Segunda-feira, 13 de Novembro de 2017

Recordando... Américo Cortês Pinto

O FESTIM

 

Uns atrás de outros, impertinentes,

(Que estranho mundo de fantasmas tão dif'rentes!)

Ei-los que surgem aos encontrões

No perturbado Mundo Interior...

Uns a puxar por mim aos repelões,

Outros suaves e alicientes

Com falsos gestos de amor...

 

Uns severos, irados,

Desvairados,

Outros grotescos, histriónicos...

E os mais trágicos de todos – quem diria! –

Os fantasmas irónicos

Da Alegria...

 

Insinuam-se gentis,

Com doces falas, música nos gestos,

Promessas de oiro, subtis,

E o riso

De quem traz dentro das mãos o Paraíso

E é só pedi-lo que é pra nós também...

 

Ah! Como são amigos! Quem não há-de

Abrir tranquilo a porta...

Sentá-los à sua mesa!

Beber o vinho ácido às canecas

E entorná-lo perfumado

Com manchas de rubim sobre as toalhas!...

E olhar as nódoas sobre o linho,

A sorrir,

Sem saber distinguir

Se é sangue ou vinho!

 

Quebrar as taças e julgar que o ruído

Das lágrimas cortantes das estilhas

São risos claros de cristal...

 

E coroar a fronte no banquete

Com as coroas de rosas que nos dão,

Sem perceber que as rosas caem, ficam espinhos...

E à saída

Acompanhá-los pelas ruas, a cantar,

E deixar-se arrastar

Indefeso e sozinho,

Como se fosse, ao cabo do caminho,

Ali mesmo o Céu aberto...

 

E agradecer-lhes iludido

Ao vê-los construir pra nosso bem

As fantásticas miragens do Deserto...

 

E ao acordar, ver-se perdido,

No árido isolamento

Do intérmino areal...

 

A miragem desfeita como um fumo!...

E pra o regresso ao lar,

Um céu sem Sol nem Estrela Polar...

 

Uma bússola doida!...

 

E um chão de areia, sem rumo!...

 

E partir, e sofrer,

E ao cabo, enfim,

Chegar

Exausto, ao lar...

E não ver mais que os restos do festim...

 

O pão alvo, espezinhado...

A golpear-nos as mãos, taças partidas...

As bilhas entornadas no sobrado...

Cinzas no chão! Lume apagado...

As flores emurchecidas...

 

O doce leite derramado e agre...

E em vez de mel:

– Favos de cera e fel

E o vinho nos cristais trocado por vinagre!

 

E através das janelas e dos vidros partidos

Da nossa alma,

Sentir numa agonia,

A sacudir-nos, a risada dos fantasmas

Cruel e fria.

 

In “A Alma e o Deserto”

Portugália Editora

 

Américo Cortês Pinto

(1896-1979)

publicado por cateespero às 00:57
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