Quinta-feira, 30 de Junho de 2016

Recordando... Fernando Pessoa

A MINHA VIDA É UM BARCO ABANDONADO

 

A minha vida é um barco abandonado

Infiel, no ermo porto, ao seu destino.

Por que não ergue ferro e segue o atino

De navegar, casado com o seu fado?

 

Ah! falta quem o lance ao mar, e alado

Torne seu vulto em velas; peregrino

Frescor de afastamento, no divino

Amplexo da manhã, puro e salgado.

 

Morto corpo da acção sem vontade

Que o viva, vulto estéril de viver,

Boiando à tona inútil da saudade.

 

Os limos esverdeiam tua quilha,

O vento embala-te sem te mover,

E é para além do mar a ansiada Ilha.

 

Cancioneiro

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” - 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

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Sábado, 25 de Junho de 2016

Recordando... Álvaro de Campos

LISBOA COM SUAS CASAS

 

Lisboa com suas casas

De várias cores,

Lisboa com suas casas

De várias cores,

Lisboa com suas casas

De várias cores...

 

À força de diferente, isto é monótono.

Como à força de sentir, fico só a pensar.

 

Se, de noite, deitado mas desperto,

Na lucidez inútil de não poder dormir,

Quero imaginar qualquer coisa

E surge sempre outra (porque há sono,

E, porque há sono, um bocado de sonho),

Quero alongar a vista com que imagino

Por grandes palmares fantásticos.

Mas não vejo mais,

Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,

Que Lisboa com suas casas

De várias cores.

 

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.

À força de monótono, é diferente.

E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

 

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,

Lisboa com suas casas

De várias cores.

 

Poesias de Álvaro Campos

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses - Editora Ulisses

Pág. 199

 

Álvaro de Campos

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Domingo, 19 de Junho de 2016

Recordando... Alberto Caeiro

O AMOR É UMA COMPANHIA

 

O amor é uma companhia.

Já não sei andar só pelos caminhos,

Porque já não posso andar só.

Um pensamento visível faz-me andar mais depressa

E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.

E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

 

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.

Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

 

Todo eu sou qualquer força que me abandona.

Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

 

O Pastor Amoroso

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” - 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses - Editora Ulisses

Pág. 113

 

Alberto Caeiro

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Segunda-feira, 13 de Junho de 2016

Recordando... Fernando Pessoa

CORPOS

 

O meu corpo é o abismo entre eu e eu.

 

Se tudo é um sonho sob o sonho aberto

Do céu irreal, sonhar-te é possuir-te,

E possuir-te é sonhar-te de mais perto

 

As almas sempre separadas,

Os corpos são o sonho de uma ponte

Sobre um abismo que nem margens tem

 

Eu porque me conheço, me separo

De mim, e penso, e o pensamento é avaro

 

A hora passa. Mas meu sonho é meu.

 

s.d.

 

In “Pessoa Inédito”

Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes

Livros Horizonte - 1933

Pág. 7

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

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Terça-feira, 7 de Junho de 2016

Recordando... Ricardo Reis

PONHO NA ALTIVA MENTE O FIXO ESFORÇO

 

Ponho na altiva mente o fixo esforço

       Da altura, e à sorte deixo,

       E às suas leis, o verso;

Que, quando é alto e régio o pensamento,

       Súbdita a frase o busca

       E o escravo ritmo o serve.

 

Odes de Ricardo Reis

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” - 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses - Editora Ulisses

Pág. 134

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Quarta-feira, 1 de Junho de 2016

Recordando... Alexander Search

ESTRANHEZAS

 

O estranho e o anormal

Têm um aroma peculiar,

Sempre constantes na alternância

São um sorriso e um suspirar:

O estranho e o anormal

Têm um aroma peculiar.

 

Eles são flores em vasos guardadas

Que a arte humana não sabe fazer,

O estranho é forte como chicotadas

E o anormal faz-nos estremecer.

Eles são flores em vasos guardadas

Que a arte humana não sabe fazer.

 

Têm o ardor da paz perturbada,

Dos inquietos salões da alegria,

esta é a fragrância por eles usada

Que ora nos anima, ora nos sacia:

Têm o odor da paz perturbada,

Dos inquietos salões da alegria.

 

O estranho e o anormal

Têm um aroma peculiar —

O da humana carne que, na mudança

Se fez corrupta sem se queixar:

O estranho e o anormal

Têm um aroma peculiar.

 

1906

 

In “Poesia”

Edição e tradução de Luísa Freire

Assírio & Alvim – 1999

 

Alexander Search

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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