Segunda-feira, 30 de Novembro de 2015

Recordando... Emanuel Félix

FIVE O'CLOCK TEAR

 

Coisa tão triste aqui esta mulher

com seus dedos pousados no deserto dos joelhos

com seus olhos voando devagar sobre a mesa

para pousar no talher

Coisa mais triste o seu vaivém macio

p'ra não amachucar uma invisível flora

que cresce na penumbra

dos velhos corredores desta casa onde mora

 

Que triste o seu entrar de novo nesta sala

que triste a sua chávena

e o gesto de pegá-la

 

E que triste e que triste a cadeira amarela

de onde se ergue um sossego um sossego infinito

que é apenas de vê-la

e por isso esquisito

 

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos

seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado

o álbum a mesinha as manchas dos retratos

 

E que infinitamente triste triste

o selo do silêncio

do silêncio colado ao papel das paredes

da sala digo cela

em que comigo a vedes

 

Mas que infinitamente ainda mais triste triste

a chávena pousada

e o olhar confortando uma flor já esquecida

do sol

do ar

lá de fora

(da vida)

numa jarra parada

 

In “A Palavra o Açoite”

Centelha Editora – 1984

 

Emanuel Félix

(1936- 2004)

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Domingo, 30 de Novembro de 2014

Recordando... Emanuel Félix

AS RAPARIGAS LÁ DE CASA

 

Como eu amei as raparigas lá de casa

 

discretas fabricantes da penumbra

guardavam o meu sono como se guardassem

o meu sonho

repetiam comigo as primeiras palavras

como se repetissem os meus versos

povoavam o silêncio da casa

anulando o chão os pés as portas por onde

saíam

deixando sempre um rastro de hortelã

traziam a manhã

cada manhã

o cheiro do pão fresco da humidade da terra

do leite acabado de ordenhar

 

(se voltassem a passar todas juntas agora

veríeis como ficava no ar o odor doce e materno

das manadas quando passam)

aproximavam-se as raparigas lá de casa

e eu escutava a inquieta maresia

dos seus corpos

umas vezes duros e frios como seixos

outras vezes tépidos como o interior dos frutos

no outono

penteavam-me

e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas

na primavera

 

não me lembro da cor dos olhos quando olhava

os olhos das raparigas lá de casa

mas sei que era neles que se acendia

o sol

ou se agitava a superfície dos lagos

do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas

as raparigas lá de casa

que tinham namorados e com eles

traíam

a nossa indefinível cumplicidade

 

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo

às raparigas lá de casa

porque sabia e sei que apenas o faziam

por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade

o vício da virtude da sua imensa ternura

da ternura inefável do meu primeiro amor

do meu amor pelas raparigas lá de casa

 

Habitação das Chuvas          

 

In “121 Poemas Escolhidos”

Editor Salamandra

 

Emanuel Félix

1936 – 2004

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Terça-feira, 17 de Agosto de 2010

Recordando... Emanuel Félix

AS RAPARIGAS LÁ DE CASA

Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silêncio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)

aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-me
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa

 

 

In “Habitação das Chuvas”

Angra do Heroísmo – 1997  

 

Emanuel Félix

1936 – 2004

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