Segunda-feira, 7 de Julho de 2014

Recordando... Eugénio de Castro

O AMOR E A SAUDADE

 

O Amor teve uma filha à qual chamou Saudade.

 

Vendo-a crescida

Vendo-a na idade

De entrar na vida,

Disse-lhe assim um dia:

 

"Envelheci; no meu jardim cai neve...

Já sinto a alma fria,

E no corpo entrará também o frio em breve...

 

De noite vejo só negrumes de ataúdes;

Tudo é inverno p'ra mim; abril, acho-o grisalho...

Velho e doente, é justo, filha, que me ajudes

No meu trabalho.

 

Auxilia-me pois! Quando os amantes,

O seio contra o seio,

Enleados estão em tão suave enleio,

Que as longas noites tomam por instantes,

Ao pé deles me querem sempre, e assim,

Se p'ra deixá-los, já cansado estou,

Começam a chamar por mim,

A perguntar-me para onde vou...

Nunca me deixam, nunca estou tranquilo!

 

Como o trabalho é rude, de hoje em diante.

Devemos reparti-lo,

Que eu já me sinto fraco e vacilante...

De hoje em diante, irei deitar os namorados,

Mas tu, Saudade, junto deles ficarás,

E ao chamarem por mim, em gritos sufocados,

Fingindo a minha voz, tu lhes responderás...

 

Fazem-me louco as noites mal dormidas,

E assim já poderei dormir um pouco,

E recobrar até as minhas cores perdidas...

Vamos! O velho sol já se extinguiu

E a lua branca rompendo vai..."

 

E a Saudade partiu

Atrás do Pai...

 

Desde essa noite azul, ébrios de pasmo e dor,

Os que se beijam com ansiedade

Adormecem ao pé do Amor

E acordam junto da Saudade...

 

In “O Amor na Poesia Portuguesa"

Ed. Família 2000

 

Eugénio de Castro

1869 – 1944

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Quinta-feira, 31 de Maio de 2012

Recordando... Eugénio de Castro

PELAS LANDES, À NOITE

 

Pelas landes e pelas dunas

Andam os magros como pregos,

Os lobos magros como pregos,

Pelas landes e pelas dunas.

 

Olhos de fósforo, esfaimados,

Numa pavorosa alcateia,

Andam, andam buscando ceia,

Olhos de fósforo, esfaimados.

 

Na landes grandes, junto às dunas,

Um menino perdido anda,

Anda perdido, a chorar anda,

Nas landes, junto às brunas dunas,

 

Senhor Deus de Misericórdia,

Protegei o róseo menino,

Protegei o róseo menino,

Senhor Deus de Misericórdia,

 

Porque nas landes e nas dunas

Andam os magros como pregos,

Os lobos magros como pregos,

Nas grandes landes e nas dunas.

 

 

In “Oaristos – Horas  – Silva”

Lumen Empresa Internacional Editora – 1927

 

Eugénio de Castro

1869 – 1944

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Sábado, 1 de Maio de 2010

Recordando... Eugénio de Castro... Poeta do Séc. XX

O DILÚVIO

Há muitos dias já, há já bem longas noites
que o estalar dos vulcões e o atroar das torrentes
ribombam com furor, quais rábidos açoites,
ao crebro rutilar dos coriscos ardentes.

Pradarias, vergéis, hortos. vinhedos, matos,
tudo desapar'ceu ao rude desabar
das constantes, hostis, raivosas cataratas,
que fizeram da Terra um grande e torvo mar.

À flor do torvo mar, verde como as gangrenas,
onde homens e leões bóiam agonizantes,
imprecando com fúria e angústia, erguem-se apenas,
quais monstros colossais, as montanhas gigantes.

É aí que, ululando, os homens como as feras
refugiar-se vão em trágicos cardumes,
O mar sobe, o mar cresce. e os homens e as panteras,
crianças e reptis caminham para os cumes.

Os fortes, sem haver piedade que os sujeite,
arremessam ao chão pobres velhos cansados.
e as mães largam. cruéis, os filhinhos de leite,
que os que seguem depois pisam, alucinados.

Um sinistro pavor; crescente e sufocante,
desnorteia, asfixia a turba pertinaz:
ouvem-se urros de dor, e os que vão adiante
lançam pedras brutais aos que ficam pra trás.

Raivoso, o touro estripa os míseros humanos
que o estorvam, ao correr em fuga desnorteada,
e pelo ar tenebroso as águias e os milhanos
fogem, com vivo horror, daquela estropeada.

Cresce a treva infernal nos cavos horizontes;
o oceano sobe e muge em raivas cavernosas,
e as ondas, a trepar pelos visos dos montes,
fazem de cada vez cem vítimas chorosas!

Os negros vagalhões, nos bosques mais cimeiros.
silvam e marram já, em golpes iracundos;
resplendem raios mil em rútilos chuveiros,
e os corvos, a grasnar, desolham moribundos.

Blasfémias, maldições elevam-se à porfia;
fustigado plo raio, aumenta o furacão;
cada ruga do mar acusa uma agonia,
cada bolha, ao estalar, solta uma imprecação.

Cresce n mar, sobe o mar... e traga, rudemente.
da m ais alta montanha o píncaro nevado.
e um tremendo trovão aplaude a vaga arlente,
que envolve, ao despenhar-se, o último condenado.

Cresce o mar, sobe o mar, que já topeta os céus:
e, levada plo fero e desabrido norte,
sua espuma, a ferver, molha o rosto de Deus,
que lhe encontra um sabor nauseabundo de morte...

Cresce o mar, sobe o mar... Cada vaga é uma torre!
No céu, o próprio Deus melancólico pasma...
E, pelos vagalhões acastelados, corre
a Arca de Noé, qual navio-fantasma...


In “Saudades do Céu” – 1899

 

Eugénio de Castro

1869 – 1944

 

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