Sexta-feira, 30 de Junho de 2017

Recodando... Fernando Pessoa

NESTA GRANDE OSCILAÇÃO

 

Nesta grande oscilação

Entre crer e mal descrer

Transtorna-se o coração

Cheio de nada saber;

 

E, alheado do que sabe

Por não saber o que é,

Só um instante lhe cabe,

Que é o conhecer a fé —

 

A fé, que os astros conhecem

Porque é a aranha que está

Na teia, que todos tecem,

E é a vida que neles há.

 

5-5-1934

 

In “Poemas Esotéricos - Fernando Pessoa” – 1ª edição

Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith

Assírio & Alvim

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

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Domingo, 25 de Junho de 2017

Recordando... Alberto Caeiro

A GUERRA QUE AFLIGE...

 

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,

É o tipo perfeito do erro da filosofia.

 

A guerra, como tudo humano, quer alterar.

Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito

E alterar depressa.

 

Mas a guerra inflige a morte.

E a morte é o desprezo do universo por nós.

Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.

Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.

 

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.

Tudo é orgulho e inconsciência.

Tudo é querer mexer-se, fazer cousas, deixar rasto.

Pára o coração e o comandante dos esquadrões

Regressa aos bocados o universo exterior.

A química directa da Natureza

Não deixa lugar vago para o pensamento.

 

A humanidade é uma revolta de escravos.

A humanidade é um governo usurpado pelo povo.

Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

 

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!

Paz a todas as cousas pré-humanas, mesmo no homem!

Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

 

“Poemas Inconjuntos”

 

In “Poesia”

Ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith - 2001

Assírio & Alvim

 

Alberto Caeiro

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Segunda-feira, 19 de Junho de 2017

Recordando... Ricardo Reis

AMO O QUE VEJO PORQUE DEIXAREI

 

Amo o que vejo porque deixarei

Qualquer dia de o ver.

Amo-o também porque é.

 

No plácido intervalo em que me sinto,

Do amar, mais que ser,

Amo o haver tudo e a mim.

 

Melhor me não dariam, se voltassem,

Os primitivos deuses,

Que também, nada sabem.

11-10-1934

 

In “Poemas de Ricardo Reis”

Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte

Imprensa Nacional - Casa da Moeda - 1994

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Terça-feira, 13 de Junho de 2017

Recordando... Fernando Pessoa

O GRANDE ESPECTRO, QUE FAZ SOMBRA E MEDO

 

O grande espectro, que faz sombra e medo,

Ergueu-se ao pé de mim, e eu temi-o;

Não porém com pavor, que nasce cedo,

Mas com um negro medo, oco e tardio.

 

Trajava o corpo seu vácuo e segredo

E o espaço irreal, onde formava frio,

Era como os desertos do degredo,

Um não-ser mais vazio que o vazio.

 

Não mais o vi, mas sinto a cada hora

Ao pé da alma, que teme e já não chora,

A álgida consequência e o vulto nada,

 

E cada passo em minha senda incerta

Um eco o acompanha, que deserta

Da atenção fria, inutilmente dada.

 

9-2-1930

 

In “Poemas Esotéricos - Fernando Pessoa” – 1ª edição

Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith

Assírio & Alvim

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

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Quarta-feira, 7 de Junho de 2017

Recordando... Álvaro de Campos

NÃO ESTOU PENSANDO EM NADA

 

Não estou pensando em nada

E essa coisa central, que é coisa nenhuma,

É-me agradável como o ar da noite,

Fresco em contraste com o Verão quente do dia.

 

Não estou pensando em nada, e que bom!

 

Pensar em nada

É ter a alma própria e inteira.

Pensar em nada

É viver intimamente

O fluxo e o refluxo da vida...

 

Não estou pensando em nada.

É como se me tivesse encostado mal.

Uma dor nas costas, ou num lado das costas.

Há um amargo de boca na minha alma:

É que, no fim de contas,

Não estou pensando em nada,

Mas realmente em nada,

Em nada...

 

6-7-1935

 

In “Os Grandes Clássicos da Literatura Portuguesa

Fernando Pessoa – Poesia de Álvaro Campos – Vol. II”

Assírio & Alvim e Herdeiros de Fernando Pessoa

(edição de Teresa Rita Lopes), Lisboa, 2002

Da presente edição: Editora Planeta DeAgostini, S.A. – Lisboa

Colecção dirigida por Vasco Graça Moura

 

Álvaro de Campos

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Quinta-feira, 1 de Junho de 2017

Recordando... Alexander Search

HORROR

 

Em minha alma, na sua escuridão,

Tão escura como a alma em cada ser,

Por bênção de sua eterna maldição

Lampeja qual vampiro sem corpo tido

Em rara plenitude além saber,

Do universo o íntimo sentido.

 

E tão cobarde é meu pensamento,

Toda a vida e tudo em mim absorvendo

E me tomando, mais fel do que o fel,

Que eu tenho medo de abrir os meus olhos

E a mente a uma surpresa horrível,

E sinto meu ser quase em supressão

Num horror além da Imaginação.

 

Mais do que a mais cobarde das feras

Diante do raio em que o céu se fen

Mais do que o ébrio na sua aflição

Que tem visões que o temor transcende,

Mais do que o medo pode conceber,

Mais que a loucura pode fazer crer,

Mais do que o nem sequer imaginado,

O mistério de tudo, o seu sentido

Quando em mim, em plenitude vislumbrado,

Faz aterrar meu ser enlouquecido.

 

Não fales — não há palavra a ser dita —

Não, nem a sombra dessa sensação,

Da corda da sanidade partida

Em mim, na angústia daquele momento

E na intensidade da negação;

Não penses, não é capaz o pensar

De um tal horror poder expressar.

 

A mínima coisa fica terrível

E sublime o ínfimo pensamento —

Tudo no mundo fica mais horrível

Do que o sentido da alma do tempo,

Do que o medo da morte profunda,

Do que o remorso em que o crime se afunda.

 

É como que trazer o conhecimento

De que o mistério é só um jogo tolo.

Contudo se assim o viessem trazer,

Morto estaria o meu pensamento

E morto, como tudo, todo o meu ser:

É isto o que os homens sabem nomear,

Olhando o rosto de Deus, grosseiramente.

E esse sentir pode mais que mutilar

O espírito, mais que embrutecer;

Ele mataria total e prontamente,

Com um susto nem no inferno provado,

Mais do que do terror é conhecido,

Mais do que do medo é imaginado.

 

1907

 

In “Poesia”

Edição e tradução de Luísa Freire

Assírio & Alvim – 1999

 

Alexander Search

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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