Sexta-feira, 13 de Setembro de 2013

Recordando... Ana Luísa Amaral

MÚSICAS

 

Desculpo-me dos outros com o sono da minha filha.

E deito-me a seu lado,

a cabeça em partilha de almofada.

 

Os sons dos outros lá fora em sinfonia

são violinos agudos bem tocados.

Eu é que me desfaço dos sons deles

e me trabalho noutros sons.

 

Bartók em relação ao resto.

 

A minha filha adormecida.

Subitamente sonho-a não em desencontro como eu

das coisas e dos sons, orgulhoso

e dorido Bartók.

 

Mas nunca como eles

bem tocada

por violinos certos.

 

In “Minha Senhora De Quê “

Editora Quetzal – 1999

 

Ana Luísa Amaral

N. 1956

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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2012

Recordando... Ana Luísa Amaral

ENCENAÇÕES E QUASE VOOS

 

Uma luz construída

ilumina

esses santos,

cada um sem o halo,

mas pombo circundante

na cabeça

 

São quatro santos no cimo

da igreja,

e cada um dos pombos escolheu

a face mais marcada,

os caracóis de pedra

que fossem mais macios

 

Talvez não sejam santos,

mas apóstolos, tão de barroco,

e o seu gosto a vestir:

um excesso de desvio

quase pecado

 

Apóstolos ou santos,

os pombos circundantes na cabeça

são halos delicados

que, julgando-se em céu,

vêem quase metade da cidade,

a meio: o rio e os telhados

de casas

 

Fingindo-se de mão a abençoar,

são adereço de um teatro

inteiro:

caos encenado

ou um perfil egípcio

 

E os caracóis solenes e sombrios

convidam ao pecado

e convocam-me aqui: noite de verão,

a liquidez do olhar:

 

Eu não poder,

em pedra,

abrir as asas

 

 

In “Se Fosse Um Intervalo”

Edições Dom Quixote

 

Ana Luísa Amaral

N. 1956

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Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

Recordando... Ana Luísa Amaral

UM CÉU E NADA MAIS

 

Um céu e nada mais - que só um temos,

como neste sistema: só um sol.

Mas luzes a fingir, dependuradas

em abóbada azul - como de tecto.

E o seu número tal, que deslumbrados

eram os teus olhos, se tas mostrasse,

amor, tão ribalta azul, como de

circo, e dança então comigo no

trapézio, poema em alto risco,

e um levíssimo toque de mistério.

Pega nas lantejoulas a fingir

de sóis mal descobertos e lança

agora a âncora maior sobre o meu

coração. Que não te assuste o som

desse trovão que ainda agora ouviste,

era de deus a sua voz, ou mito,

era de um anjo por demais caído.

Mas, de verdade: natural fenómeno

a invadir-te as veias e o cérebro,

tão frágil como álcool, tão de

potente e liso como álcool

implodindo do céu e das estrelas,

imensas a fingir e penduradas

sobre abóbada azul. Se te mostrasse,

amor, a cor do pesadelo que por

aqui passou agora mesmo, um céu

e nada mais -que nada temos,

que não seja esta angústia de

mortais (e a maldição da rima,

já agora, a invadir poema em alto

risco), e a dança no trapézio

proibido, sem rede, deus, ou lei,

nem música de dança, nem sequer

inocência de criança, amor,

nem inocência. Um céu e nada mais.

 

 

In “Às Vezes o Paraíso”

Quetzal Editores – Lisboa – 1998  

 

Ana Luísa Amaral

N. 1956

 

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Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Recordando... Ana Luísa Amaral... Poetisa Contemporânea

UM CÉU E NADA MAIS

 

Um céu e nada mais – que só um temos,

como neste sistema: só um sol.

Mas luzes a fingir, dependuradas

em abóbada azul - como de tecto.

E o seu número tal, que deslumbrados

eram os teus olhos, se tas mostrasse,

amor, tão ribalta azul, como de

circo, e dança então comigo no

trapézio, poema em alto risco,

e um levíssimo toque de mistério.

Pega nas lantejoulas a fingir

de sóis mal descobertos e lança

agora a âncora maior sobre o meu

coração. Que não te assuste o som

desse trovão que ainda agora ouviste,

era de deus a sua voz, ou mito,

era de um anjo por demais caído.

Mas, de verdade: natural fenómeno

a invadir-te as veias e o cérebro,

tão frágil como álcool, tão de

potente e liso como álcool

implodindo do céu e das estrelas,

imensas a fingir e penduradas

sobre abóbada azul. Se te mostrasse,

amor, a cor do pesadelo que por

aqui passou agora mesmo, um céu

e nada mais - que nada temos,

que não seja esta angústia de

mortais (e a maldição da rima,

já agora, a invadir poema em alto

risco), e a dança no trapézio

proibido, sem rede, deus, ou lei,

nem música de dança, nem sequer

inocência de criança, amor,

nem inocência. Um céu e nada mais.

 

 

In “Às Vezes o Paraíso”

Quetzal Editores

 

Ana Luísa Amaral

N. 1956

 

 

sinto-me: Radiante Sempre...
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