Domingo, 25 de Junho de 2017

Recordando... Alberto Caeiro

A GUERRA QUE AFLIGE...

 

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,

É o tipo perfeito do erro da filosofia.

 

A guerra, como tudo humano, quer alterar.

Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito

E alterar depressa.

 

Mas a guerra inflige a morte.

E a morte é o desprezo do universo por nós.

Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.

Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.

 

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.

Tudo é orgulho e inconsciência.

Tudo é querer mexer-se, fazer cousas, deixar rasto.

Pára o coração e o comandante dos esquadrões

Regressa aos bocados o universo exterior.

A química directa da Natureza

Não deixa lugar vago para o pensamento.

 

A humanidade é uma revolta de escravos.

A humanidade é um governo usurpado pelo povo.

Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

 

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!

Paz a todas as cousas pré-humanas, mesmo no homem!

Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

 

“Poemas Inconjuntos”

 

In “Poesia”

Ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith - 2001

Assírio & Alvim

 

Alberto Caeiro

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Domingo, 19 de Junho de 2016

Recordando... Alberto Caeiro

O AMOR É UMA COMPANHIA

 

O amor é uma companhia.

Já não sei andar só pelos caminhos,

Porque já não posso andar só.

Um pensamento visível faz-me andar mais depressa

E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.

E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

 

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.

Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

 

Todo eu sou qualquer força que me abandona.

Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

 

O Pastor Amoroso

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” - 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses - Editora Ulisses

Pág. 113

 

Alberto Caeiro

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Sexta-feira, 19 de Junho de 2015

Recordando... Alberto Caeiro

É NOITE. A NOITE É MUITO ESCURA.

 

É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância

Brilha a luz duma janela.

Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.

É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,

Atrai-me só por essa luz vista de longe.

Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

 

Mas agora só me importa a luz da janela dele.

Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,

A luz é a realidade imediata para mim.

Eu nunca passo para além da realidade imediata.

Para além da realidade imediata não há nada.

Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,

Em relação à distância onde estou há só aquela luz.

O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.

Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.

A luz apagou-se.

Que me importa que o homem continue a existir?

 

8-11-1915

 

Poemas Inconjuntos

 

In "Poemas de Alberto Caeiro"

Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões

e Luiz de Montalvor

Editora Ática – 1993 - 10ª edição

 

Alberto Caeiro/Fernando Pessoa

(1888 – 1935)

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Quinta-feira, 19 de Junho de 2014

Recordando... Alberto Caeiro

VIVE, DIZES, NO PRESENTE

 

Vive, dizes, no presente,

Vive só no presente.

 

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;

Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.

 

O que é o presente?

É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.

É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.

Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.

 

Não quero incluir o tempo no meu esquema.

Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar

nelas como coisas.

Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

 

Eu nem por reais as devia tratar.

Eu não as devia tratar por nada.

 

Eu devia vê-las, apenas vê-las;

Vê-las até não poder pensar nelas,

Vê-las sem tempo, nem espaço,

Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê. 

É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

 

Poemas Inconjuntos

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Alberto Caeiro/Fernando Pessoa

1889 – 1915

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Quinta-feira, 17 de Junho de 2010

Recordando... Alberto Caeiro/Fernando Pessoa

SE EU MORRER NOVO

 

Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

 

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força.  Nada o pode impedir.

 

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

 

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva –  
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo

(E nunca a outra coisa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

 

Uma vez amei, julguei que me amariam, 
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão –

Porque não tinha que ser.

 

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.
 

 

Poemas Inconjuntos

 

Poemas de Alberto Caeiro

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Alberto Caeiro/Fernando Pessoa

1889 – 1915

 

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