Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017

Recordando... António de Sousa

FADO DO NAVEGANTE

 

Meu lugre "Vento de Maio",

todo pintado de azul,

comprei-o nos mares do Sul

a um pirata malaio.

 

Lá onde o céu é maior

trafiquei pérola e copra;

a todo o vento que sopra

soube o caminho de cor.

 

Um dia, não sei porquê,

(frágeis que são as memórias...)

fiz-me a águas hiperbóreas

a vr o que lá se vê.

 

No meu regresso do Polo

trouxe uns sorrisos de gelo,

esta neve no cabelo

e duas focas ao colo...

 

Cheguei inteiro a Lisboa,

mas ninguém me conheceu!

Por isso pintei de breu

a minha vela de proa.

 

Triste, vendi o navio;

só uma corda guardei.

Os nós que dei e desdei

até que ficou no fio!

 

o saber verdadeiro

e o gosto do mar amigo

vão para a morte comigo

no meu secreto roteiro.

 

In “Sete Luas”

Edição de 200 exemplares

da Tipografia da Atlântida, 1943

 

António de Sousa

(1898-1981)

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Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Recordando... António de Sousa

BREVE POEMA ÉPICO

 

Sete leões e o profeta no meio,

com óculos, de preto, guarda chuva

e uma saudade desbotada

no bolso do coração.

 

O céu triste e calado como os mortos;

as colinas à espera de pintor

e o rio como um doido a bater palmas

e a babar-se nas fragas.

 

Sete leões da terra de ninguém

todos goelas  força e sede viva.

O profeta no meio, tão profeta

que o medo lhe parecia Anjo da Guarda.

 

Magro, pois a comida de palavras

nunca foi coisa que matasse a fome...

corpo talhado a jeito de baínha

ao espírito - uma espada feita de ar.

 

Sete leões como os sete pecados,

ali, inteiros, no Jardim de Deus;

as portas milenárias em pedaços

e o Todo-Alma a estuar de fé.

 

A cada uivo – um murmuro versículo;

para o raspar das unhas as mãos juntas

e aos saltos decisivos como raios,

um - Satan, vade retro! e o guarda-chuva!

 

Depois... tudo acabou na digestão

do profeta, do rio e até do céu!

Mas um poeta virá com outros sóis

para ver nascer flores dos cadáveres dos leões.

 

Coimbra – 1943

 

In “Sete Luas”

Editorial Inquérito Lda.

 

António de Sousa

1898 – 1981

 

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Domingo, 1 de Maio de 2011

Recordando... António de Sousa

CANTATA DO MAU MARINHEIRO

 

Em Calicut, uma vez,

o grande Vasco da Gama

pôs-me a ferros no porão.

Não por pena de traição

mas por eu passar na cama

trinta dias, cada mês.

 

Se retroava a bombarda

para acossar a moirisma

– a cambulhada casmurra -

eu dedilhava a bandurra,

recatando a minha cisma

ao anjo da minha guarda.

 

Quando o Santelmo chispava,

nos tops de popa a proa,

agoiros de calmaria,

eu ao bailique pedia

o caminho de Lisboa

e o corpo da minha escrava.

 

Quando a água escasseou,

a bolacha criou bicho

e o vinho já ia azedo,

eu nunca tremi de medo:

fiquei-me em santo de nicho

que a si mesmo se salvou.

 

Mas se o mar fazia espuma,

o vento cuspia pragas

e a nau parecia um trambolho,

já, do sono, abria um olho,

piscava-o de manso às vagas

– Que, enfim, a vida é só uma!

 

(Sei que a morte me não quer

enquanto andar embarcado,

só pecando em pensamento.

Porém sou primo do vento

e no seu corpo salgado

o mar é minha mulher...)

 

Não fui herói como os mais,

mas o almirante do rei

acabou por perdoar.

É que eu tinha de ficar

só nos trabalhos que sei

p`ra lhe dar estes sinais!

 

(A nau voltou a Belém

e eu, felizmente, estou bem!)

 

 

In “Jangada”

Coimbra Editor

 

António de Sousa

1898 – 1981  

 

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