Quarta-feira, 7 de Junho de 2017

Recordando... Álvaro de Campos

NÃO ESTOU PENSANDO EM NADA

 

Não estou pensando em nada

E essa coisa central, que é coisa nenhuma,

É-me agradável como o ar da noite,

Fresco em contraste com o Verão quente do dia.

 

Não estou pensando em nada, e que bom!

 

Pensar em nada

É ter a alma própria e inteira.

Pensar em nada

É viver intimamente

O fluxo e o refluxo da vida...

 

Não estou pensando em nada.

É como se me tivesse encostado mal.

Uma dor nas costas, ou num lado das costas.

Há um amargo de boca na minha alma:

É que, no fim de contas,

Não estou pensando em nada,

Mas realmente em nada,

Em nada...

 

6-7-1935

 

In “Os Grandes Clássicos da Literatura Portuguesa

Fernando Pessoa – Poesia de Álvaro Campos – Vol. II”

Assírio & Alvim e Herdeiros de Fernando Pessoa

(edição de Teresa Rita Lopes), Lisboa, 2002

Da presente edição: Editora Planeta DeAgostini, S.A. – Lisboa

Colecção dirigida por Vasco Graça Moura

 

Álvaro de Campos

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Sábado, 25 de Junho de 2016

Recordando... Álvaro de Campos

LISBOA COM SUAS CASAS

 

Lisboa com suas casas

De várias cores,

Lisboa com suas casas

De várias cores,

Lisboa com suas casas

De várias cores...

 

À força de diferente, isto é monótono.

Como à força de sentir, fico só a pensar.

 

Se, de noite, deitado mas desperto,

Na lucidez inútil de não poder dormir,

Quero imaginar qualquer coisa

E surge sempre outra (porque há sono,

E, porque há sono, um bocado de sonho),

Quero alongar a vista com que imagino

Por grandes palmares fantásticos.

Mas não vejo mais,

Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,

Que Lisboa com suas casas

De várias cores.

 

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.

À força de monótono, é diferente.

E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

 

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,

Lisboa com suas casas

De várias cores.

 

Poesias de Álvaro Campos

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses - Editora Ulisses

Pág. 199

 

Álvaro de Campos

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Sábado, 7 de Junho de 2014

Recordando... Álvaro de Campos

CRUZ NA PORTA DA TABACARIA!

 

Cruz na porta da tabacaria!

Quem morreu? O próprio Alves? Dou

Ao diabo o bem-estar que trazia.

Desde ontem a cidade mudou.

 

Quem era? Ora, era quem eu via.

Todos os dias o via. Estou

Agora sem essa monotonia.

Desde ontem a cidade mudou.

 

Ele era o dono da tabacaria.

Um ponto de referência de quem sou.

Eu passava ali de noite e de dia.

Desde ontem a cidade mudou.

 

Meu coração tem pouca alegria,

E isto diz que é morte aquilo onde estou.

Horror fechado da tabacaria!

Desde ontem a cidade mudou.

 

Mas ao menos a ele alguém o via,

Ele era fixo, eu, o que vou,

Se morrer, não falto, e ninguém diria:

Desde ontem a cidade mudou.

 

(14-10-1930)

 

Poesias de Álvaro Campos

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

1890 – 1935

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Terça-feira, 29 de Junho de 2010

Recordando... Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

SONETO JÁ ANTIGO

Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de

Londres p’ra Iorque, onde nasceste (dizes…

que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,

 
embora não o saibas, que morri.
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará… Depois vai dar

a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!

 

 

Poesias de Álvaro Campos

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

1890 – 1935

 

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Sábado, 5 de Junho de 2010

Recordando... Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

AH UM SONETO!!!

 

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas – esta é boa! – era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...

 

 

Poesias de Álvaro Campos

 

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

1890 – 1935

 

 

 

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