Quinta-feira, 7 de Julho de 2016

Recordando... António Feijó

HINO À BELEZA

 

Onde quer que o fulgor da tua glória apareça,

– Obra de génio, flor d’heroísmo ou santidade,

Da Gioconda imortal na radiosa cabeça,

Num acto de grandeza augusta ou de bondade,

 

– Como um pagão subindo à Acrópole sagrada,

Vou de joelhos render-te o meu culto piedoso,

Ou seja o Herói que leva uma aurora na Espada,

Ou o Santo beijando as chagas do Leproso.

 

Essa luz sem igual com que sempre iluminas

Tudo o que existe em nós de grande e puro, veio

Do mesmo foco em mil parábolas divinas:

– Raios do mesmo olhar, ânsias do mesmo seio.

 

Alta revelação que, baixando em segredo,

O prisma humano quebra em ângulos dispersos,

Como a água a cair de rochedo em rochedo

Repete o mesmo som, mas em modos diversos.

 

É audácia no Herói; resignação no Santo;

Som e Cor, ondulando em formas imortais;

No mármore rebelde abre em folhas de acanto,

E esmalta de candura a flora dos vitrais.

 

Oh Beleza! Oh Beleza! as Horas fugitivas

Passam diante de ti, aladas como sonhos...

Que importa onde elas vão, doutra força cativas,

Se o Infinito luz nos teus olhos risonhos?!

 

Abrem flores, cantando, ao teu hálito ardente,

Brilham as aves como estrelas, e as estrelas,

Como flores enchendo a noite refulgente,

Deixam-se resvalar sobre quem vai colhê-las...

 

És tu que às ilusões dás juventude e forma,

Tu, que talvez do céu, d’onde vens, te recordes

Quando, a ouvir-nos chorar, a tua voz transforma

Dissonâncias de dor em imortais acordes.

 

Vejo-te muita vez, – luz d’aurora ou de raio, –

Como um gládio de fogo a avançar no horizonte;

Ou então, em manhãs transparentes de maio,

Náiade toda nua a fugir d’uma fonte.

 

Outras vezes, de noite e a ocultas, apareces,

Como ovelha que Deus do seu redil tresmalha,

Trazendo no regaço inesgotáveis messes,

Que Ele por tuas mãos sobre a miséria espalha...

 

Pudesse eu revelar-te em estrofes aladas,

Que partissem ao sol refulgindo em lavores,

Com rimas d’oiro, em blau e púrpura engastadas,

Como versos que vão desabrochando em flores!

 

Mas a língua não é sumptuosa bastante

Para nela deixar teu génio circunscrito;

Trago-te dentro em mim, sinto-te a cada instante,

E a voz nem mesmo tem a eloquência d’um grito!

 

Mas se para o teu culto, em esplendor externo,

Não encontro uma prece altamente expressiva,

Por ti meu coração arde d’um fogo eterno,

Como chama a tremer de lâmpada votiva!

 

In “Sol de Inverno”

 

António Feijó

(1859-1917)

publicado por cateespero às 00:00
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