Terça-feira, 12 de Maio de 2009

Recordando... Eugénio de Andrade

POEMA À MÂE

 

No mais fundo de ti
eu sei que te traí, mãe.

 

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

 

Tudo porque ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

 

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

 

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

 

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

 

Olha – queres ouvir-me? –
às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

 

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

 

Ainda oiço a tua voz:
           
Era uma vez uma princesa
           No meio do laranjal...

 

Mas – tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

 

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

 

Boa noite. Eu vou com as aves.

 

 

In "Antologia Breve "

5ª. Edição – Outubro 1985

Editora Limiar

 

Eugénio de Andrade

1923 – 2005

 

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Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

Recordando... Poetas que deram "voz" ao Porto... Eugénio de Andrade

 

UM RIO TE ESPERA

 

Estás só, e é de noite

na cidade aberta ao vento leste.

Há muita coisa que não sabes

e é já tarde para perguntares.

Mas tu já tens palavras que te bastem,

as últimas,

pálidas, pesadas, ó abandonado.

 

Estás só

e ao teu encontro vem

a grande ponte sobre o rio.

Olhas a água onde passaram barcos,

escura, densa, rumorosa

de lírios ou pássaros nocturnos.

 

Por um momento esqueces

a cidade e o seu comércio de fantasmas,

a multidão atarefada em construir

pequenos ataúdes para o desejo,

a cidade onde cães devoram,

com extrema piedade,

crianças cintilantes

e despidas.

 

Olhas o rio

como se fora o leito

da tua infância:

lembras-te da madressilva

no muro do quintal,

dos medronhos que colhias

e deitavas fora,

dos amigos a quem mandavas

palavras inocentes

que regressavam a sangrar,

lembras-te de tua mãe

que te esperava

com os olhos molhados de alegria.

 

Olhas a água, a ponte,

os candeeiros,

e outra vez a água;

a água;

água ou bosque,

sombra pura

nos grandes dias de verão.

 

Estás só.

Desolado e só.

E é de noite.

 

 

In “Antologia Breve” – 5ª. Edição – 1985 – Editora Limiar

 

Eugénio de Andrade

1923 – 2005  

 

 

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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

Recordando... Poetas do Séc. XX (2)... Eugénio de Andrade

 

O INVERNO

 

 

Velho, velho, velho.

Chegou o Inverno.

 

Vem de sobretudo,

Vem de cachecol,

O chão onde passa

Parece um lençol.

 

Esqueceu as luvas

Perto do fogão:

Quando as procurou,

Roubara-as um cão.

 

Com medo do frio

Encosta-se a nós:

Dai-lhe café quente

Senão perde a voz.

 

Velho, velho, velho.

Chegou o Inverno.

 

 

In "Aquela Nuvem e Outras"

 

Eugénio de Andrade

1923 – 2005 

 

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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

Recordando... Eugénio de Andrade

OS AMIGOS

 

Os amigos amei

Despido de ternura

Fadigada;

Uns iam, outros vinham

A nenhum perguntava

Porque partia,

Porque ficava;

Era pouco o que tinha,

Pouco o que dava,

Mas também só queria

Partilhar

A sede da alegria –

Por mais amarga.

 

Eugénio de Andrade

1923 - 2005

 

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