Terça-feira, 1 de Agosto de 2017

Recordando... Cesário Verde

DESASTRE 

 

Ele ia numa maca, em ânsias, contrafeito,

Soltando fundos ais e trémulos queixumes;

Caíra d’andaime e dera com o peito,

Pesada e secamente, em cima d’uns tapumes.

 

A brisa que balouça as árvores das praças,

Como uma mãe erguia ao leito os cortinados,

E dentro eu divisei o ungido das desgraças,

Trazendo em sangue negro os membros ensopados.

 

Um preto, que sustinha o peso d’um varal,

Chorava ao murmurar-lhe: «Homem não desfaleça!»

E um lenço esfarrapado em volta da cabeça

Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

 

Flanavam pelo Aterro os dândys e as cocottes,

Corriam char-à-bancs cheios de passageiros

E ouviam-se canções e estalos de chicotes,

Junto à maré, no Tejo, e as pragas dos cocheiros.

 

Viam-se os quarteirões da Baixa: um bom poeta,

A rir e a conversar numa cervejaria,

Gritava para alguns: «Que cena tão faceta!

Reparem! Que episódio!» Ele já não gemia.

 

Findara honradamente. As lutas, afinal,

Deixavam repousar essa criança escrava,

E a gente da província, atónita, exclamava:

«Que providências! Deus! Lá vai para o hospital!»

 

Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos;

Mornas essências vêm d’uma perfumaria,

E cheira a peixe frito um armazém de vinhos,

Numa travessa escura em que não entra o dia!

 

Um fidalgote brada a duas prostitutas:

«Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!»

Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas

E conta-se o que foi na loja d’um barbeiro.

 

Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer,

De bagas de suor tinha uma vida cheia;

Levava a um quarto andar cochos de cal e areia,

Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.

 

Depois da sesta, um pouco estontecido e fraco,

Sentira a exalação da tarde abafadiça;

Quebravam-lhe o corpinho o fumo do tabaco

E o fato remendado e sujo da caliça.

 

Gastara o seu salário – oito vinténs ou menos –,

Ao longe o mar, que abismo! e o sol, que labareda!

«Os vultos, lá em baixo, oh! como são pequenos!»

E estremeceu, rolou nas atracções da queda.

 

O mísero a doença, as privações cruéis

Soubera repelir – ataques desumanos!

Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos

Andara a apregoar diários de dez réis.

 

Anoitecia então. O féretro sinistro

Cruzou com um coupé seguido dum correio,

E um democrata disse: «Aonde irás, ministro!

Comprar um eleitor? Adormecer num seio?»

 

E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro,

– Conservador, que esmaga o povo com impostos –,

Mandava arremessar – que gozo! estar solteiro! –

Os filhos naturais à roda dos expostos...

 

Mas não, não pode ser... Deite-se um grande véu...

De resto, a dignidade e a corrupção... que sonhos!

Todos os figurões cortejam-no risonhos

E um padre que ali vai tirou-lhe o solidéu.

 

E o desgraçado? Ah! Ah! Foi para a vala imensa,

Na tumba, e sem o adeus dos rudes camaradas:

Isto porque o patrão negou-lhes a licença,

O Inverno estava à porta e as obras atrasadas.

 

E antes, ao soletrar a narração do facto,

Vinda numa local hipócrita e ligeira,

Berrara ao empreiteiro, um tanto estupefacto:

«Morreu! Pois não caísse! Alguma bebedeira!»

 

Lisboa

 

In “Cânticos do Realismos e Outros Poemas - 32 Cartas”

Edição Teresa Sobral Cunha

Relógio de Água Editores

 

Cesário Verde

(1855-1886)

publicado por cateespero às 00:00
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