Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

Recordando... Margarida Vale de Gato

A IMAGEM ROMÂNTICA

 

Há outras coisas, Horácio,

e a tua filosofia é barata,

na verdade não custa fixar

as coisas ideais à distância:

terás vista panorâmica

mas sempre a visão é polémica.

 

Gostava que alguém me mostrasse,

mas não terei nunca garantia

de que envelhecer faça sentido.

 

As pessoas prostram-se, queremos que nos digam

porquê não haver luz nos seus rostos. Crestam

os cravos, antes rubros. Não há modo

de saber se as monarcas

têm memórias arenosas de lagarta.

Tudo sucede dentro de estanques

casulos, a seda é densa,

não se faz ideia

se isto acaba. Estrelas foscas

correm, pessoas morrem, a vida

é breve, impávido o

real se esquiva a designar.

Comparar é colidir: o verbo

talvez nos leve

a mais nenhum sinal.

 

In “Mulher ao Mar”

Mariposa Azual -2010

 

Margarida Vale de Gato

N. 1973

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Sábado, 25 de Outubro de 2014

Recordando... Maria Natália Miranda

MARIA DO MAR

 

As artérias do sol longas e finas

tatuaram de iodo e de canela

as linhas do seu rosto de flanela

e os relevos dos vales e das colinas

 

do corpo errante de navio à vela

saturado de ventos de neblinas

do roxo das distâncias genuínas

de recortes de esboços de aguarela

 

Nas ânforas dos olhos diluídas

confins  planetas  horizontes vidas

e aromas a escorrer dos tornozelos

 

Nuvens de pó nas pálpebras morenas

na alma agreste um ramo de açucenas

e sonhos enrolados nos cabelos

 

In "Infinito Azul

Ed. Palavra em Mutação

 

Maria Natália Miranda

N. 1925

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Domingo, 19 de Outubro de 2014

Recordando... Maria Carvalho

SOMBRAS

 

Passa uma sombra, que se desvanece...

Logo outra avança rápida e fluctua...

Á luz do sol ou ao palor da lua,

Se uma sombra se apaga, outra aparece.

 

No caminho da vida que alvorece

Ou quando a mocidade já recua,

Numa floresta ou numa estrada nua,

Surge sempre uma sombra, que estremece...

 

Sombras?... Eu também sigo a que me enleva

E me acompanha – misterioso apelo

Sigo-a se é dia claro e em plena treva...

 

Mas a sombra tem vulto?...  Deve tel-o.

Meu olhar assustado não se eleva...

Tenho medo?... Não sei. Não quero vel-o.

 

In “Contemporanea”

Ano I – Volume II – Nº 5 – Ano 1922

Pág. 50

 

Maria Carvalho

1847 – 1921

Grafia original

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Segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

Recordando... Graça Pires

OS VELHOS

 

Não é simples envelhecer.

Já um poeta o disse.

Peregrinos do tempo,

aprenderam, pelo olhar,

o caminho do trigo maduro,

o perfil dos navios

que partem sem regresso,

a mudança das estações do ano,

a curta duração das emoções.

Mas, quem se lembra da fadiga

dos seus braços, agora,

que é outono em suas mãos?

Quem fez do banco do jardim

um referente da morte,

o lugar onde a sua solidão se acoita?

Quem esqueceu, nas suas rugas,

a sábia maturidade da vida,

ou antes, um modo diverso

de olhar na direcção da noite?

 

In “Ortografia do olhar”

Editorial Eter – 1996

 

Graça Pires

N. 1946

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Terça-feira, 7 de Outubro de 2014

Recordando... Lídia Borges

NÃO É AINDA A LUZ DE ABRIL


Não.

Não é ainda a luz de abril

que alastra neste chão.

É apenas um sorriso, 
um breve rumor a roçar

o veludo das ervas.

Ainda não se ouve, ao longe,

a canção do milho sobre os campos,

a sua gloriosa subida às mesas,

nas casas.

Ainda não se ouve nada.

Por agora falo-te da sombra

que sobra deste inverno,

da sombra que se cola à terra nua

E se demora no sono enrolado

dos gatos.

Ficarei por aqui. Aceito ficar

com as mãos magoadas

e o delírio da febre nos olhos

enxotando palavras de vento no escuro.

O sorriso?

Ah!... O sorriso entornou-o aqui a seda

de uma rosa.

Abriu-se, pura, à proa de uma súbita

primavera.

In “Sementes Daqui”

Poética Edições - 2013

 

Lídia Borges **

N. 1956

** - Pseudónimo de Olívia Maria Barbosa Guimarães Marques

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Quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Recordando... Catarina Nunes de Almeida

CÂNTICO DOS CÂNTAROS

 

Voltando um pouco atrás

à costura das fotografias

àquelas escuridão pulmonar onde te vi

pela primeira vez onde eras

mais que certo quase cavalo

quase branco

a galope nos meus dentes.

Fotografias do tempo em que chamavas

árvore de rapina ao instrumento

que te educava os dedos.

Um dedilhar de amigo

à beira do vinhal.

Um encantar de amigo.

 

Se te deixasse ficar à sombra

haveria ainda as linhas da tua mão

tão irregulares tão imponderáveis

como a chuva nas boas noites.

Haveria ainda o perfume das grainhas

na primeira curva da manhã.

Era no tempo das fotografias.

Agora, dizes tu, há o orvalho dos murtais

um cesto silencioso e humano.

 

Nunca saberás que isso a que chamas

silêncio orvalho

eu chamo música

e toco-a.

 

In “Bailias”

Deriva Editores – 2010

 

Catarina Nunes de Almeida

N. 1982

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