Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2015

Recordando... Fernando Carvalho Mourão

As Tuas Cartas

 

                    Amor, quando recebo carta tua,

                    Rasgando o envelope apetecido,

                    Tenho a impressão que te tiro o vestido

                    E que tu me apareces toda núa.

 

                                       Antonio Ferro

 

As tuas cartas, são pedacinhos de ti

Que a pouco e pouco vaes metendo no correio

E que eu vou recebendo e vou guardando, aqui

Neste cofre de amor: – Meu coração já cheio…

 

Por elas passa o Espaço, emquanto andam na mão

Daqueles para quem de nada valem, creio.

– Papeis brancos, postais, cartas que vêm, que vão,

Nessa imensa Babel das malas do correio.

 

Ao receber porêm a carta ha tanto espr’ada

Sinto que és tu que vens! – Aquela carta é tua…

E a tua alma tambem lá dentro vem fechada!...

 

Abro a carta… sorrio… Tua alma inda fluctua…

Mas não a posso lêr… Lá dentro não traz nada!

……………………………………………………… .

Quem sabe se eras tu aquela carta núa?!

 

1915

 

In “Alma Nova” – Publicação Mensal

II Série – Dezembro de 1915 – Nº 13

Editora – Empresa de Publicidade “Ressurgimento”

 

Fernando Carvalho Mourão

(1894 - 1951)

 

Mantem a grafia original

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | ler comentários (1) | favorito
Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2015

Recordando... José Carlos Ary dos Santos

NATAL É QUANDO UM HOMEM QUISER…

 

Tu que dormes à noite na calçada do relento

Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento

Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento

És meu irmão amigo

És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme

Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume

E sofres o Natal da solidão sem um queixume

És meu irmão amigo

És meu irmão

Natal é em Dezembro

Mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

É quando um homem quiser

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar

Tu que inventas bonecas e comboios de luar

E mentes ao teu filho por não os poderes comprar

És meu irmão amigo

És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei

Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei

Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei

És meu irmão amigo

És meu irmão

Natal é em Dezembro

Mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

É quando um homem quiser

Natal é quando nasce uma vida a amanhecer

Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher”

 

In “Obra Poética”

Edições Avante

 

José Carlos Ary dos Santos

(1937 - 1984)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Sábado, 19 de Dezembro de 2015

Recordando... Almeida Garrett

O MAR

 

III

 

Vae-se acclarando agora o firmamento,

E azulando-se o mar co’a luz nascente

Do primeiro, tenuissimo crepusculo.

Eil-a que assoma, despontando apenas

C’os roseos dedos, a formosa aurora

Vem brandamente a desparzir no polo

As roxas, lindas flores, rociadas

Do matutino, bemfazejo orvalho,

Talvez por mãos dos zephyros colhidas

Nos jardins Ulysseos, nas brandas veigas

Ao remanso do placido Mondego...

Talvez ontem ainda a minha amada

Lhe respirasse o lisongeiro aroma...

Oh! recolhei-as, amorosas filhas

Do placido Nereu, ide nos collos

Dos Tritões namorados, ide ao Tejo

E ao manso rio que ingrossaram prantos

Da malfadada Ignez, ide, levae-lh’as

Aos do meu coração, o amigo, a amante:

Dizei-lhes que eu, eu sou que vos invio.

Que depóz vós o coração me foge,

E que so vivo nas memorias delles.

Ide ligeiras, sim, correi, à nynphas...

Mas oh! do patrio meu Douro sombrio

Ai! não, não vades demandar as praias...

Amargosa e cruel me veda a sorte

Recordal-o sem dor... Ferreas angústias

Lá misero soffri... lá n’este peito

Verteu perversa mão do deus dos males

Quanto fel espremeu do peito ás furias,

Quanto veneno lhe escumou dos labios.

A ingrata... Ah! nunca mais me lembre o Douro:

Suas riquezas para si que as guarde.

Suas aguas turvas impetuoso as role

Por entre as calvas penedidas brutas

Que a lobrega torrente lhe comprimem:

Va, que a mim saudades não m’as deixa:

So tormentos me deu, não posso amal-o…

 

In “Flores sem Fructo” - Livro Primeiro

Imprensa Nacional – 1845

 

Almeida Garrett

(1799 - 1854)

 

Mantem a grafia original

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Domingo, 13 de Dezembro de 2015

Recordando... Firmino Mendes

A CASA, AO LADO DO RIO

 

São muitos os caminhos que levam ao rio,

à relação maior com o movimento do mundo.

Abrem-se algumas vozes de demoradas cores:

amoras, cerejas, romãs, cachos de glicínias.

 

A casa é pequena - tão só, entre as árvores e

tocada pelo vento que chega do lado das maçãs,

depois de atravessar o pequeno souto que guarda

a encosta. Mas a casa pequena recebe a luz do rio

 

e da corrente sem limite que respira do incerto.

Tudo respira do incerto - gozo puro de correr

aberto à matéria da matéria, ao sopro sem nascente

que atravessa o próprio ar e vive de poder viver.

 

Como as crianças trazem nos olhos o desequilíbrio

da inocência, assim se vestem os cantos da casa

onde tudo é imperfeito: - ao lado do rio, quatro ângulos

de musgo esperam a dança das grandes correntes.

 

Chegam as aves, no fim da tarde, para descansar do dia.

As cidades estão longe e a tristeza do mundo transforma-se

nessa aceitação do vento e do musgo, da casa e da corrente.

Tudo flui para o lugar de onde nascem todos os silêncios.

 

In “A terra e os Dias”

Pedra Formosa Edições

 

Firmino Mendes

(N. 1949)

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2015

Recordando... Eugénio de Andrade

O ANJO DE PEDRA

 

Tinha os olhos abertos mas não via.

O corpo era todo saudade

De alguém que o modelara e não sabia

Que o tocara de maio e claridade.

 

Parava o seu gesto onde pára tudo:

No limiar das coisas por saber

- e ficara surdo e cego e mudo

Para que tudo fosse grave no seu ser

 

In “As Mãos e os Frutos”

Editora Limiar – 9.ª Edição – 1980

 

Eugénio de Andrade **

(1923 - 2005)

** Pseudónimo de José Fontinhas

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito
Terça-feira, 1 de Dezembro de 2015

Recordando... Alfredo Vítor de Salema Vaz

MARCAS, OLHANDO OS DEDOS NÚS

 

Heráldicas safiras, que vos fiz?

Esmeraldas d’esperança, onde vos puz?

De astrais brilhantes, que é da casta luz?

E onde sangrais, meus bélicos rubís?

 

Perdi-vos para sempre! A sorte o quiz!

Choram por vós meus pobres dedos nús…

Como um vitral precioso nos seduz

De Laura o lacteo corpo onde fulgiz!

 

Tudo o que eu tinha, Amor, tudo te dei,

Sou pobre como Job e como um Rei

Fui pródigo de Bens e d’Honrarias!...

 

Hoje… - ai de mim!... Quizera reaver

Meu coração, que tu levaste, a arder,

Por entre coruscantes pedrarias!

 

Agosto de 1920

 

(Do livro inédito: Alguns Sonetos)

 

Mantém a grafia original

 

In “Alma Nova” – Publicação Mensal

IIIª Série – Maio/Junho de 1922 – Nº 2

Editora – Empresa de Publicidade “Ressurgimento”

 

Alfredo Vítor de Salema Vaz

(1893 -1939)    

publicado por cateespero às 00:00
link do post | Deixe seu comentário | favorito

.Eu

.pesquisar

 

.Julho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
17
18
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.Visitas desde Agosto.2008


contador de visitas gratis

.Ano XI

.Estão neste momento...

.posts recentes

. Recordando... Ana Hatherl...

. Recordando... Teresa Brin...

. Recorddando... Vitorino N...

. Recordando... Alberto Lac...

. Recodando... Fernando Pes...

. Recordando... Alberto Cae...

. Recordando... Ricardo Rei...

. Recordando... Fernando Pe...

. Recordando... Álvaro de C...

. Recordando... Alexander S...

.arquivos

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds