Quarta-feira, 31 de Agosto de 2016

Recordando... António Sem

HÁ DIAS ASSIM

 

Há dias assim

cinzentos de sol

a amarelecerem as folhas da melancolia

 

Há dias assim

com sorrisos imóveis

quando tombam os ramos da noite

 

Há dias assim

onde o instante quebra

a aliança entre o homem e as coisas

 

E nesta sucessão dos dias

deslizo como uma gota sem contactos

que abro entre formas cegas que me ignoram

 

In “Momentos e Fragmentos”

Universitária Editora

 

António Sem **

(N. 1945)

 

** Pseudónimo de António Manuel Gonçalves Filipe

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Quinta-feira, 25 de Agosto de 2016

Recordando... A. Dasilva O.

MALDITO SEJA EU

 

Hoje acordei dividido

na impossibilidade

de me transformar numa metáfora

 

Assim preso

a um muro de vídeo

cheio de imagens

feridas pelo impessoal

 

Restos de mim

espalhados pelo chão

de uma época

que não consigo destruir

 

In “Revista A Mar Arte”

Nº 5 - Outono de 1996

Pág. 32

 

A. Dasilva O. **

(N. 1958)

 

** Pseudónimo de António S. Oliveira

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Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016

Recodando... Luís Veiga Leitão

CORREDOR

 

Cem metros à sombra – temperatura

de tantos corpos e almas em rodagem.

neste muro cercado, a maior viagem

sob um céu de pedra escura.

 

Sombras em fila, espectros talvez,

desplantam ecos da raiz do chão.

Lembram comboios que vêm e vão

sob túneis de pez.

 

E vêm e vão com pés humanos

ressoando movimentos tardos,

levando fardos, trazendo fardos

das horas sem dias e meses sem anos.

 

E vêm e vão, sempre, sempre a rodar

na linha dos railes espectrais,

sem descarregadores na gare,

sem guindastes no cais.

 

E vêm e vão pela via larga

das redes do sonho e da lembrança,

levando a carga, trazendo a carga

de toneladas de esperança.

 

In “Surrealismo Abjeccionismo”

Antologia organizada por Mário Cesariny

Edições Salamandra

 

Luís Veiga Leitão **

(1912-1987)

 

** Pseudónimo de Luís Maria Leitão

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Sábado, 13 de Agosto de 2016

Recordando... Fernando Assis Pacheco

TENTAS, DE LONGE...

 

Tentas, de longe, dizer que estás aqui.

Com peso triste caminha na rua o Outono.

O meu coração debruça-se à janela

a ver pessoas e carros, e as folhas caíndo.

 

Mastigo esta solidão

como quando era pequeno e jantava

diante dos pais zangados:

devagar, ausente.

 

In "A musa irregular"

Ed. Asa - 1997

 

Fernando Assis Pacheco

(1937-1995)

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Domingo, 7 de Agosto de 2016

Recordando... José Duro

DOENTE

 

Que negro mal o meu! estou cada vez mais rouco!

Fogem de mim com asco as virgens d'olhar cálido...

E os velhos, quando passo, vendo-me tão pálido,

Comentam entre si: - coitado, está por pouco!...

 

Por isso tenho ódio a quem tiver saúde,

Por isso tenho raiva a quem viver ditoso,

E, odiando toda a gente, eu amo o tuberculoso.

E só estou contente ouvindo um alaúde.

 

Cada vez que me estudo encontro-me diferente,

Quando olham para mim é certo que estremeço;

E vai, pensando bem, sou, como toda a gente,

O contrário talvez daquilo que pareço...

 

Espírito irrequieto, fantasia ardente,

Adoro como Poe as doidas criações,

E se não bebo absinto é porque estou doente,

Que eu tenho como ele horror às multidões.

 

E amando doudamente as formas incompletas

Que às vezes não consigo, enfim, realizar,

Eu sinto-me banal ao pé dos mais poetas,

E, achando-me incapaz, deixo de trabalhar...

 

São filhos do meu tédio e duma dor qualquer

Meus sonhos de neurose horrivelmente histéricos

Como as larvas ruins dos corpos cadavéricos,

Ou como a aspiração de Charles Baudelaire.

 

Apraz-me o simbolismo ingénito das coisas...

E aos lábios da Mulher, a desfazer-se em beijos,

Prefiro os lábios maus das negregadas loisas,

Abrindo num ancelar de mórbidos desejos.

 

E é vão que medito e é em vão que sonho:

Meu coração morreu, minha alma é quase morta...

Já sinto emurchecer no crânio a flor do Sonho,

E oiço a Morte bater, sinistra, à minha porta...

 

Estou farto de sofrer, o sofrimento cansa,

E, por maior desgraça e por maior tormento,

Chego a julgar que tenho - estúpida lembrança -

Uma alma de poeta e um pouco de talento!

 

A doença que me mata é moral e física!

De que me serve a mim agora ter esperanças,

Se eu não posso beijar as trémulas crianças,

Porque ao meu lábio aflui o tóxico da tísica?

 

E morro assim tão novo! Ainda não há um mês,

Perguntei ao Doutor: - Então?...- Hei-de curá-lo...

Porém já não me importo, é bom morrer, deixá-lo!

Que morrer - é dormir... dormir... sonhar talvez...

 

Por isso irei sonhar debaixo dum cipreste

Alheio à sedução dos ideais perversos...

O poeta nunca morre embora seja agreste

A sua aspiração e tristes os seus versos!

 

In “Fel”

Libânio & Cunha Editores - 1898

 

José Duro

(1875-1899)

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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2016

Recordando... Albano Martins

PALETA

 

Tens uma paleta

a que faltam

algumas cores. Talvez

porque há substâncias

a que não soubeste

dar expressão. Ou porque elas

são incolores. Ou porque

em toda a realidade

há fendas

que nem pela palavra

nem pela cor

alguma vez

saberás preencher.

 

In "Escrito a vermelho"

Editora Campo das Letras

 

Albano Martins

(N. 1930)

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