Quinta-feira, 13 de Agosto de 2015

Recordando... António Ramos Rosa

PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE UM RELÓGIO

 

Para um amigo tenho sempre um relógio

esquecido em qualquer fundo de algibeira.

Mas esse relógio não marca o tempo inútil.

São restos de tabaco e de ternura rápida.

É um arco-iris de sombra, quente e trémulo.

É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

 

In "Viagem Através duma Nebulosa"

Editora Ática - 1960

 

António Ramos Rosa

(1924 - 2013)

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Domingo, 1 de Dezembro de 2013

Recordando... António Ramos Rosa

AS PALAVRAS

 

Adiro a uma nova terra adiro a um novo corpo

É um corpo que se tornou palavra

Segue-se a narrativa das transições:

as palavras identificam-se com o asfalto negro

o tropel das nuvens

a espessura azul das árvores acesas pelos faróis

o rumor verde

 

As palavras saem de uma ferida exangue

de teclas de metal fresco

de caminhos e sombras

da vertigem de ser só um deserto

de armas de gume branco

 

Há palavras carregadas de noite e de ombros surdos

e há palavras como giestas vivas

 

Matrizes primordiais matéria habitada

forma indizível num rectângulo de argila

quem alimenta este silêncio senão o gosto de

colocar pedra sobre pedra até à oblíqua exactidão?

 

As palavras vêm de lugares fragmentários

de uma disseminação de iniciais

de magmas respirados

de odor de gérmen de olhos

 

As palavras podem formar uma escrita nativa

de corpos claros

 

Que são as palavras? Imprecisas armas

em praias concêntricas

torres de sílex e de cal

aves insólitas

 

As palavras são travessias brancas faces

giratórias

elas permitem a ascensão das formas

elevam-se estrato após estrato

ou voam em diagonal

até à cúpula diáfana

 

As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado

 

Que enfrentam as palavras? O espelho

da noite a sua impossível

elipse

saem da noite despedaçadas feridas

e são a minúscula luz das frestas

entre as pedras piramidais

 

In “Gravitações”

Coleção – De Viva Voz

Litexa Portugal – 1983

 

António Ramos Rosa

1924 – 2013

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Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

Recordando... António Ramos Rosa

NÃO POSSO ADIAR O AMOR

 

Não posso adiar o amor

para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque

na garganta
ainda que o ódio estale

e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese

séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore,
não posso adiar para

outro século a minha

vida
nem o meu amor
nem o meu grito de

libertação
Não posso adiar o coração

 

 

In “Viagem Através de Uma Nebulosa”

“Signos” – Lisboa Editora

 

António Ramos Rosa

N. 1924

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Sexta-feira, 9 de Abril de 2010

Recordando... António Ramos Rosa... Poeta Contemporâneo

AMOR DA PALAVRA, AMOR DO CORPO

A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que não te vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.

 

 

In "Nos Seus Olhos De Silêncio"

A Palavra e o Lugar

Publicações Dom Quixote

 

António Ramos Rosa

N. 1924

 

 

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