Sexta-feira, 31 de Julho de 2015

Recordando... Paulino António Cabral

DÉCIMA

 

A certo Eclesiástico

tendo um cravo ao peito

Tendes o cravo no peito,

O lugar impróprio é;

Pois se o tivésseis no pé,

Era o lugar mais perfeito;

Não julgueis, que o meu conceito

Vos faz a menor censura;

É só com doce brandura,

E sem vos fazer agravo,

Dar-vos pancada no cravo,

Sem tocar na ferradura.

 

In “Cem Poemas Portugueses do Riso e do Maldizer”

Selecção, organização e introdução de José Fanha

e José Jorge Letria

Editora Terramar

 

Paulino António Cabral de Vasconcelos

Abade de Jazente

(1719 - 1789)

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Sábado, 25 de Julho de 2015

Recordando... António Nobre

PARA AS RAPARIGAS DE COIMBRA

 

Tristezas têm-nas os montes

Tristezas têm-nas o Céu

Tristezas têm-nas as fontes,

Tristezas tenho-as eu!

 

Ó choupo magro e velhinho,

Corcundinha, todo aos nós:

És tal qual meu avozinho,

Falta-te apenas a voz.

 

Minha capa vos acoite

Que é pra vos agasalhar:

Se por fora é cor da noite,

Por dentro é cor do luar...

 

Ó sinos de Santa Clara,

Por quem dobrais, quem morreu?

Ah, foi-se a mais linda cara

Que houve debaixo do céu!

 

A sereia é muito arisca,

Pescador, que estás ao sol:

Não cai, tolinho, a essa isca...

Só pondo uma flor no anzol!

 

Lua é a hóstia branquinha,

Onde está Nosso Senhor:

É duma certa farinha

Que não apanha bolor.

 

Vou a encher a bilha e trago-a

Vazia como a levei!

Mondego, qu'é da tua água?

Qu'é dos prantos que eu chorei?

 

No Inverno não tens fadigas

E tens água para leões|!

Mondego das raparigas,

Estudantes e violões!

 

- É só porque o mundo zomba

Que pões luto? Importa lá!

Antes te vistas de pomba...

- Pombas pretas também há!

 

Teresinhas! Ursulinas!

Tardes de novena, adeus!

Os corações às batinas

Que diriam? Sabe-o Deus...

 

Ó boca dos meus desejos,

Onde o padre não pôs sal,

São morangos os teus beijos,

Melhores que os do Choupal

 

Manoel no Pio repoisa,

Todas as tardes, lá vou

Ver se quer alguma coisa,

Perguntar como passou.

 

Agora, são tudo amores

À roda de mim, no cais,

E, mal se apanham doutores,

Partem e não voltam mais...

 

Aos olhos da minha fronte

Vinde os cântaros encher:

Não há, assim, segunda fonte

Com duas bicas a correr!

 

Os teus peitos são dois ninhos

Muito brancos, muito novos,

Meus beijos os passarinhos

Mortinhos por porem ovos.

 

Nossa Senhora faz meia

Com linha feita de luz:

O novelo é a lua cheia,

As meias são pra Jesus.

 

Meu violão é um cortiço,

Tem por abelhas os sons

Que fabricam, valha-me isso,

Fadinhos de mel, tão bons...

 

Ó fogueiras, ó cantigas,

Saudades! Recordações!

Bailai, bailai, raparigas!

Batei, batei, corações!

 

Coimbra, 1890

 

Canção da Felicidade

 

In ” Só” – Fev.1989

Estante Editora

 

António Nobre

(1867 - 1900)

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Domingo, 19 de Julho de 2015

Recordando... António Serrão de Castro

SÃO MAIS AS VOZES QUE AS NOZES

 

Mais são as vozes que as nozes

p’ra mim nesta ocasião,

e para vós nesta acção

mais as nozes que as vozes:

vós jogais os arriozes

com elas muito contentes;

e, sendo as nozes tão quentes,

eu fico d’elas mui frio;

vós com calor e com brio,

com elas ficais valentes.

 

Assim que a guerra será

não guerra de cão com gato,

senão de gato com rato

que é para vós guerra má:

que eu não posso sofrer já

tanta perda, nem tal dano,

nem que um ratinho tirano

me dê uma e outra vez

más horas em português,

maus «ratos» em castelhano.

 

In “Os Ratos da Inquisição”

Prefácio de Camilo Castelo Branco

e anotada por Manuel João Gomes no século XX

Edição – Frenesi

 

António Serrão de Castro

(1610 - 1685)

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Segunda-feira, 13 de Julho de 2015

Recordando... Camilo Pessanha

QUANDO VOLTEI ENCONTREI OS MEUS PASSOS

 

Quando voltei encontrei os meus passos

Ainda frescos sobre a húmida areia.

A fugitiva hora, reevoquei-a,

– Tão rediviva! nos meus olhos baços...

 

Olhos turvos de lágrimas contidas.

– Mesquinhos passos, porque doidejastes

Assim transviados, e depois tornastes

Ao ponto das primeiras despedidas?

 

Onde fostes sem tino, ao vento vário,

Em redor, como as aves num aviário,

Até que a asita fofa lhes faleça...

 

Toda essa extensa pista – para quê?

Se há-de vir apagar-vos a maré,

Como as do novo rasto que começa...

 

Clepsidra

 

In ”Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

Camilo Pessanha

(1867 - 1926)

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Terça-feira, 7 de Julho de 2015

Recordando... Joaquim Pessoa

AMEI DEMAIS

 

Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais

todas as coisas que na vida eu emprenhei.

Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais,

como as tais coisas nas quais nunca pensei.

 

Demais foram as sombras. Mais e mais.

Cada vez mais ardentes as sombras que tirei

do imenso mar de sol, sem praia ou cais,

de onde parti sem saber porque embarquei.

 

Amei demais. Sempre demais. E o que dei

está espalhado pelos sítios onde vais

e pelos anos longos, longos que passei

 

à procura de ti. De mim. De ninguém mais.

E os milhares de versos que rasguei

antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.

 

In " Ano Comum"

Litexa Editora

 

Joaquim Pessoa

(N. 1948)

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Quarta-feira, 1 de Julho de 2015

Recordando... Cruz Magalhães

SOBERANIA MÁXIMA

 

                        Ao Excelentíssimo Senhor

                              Doutor Antonio José de Almeida

                              – escol da pura Amizade.

 

 

Entre o rolar dos mundos infinitos,

Império colossal que não baqueia,

Os grandes homens são apenas mitos

A terra impercétivel grão de areia!

 

¿Que valem nossos míseros conflitos,

O fértil lampejar da nossa ideia,

Louros de heróis, angustias de precítos,

Por onde o eterno universal vagueia?

 

Grandezas, honrarias, são quimeras,

Que esmaltam a vaidosa humanidade,

Numa ilusão, que vem de antigas eras.

 

Uma só coisa aflora a eternidade,

E atinge, augusta, as lùcidas esferas:

– A força inquebrantável da bondade.

 

 In “Alma Nova” – Publicação Mensal

IIIª Série – Abril de 1922 – Nº 1

Editora – Empresa de Publicidade “Ressurgimento”

 

Cruz Magalhães

(1864 – 1928)

 

(Arthur Ernesto Santa Cruz Magalhães)

 

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