Quarta-feira, 31 de Maio de 2017

Recordando... Guerra Junqueiro

REGRESSO AO LAR

 

Ai, há quantos anos que eu parti chorando

deste meu saudoso, carinhoso lar!...

Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...

Minha velha ama, que me estás fitando,

canta-me cantigas para me eu lembrar!...

 

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...

Só achei enganos, decepções, pesar...

Oh, a ingénua alma tão desiludida!...

Minha velha ama, com a voz dorida.

canta-me cantigas de me adormentar!...

 

Trago de amargura o coração desfeito...

Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!

Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...

Minha velha ama, que me deste o peito,

canta-me cantigas para me embalar!...

 

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho

pedrarias de astros, gemas de luar...

Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...

Minha velha ama, sou um pobrezinho...

Canta-me cantigas de fazer chorar!...

 

Como antigamente, no regaço amado

(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!

Ai o teu menino como está mudado!

Minha velha ama, como está mudado!

Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

 

Canta-me cantigas manso, muito manso...

tristes, muito tristes, como à noite o mar...

Canta-me cantigas para ver se alcanço

que a minha alma durma, tenha paz, descanso,

quando a morte, em breve, ma vier buscar!

 

In “Os Simples”

 

Guerra Junqueiro

(1850-1923)

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Quinta-feira, 25 de Maio de 2017

Recordando... Francisco José Viegas

ESSA VELHA CIÊNCIA…

 

Essa velha ciência, a de esperar, escreve-la

em cadernos retirados a cada viagem. Neles

anotaste os movimentos do mundo, o balanço

do mar. São só velhos, os cadernos; ainda

 

escreves à mão, ainda respiras por ele,

ciência antiga - onde a conservas? Linha

a linha as viagens vão passando por eles como

um mapa: aqui as ilhas, ali pequenos continentes,

 

provas de que o mundo não acaba à tua porta

quando o jardim desaparece entre os granitos.

Levantas a voz uma vez por outra, mas não é

 

isso que te interessa. Gostavas apenas que

os cadernos ficassem, gravados de ti e de quem amas,

guardados em gavetas, guardando o mundo.

 

In “O Puro e o Impuro”

Quasi Edições

 

Francisco José Viegas

(N.1952)

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Sexta-feira, 19 de Maio de 2017

Recordando... António Cândido Franco

Ó SAUDADE DAS TREVAS

 

Ó Saudade das trevas

que hoje são luz.

Ó Saudade do silêncio

que é hoje canto.

 

Ó Saudade de nada

que é hoje tudo.

Ó Saudade da criança

que eu hoje sou.

 

Canto

porque fiquei em silêncio.

Vejo

já que na escuridão me perdi.

 

Sou

porque sei.

Cresci

já que parei.

 

E tudo é assim

para que

sem remédio

as trevas

o silêncio e o nada

sejam dentro de mim.

 

In “Estâncias Reunidas” (1977-2002)

Edições Quasi

 

António Cândido Franco

(N. 1956)

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Sábado, 13 de Maio de 2017

Recordando... David Mourão-Ferreira

TERNURA

 

Desvio dos teus ombros o lençol,

que é feito de ternura amarrotada,

da frescura que vem depois do sol,

quando depois do sol não vem mais nada...

 

Olho a roupa no chão: que tempestade!

Há restos de ternura pelo meio,

como vultos perdidos na cidade

nde uma tempestade sobreveio...

 

Começas a vestir-te, lentamente,

e é ternura também que vou vestindo,

para enfrentar lá fora aquela gente

que da nossa ternura anda sorrindo...

 

Mas ninguém sonha a pressa com que nós

a despimos assim que estamos sós!

 

In "Infinito Pessoal"

Guimarães Editores

 

David Mourão-Ferreira

(1927-1996)

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Domingo, 7 de Maio de 2017

Recordando... Manuela Amaral

NO DIA DE AMANHÃ

 

No dia de amanhã eu estarei acordada à minha espera.

 

NÃO QUERO QUE MAIS NINGUÉM ME ACORDE

SENÃO EU

 

Vou receber-me condignamente com todas as honras de um hóspede ilustre

 

Tomo um banho ou tomo um duche (não sei bem)

e ponho aquele vestido cor de luto eroticamente triste

 

À mesa ficarei sentada à minha direita (em sinal de respeito e educação) Vou falar sozinha de coisas que não existem Vou ter um sorriso social Hei-de falar do tempo do teatro do ballet da moda de Paris ou do último modelo do Toyota Vou ser cretina e idiota mas vou receber condignamente o meu hóspede ilustre - EU

 

No dia de amanhã eu estarei acordada à minha espera

 

e

 

NÃO QUERO QUE MAIS NINGUÉM ME ACORDE

SENÃO EU

 

In "Amor Geométrico"

Edição da Autora – 1979

 

Manuela Amaral

(1934-1995)

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Segunda-feira, 1 de Maio de 2017

Recordando... Adolfo Casais Monteiro

FADO

 

Música triste

desenganado

canto nocturno

a pouco e pouco

vai penetrando

meu coração

 

Nocturna prece

ou pesadelo

não sei que sombra

aquele canto

em mim deixou.

 

Febre ou cansaço?

Não sei! Nem quero.

Lúgubre pranto

de roucas vozes

não tem beleza

– só emoção.

 

É como um eco

de noites mortas

de vidas gastas

ao deus dará.

 

Mas eu o recebo

dentro de mim.

Entendo. Choro.

Eu o recebo

Como um irmão.

 

In "Heras e Eras"

 

Adolfo Casais Monteiro

(1908-1972)

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