Sexta-feira, 7 de Abril de 2017

Recordando... Graça Pires

A NOITE

 

À altura de todas as estrelas

coloco as mãos para tocar o vento.

A lua é um fascínio que deixa atónito

o meu corpo, e lhe dá um cheiro

de fêmea fecundada ; um fogo posto

a deixar um luar, pleno, detido nos meus olhos.

Passeio-me, longamente,

pelo lado mais insensato das palavras

e digo o nome do último pássaro nocturno,

como se nele repetisse um primeiro adeus,

tão súplice, tão magoado.

Um tango exausto sobe-me pelas pernas.

Há, na minha boca, uma rua silenciosa,

por onde se chega à fragilidade dos lábios.

 

In “Ortografia do olhar”

Editora Éter

 

Graça Pires

(N. 1947)

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Quarta-feira, 25 de Novembro de 2015

Recordando... Graça Pires

O MAIS IMPORTANTE É SERES FELIZ.

 

O mais importante é seres feliz.

Disse-mo sempre minha mãe.

As palavras deslizando de seus lábios,

trazidas da mais sábia memória,

que só o coração ousa.

E, mesmo quando falharam

todas as vozes, que anunciavam

um silêncio cativo do medo,

ela mo disse: o mais importante é seres feliz.

O seu olhar sem sombras.

As suas mãos tacteando a luz.

Como se rezasse.

Ou levedasse o pão.

Ou recolhesse inesperadas emoções.

Sem medo de ser expulsa

do meu próprio assombro,

franqueio a alma

a um tempo de sedução

e pernoito num adolescente sossego,

ao abrigo de todos os fantasmas.

 

In “Reino da Lua”

Editora Escritor - 2002

 

Graça Pires

(N. 1946)

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Segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

Recordando... Graça Pires

OS VELHOS

 

Não é simples envelhecer.

Já um poeta o disse.

Peregrinos do tempo,

aprenderam, pelo olhar,

o caminho do trigo maduro,

o perfil dos navios

que partem sem regresso,

a mudança das estações do ano,

a curta duração das emoções.

Mas, quem se lembra da fadiga

dos seus braços, agora,

que é outono em suas mãos?

Quem fez do banco do jardim

um referente da morte,

o lugar onde a sua solidão se acoita?

Quem esqueceu, nas suas rugas,

a sábia maturidade da vida,

ou antes, um modo diverso

de olhar na direcção da noite?

 

In “Ortografia do olhar”

Editorial Eter – 1996

 

Graça Pires

N. 1946

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Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011

Recordando... Graça Pires

POEMA DE AMOR

 

Enquanto os meus passos procuram
nos teus a ressonância da alegria
e ambos reconhecemos a luz fascinada
do olhar, dá-me a tua mão.
O nosso caminho não é a tristeza,
nem a raiva, nem o medo.
O rio conhece-nos a voz
porque transportamos no coração
pássaros em chamas e vagueamos lado
a lado, sem tempo, sem idade.
Um desvio de malícia denuncia
a suspeita cumplicidade da brisa
que nos brinca no rosto.
Uma densa névoa lambe,
tumultuada, a pele da noite,
Ao amanhecer, quase inesperadamente,
far-se-à verão em nossas bocas.
O teu nome e o meu nome serão frutos
de esperma e saliva presos à língua.
Os teus olhos : inquietos,
deslumbrados, transparentes.


In “Conjugar Afectos”
Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas – 1997

 

Graça Pires

N. 1946

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