Segunda-feira, 7 de Agosto de 2017

Recordando... Eugénio de Andrade

SERÃO PALAVRAS

 

Diremos prado bosque

primavera,

e tudo o que dissermos

é só para dizermos

que fomos jovens

 

Diremos mãe amor

um barco,

e só diremos

que nada há

para levar ao coração

 

Diremos terra mar

ou madressilva,

mas sem música no sangue

serão palavras só,

e só palavras, o que diremos.

 

In “Mar de Setembro” (1961)

 

Eugénio de Andrade **

(1923-2005)

 

** Pseudónimo de José Fontinhas

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Segunda-feira, 7 de Março de 2016

Recordando... Eugénio de Andrade

METAMORFOSES DA CASA

 

Ergue-se aérea pedra a pedra

a casa que só tenho no poema.

 

A casa dorme, sonha no vento

a delícia súbita de ser mastro.

 

Como estremece um torso delicado,

assim a casa, assim um barco.

 

Uma gaivota passa e outra e outra,

a casa não resiste: também voa.

 

Ah, um dia a casa será bosque,

à sua sombra encontrarei a fonte

onde um rumor de água é só silêncio.

 

In “Ostinato Rigore”

Assírio & Alvim

 

Eugénio de Andrade **

(1923-2005)

 

** Pseudónimo de José Fontinhas

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Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2015

Recordando... Eugénio de Andrade

O ANJO DE PEDRA

 

Tinha os olhos abertos mas não via.

O corpo era todo saudade

De alguém que o modelara e não sabia

Que o tocara de maio e claridade.

 

Parava o seu gesto onde pára tudo:

No limiar das coisas por saber

- e ficara surdo e cego e mudo

Para que tudo fosse grave no seu ser

 

In “As Mãos e os Frutos”

Editora Limiar – 9.ª Edição – 1980

 

Eugénio de Andrade **

(1923 - 2005)

** Pseudónimo de José Fontinhas

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Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2015

Recordando... Eugénio de Andrade

Soneto XXV

 

Shelley sem anjos e sem pureza,

aqui estou à tua espera nesta praça,

onde não há pombos mansos mas tristeza

e uma fonte por onde a água já não passa.

 

Das árvores não te falo pois estão nuas;

das casas não vale a pena porque estão

gastas pelo relógio e pelas luas

e pelos olhos de quem espera em vão.

 

De mim podia falar-te,mas não sei

que dizer-te desta história de maneira

que te pareça natural a minha voz.

 

Só sei que passo aqui a tarde inteira

tecendo estes versos e a noite

que te há-de trazer e nos há-de de deixar sós

 

(As Mãos e os Frutos)

 

In “Antologia Breve”

5ª ed. – Outubro.1985

Editora Limiar

 

Eugénio de Andrade **

(1923 – 2005)

 

** Pseudónimo de José Fontinhas

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Quarta-feira, 13 de Agosto de 2014

Recordando... Eugénio de Andrade

ADEUS

 

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

 

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;

era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

 

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.

E eu acreditava.

Acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

 

Mas isso era no tempo dos segredos,

no tempo em que o teu corpo era um aquário,

era no tempo em que os meus olhos

eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

 

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor,

já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

 

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

 

Adeus.

 

(Os Amantes Sem Dinheiro)

 

In “Antologia Breve”

Editora Limiar – Outubro.1985

 

Eugénio de Andrade

1923 – 2005

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Sábado, 7 de Abril de 2012

Recordando... Eugénio de Andrade

EM LOUVOR DO FOGO

Um dia chega
de uma extrema doçura:
tudo arde.

Arde a luz
nos vidros da ternura.

As aves,
no branco
labirinto da cal.

As palavras ardem,
e a púrpura das naves.

O vento,

onde tenho casa
à beira do outono.

O limoeiro, as colinas.

Tudo arde

na extrema e lenta
doçura da tarde.


In “Obscuro Domínio”

Editorial Inova – 1971

 

Eugénio de Andrade

1923 – 2005  

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Sábado, 5 de Março de 2011

Recordando... Eugénio de Andrade

PROCURO-TE

 

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - procuro-te.


In “As Palavras Interditas”

Centro Bibliográfico – Lisboa

 

Eugénio de Andrade

1923 – 2005

 

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