Segunda-feira, 7 de Maio de 2012

Recordando... Gomes Leal

A UMA ANDORINHA

 

Nas brisas da tardinha

Pára teu vôo um pouco;

Ouve um poeta, um louco,

– Escuta-me andorinha!

 

Um pouco deixa os ninhos;

Attende as vãs loucuras,

–Tambem nas sepulturas

Vôam os passarinhos!

 

Nem sempre o azul ethereo

Quaes flexas vão cortando,

– Também riem, voando,

No chão do cemiterio!

 

Lavam os pés rosados

Nas urnas funeraes;

–Tu, mesmo, nos telhados

Moras das cathedraes!

 

Não fujas d'um poeta,

Que ha nuvens mais sombrias!

– Tu  já moraste uns dias

No nicho d'um propheta!

 

Por tanto, tu que adoras

A primavera e o Sul,

Dize-me, – no alto azul,

Quem faz sempre as Auroras!

 

Quem dá tintas vermelhas

Ao Sol poente que arde?

– Quem  coze as nuvens velhas,

E accende o astro da tarde?

 

Os campos dão renovos

Tambem, n'outras espheras?

– Quem faz as primaveras?

– Quem  faz os astros novos?

 

Quem faz a ave-flor?

Quem tinge o temporal?

– Quem faz a pomba, côr

Do lyrio virginal?

 

No Sol ha violetas,

E rios, campos, vinhas?

– Dize, se nos planetas?...

Tambem ha andorinhas...

 

E tu que mais almejas?

Tens sol, astros e ninhos--

Tens tudo o que desejas...

– Luz, grãos, pelos caminhos!

 

Ó triste ambicionar!

Ó santo e vão delirio!

– Talvez, ó filha do Ar

Quizesses ser um lyrio!

 

 

In “Claridades do Sul”

Braz Pinheiro – Editor

Lisboa – 1875

 

Gomes Leal

1848 – 1921

 

 

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Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

Recordando... Gomes Leal... Poeta do Séc. XIX

MISERIA OCCULTA

 

Bate nos vidros a aurora,
Vem depois a noute escura;
E o pobre astro que ali móra,
Não abandona a costura!

Para uns a vida é d'abrolhos!
Para outros mouta de lyrios!
Bem o revelam seus olhos,
Pisados pelos martyrios!

Miseria afugenta tudo!
Miseria tem dons funestos!
Quem é que gaba o velludo
D'aquelles olhos honestos!...

Ninguem seus olhos brilhantes
Descobre n'essas alturas...
E aquellas formas tão puras,
E aquellas mãos elegantes!

Sempre á costura inclinada!
Morra o sol ou surja a lua
Nunca vi descer á rua
Aquella loura encantada!

Aquelle lyrio dobrado
Por que assim vive escondido!
Eu bem sei! – não tem calçado!
E é muito usado o vestido!

Por isso não tem porvir
Morrerá virgem e nova,
E aguarda-a bem cedo a cova...
Que eu bem a ouço tossir!

Miseria afugenta tudo!
Miseria tem dons funestos!
Quem é que gaba o velludo
D'aquelles olhos honestos!

Pobre flor desfalecida
Tão nova e ainda em botão!
Como teve estreita a vida,
Terá estreito o caixão!



In “Claridades do Sul” – 1875

Braz Pinheiro – Editor

Praça d'Alegria 73 – Lisboa

 

Gomes Leal

1848 – 1921

 

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Sábado, 16 de Janeiro de 2010

Recordando... Gomes Leal... Poeta do Séc. XIX

OS PASTORES

 

Guardavam certos pastores
seus rebanhos, ao relento,
sobre os céus consoladores
pondo a vista e o pensamento.

 

Quando viram que descia,
cheio de glória fulgente,
um anjo do céu do Oriente,
que era mais claro que o dia.

 

Jamais os cegara assim
luz do meio-dia ou manhã.
Dir-se-ia o audaz Serafim,
que um dia venceu Satã.

 

Cheios de assombro e terror,
rolaram na erva rasteira.
– Mas ele, com voz fagueira,
lhes diz, com suave amor:

 

«Erguei-vos, simples, daí,
humildes peitos da aldeia!
Nasceu o vosso Rabi,
que é Cristo – na Galileia!

 

Num berço, o filho real,
não o vereis reclinado.
Vê-lo-eis pobre e enfaixado,
sobre as palhas de um curral!

 

Segui dos astros a esteira.
Levai pombas, ramos, palmas,
ao que traz uma joeira
das estrelas e das almas!»

 

Foi-se o anjo: e nas neblinas,
então celestes legiões
soltam místicas canções,
sobre violas divinas.

 

Erguem-se, enfim, os pastores
e vão caminhos dalém,
com palmas, rolas, e flores,
cordeiros, até Belém.

 

E exclamavam indo a andar:
– «Vamos ver o vinhateiro!
Ver o que sabe lavrar
nas nuvens, ver o Ceifeiro!

 

Vamos beijar os pés nus
do que semeia nos céus.
Ver esse pastor que é Deus
– e traz cajado de luz!»

 

Chegando ao presépio, enfim,
caem, de rojo, os pastores,
vendo o herdeiro d’Eloim
que veste os lírios e as flores.

 

Dão-lhe pombas gloriosas,
meigos, tenros animais.
– Mas, vendo coisas radiosas,
casos vindouros, fatais…

 

Abria o deus das crianças
uns olhos profundos, graves,
no meio das pombas mansas
– nas palpitações das aves.

 

 

 

In “História de Jesus”

(Para as Criancinhas Lerem)
Edição: José Carlos Seabra Pereira

Assírio & Alvim

 

Gomes Leal

1848 – 1921

 

sinto-me: Radiante Sempre...
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