquer

Meus sonhos de neurose horrivelmente histéricos

Como as larvas ruins dos corpos cadavéricos,

Ou como a aspiração de Charles Baudelaire.

 

Apraz-me o simbolismo ingénito das coisas...

E aos lábios da Mulher, a desfazer-se em beijos,

Prefiro os lábios maus das negregadas loisas,

Abrindo num ancelar de mórbidos desejos.

 

E é vão que medito e é em vão que sonho:

Meu coração morreu, minha alma é quase morta...

Já sinto emurchecer no crânio a flor do Sonho,

E oiço a Morte bater, sinistra, à minha porta...

 

Estou farto de sofrer, o sofrimento cansa,

E, por maior desgraça e por maior tormento,

Chego a julgar que tenho - estúpida lembrança -

Uma alma de poeta e um pouco de talento!

 

A doença que me mata é moral e física!

De que me serve a mim agora ter esperanças,

Se eu não posso beijar as trémulas crianças,

Porque ao meu lábio aflui o tóxico da tísica?

 

E morro assim tão novo! Ainda não há um mês,

Perguntei ao Doutor: - Então?...- Hei-de curá-lo...

Porém já não me importo, é bom morrer, deixá-lo!

Que morrer - é dormir... dormir... sonhar talvez...

 

Por isso irei sonhar debaixo dum cipreste

Alheio à sedução dos ideais perversos...

O poeta nunca morre embora seja agreste

A sua aspiração e tristes os seus versos!

 

In “Fel”

Libânio & Cunha Editores - 1898

 

José Duro

(1875-1899)

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Terça-feira, 13 de Outubro de 2015

Recordando... José Duro

O MEU AMIGO

 

Elle era um doido bom, um doido visionário

Que andava quasi sempre d’olhos rasos d’agua,

E, ás vezes, costumava a soluçar, com magua,

A lenda original d’um Fado extraordinário...

 

Entrava na taberna assim que anoitecia,

Bebia só absintho e nunca se fartava,

D’ahi, quem sabe lá se no absintho achava

Um meio de esquecer a dôr que o opprimia...

 

Amava a côr do lucto e odiava a côr do ouro.

E é certo que deixou – estranho typo aquelle! –

Poemas de nevrose em que só punha Chôro...

 

E eu, que desejo ser o que ninguém deseja,

Julguei-me, por ventura, um doido como elle...

Que um doido já eu sou, embora não no seja!

 

(mantem a grafia original)

 

In “Fel (97/98) ”

Empreza Litteraria Lisbonense

Libânio & Cunha Editores - 1898

 

José Duro

(1875 - 1899)

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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2013

Recordando... José Duro

ALVÍSSIMA

 

 (Oração)

 

Como a Noite, Senhor, é linda

Com seus cabelos de luar…

Não chores mais, Lua bemvinda

Que me fazes também chorar…

 

Sorrisos do luar d’uma Caveira oca,

Sorrisos do luar enfeitiçando os brejos

Sorrisos do luar a angelizar a boca,

Sorrisos do luar onde escondi meus beijos…

 

Orações do luar  dos lábios de nós ambos,

Orações do luar que os astros não rezaram,

Orações do luar a consagrar os tambos,

Orações do luar, das almas que noivaram.

 

Cabelos do luar, aveludados, frios,

Cabelos do luar em tranças latescentes;

Cabelos do luar — alvíssimas serpentes,

Cabelos do luar banhando-se nos rios…

 

Aromas do luar em revoadas francas,

Aromas do luar, a perfumar o céu…

Aromas do luar, sonâmbulos ao léu,

Aromas do luar, por noites todas brancas…

 

Brancuras do luar dispersas pelos montes…

Brancuras do luar — finos lençois de gelo…

Brancuras do luar, olhai o sete estrelo,

Brancuras do luar, a namorar as fontes…

           

Veludos do luar tecidos pela lua,

Veludos do luar, de lírios e de rosas…

Veludos do luar, ó vestes preciosas

Veludos do luar vestindo a noite nua…

 

Trémulos de luar — litanias peregrinas,

Trémulos de luar — ó harmonias cérulas,

Trémulos de luar, nas bocas aspérulas

Trémulos de luar, e lábios das boninas…

 

Tristezas do luar caindo-nos no peito,

Tristezas do luar, como um dobrar profundo…

Tristezas do luar anestisiando o Mundo,

Tristezas do luar, em lágrimas desfeito…

 

Lágrimas do luar da Lua aventureira,

Lágrimas do luar, da débil flor dos linhos…

Lágrimas do luar da mágua derradeira,

Lágrimas do luar, de moços e velhimhos…

 

Saudades do luar, na rama dos ciprestes,

Saudades do luar, há mochos a cantar…

Saudades do luar, são almas a chorar…

Saudades do luar, as podridões agrestes…

 

Velhinhos corações a verter sangue e máguas,

Velhinhos corações de mocidade negras,

Velhinhos corações — doridas toutinegras,

Velhinhos corações aos tombos pelas frágoas.

 

Vamos todos pedir à Lua sacrossanta

Na aspiração do Amor, na comunhão do Bem

Que o seu bendito olhar, o seu olhar de Santa,

Nos abençõe agora e para sempre amén!

 

 

In “Antologia de Poetas Alentejanos”

Edição de ?

 

José Duro

1873 – 1899

 

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