Quinta-feira, 31 de Julho de 2014

Recordando... Vitorino Nemésio

VERBO E ABISMO

 

Já da vaga vocálica dependo

Como a alga que a onda leva à areia:

Mas eu mesmo, que a digo, mal entendo

A voz que clama a minha vida e a enleia.

 

Se intervenho no som gratuito, ofendo

Seu sentido secreto e íntima cheia:

Transtornado por ela, emendo, emendo,

E é ela que me absorve e senhoreia.

 

Verbo ao abismo idêntico, toado

Sobre os traços de fogo que precedem

A presença de Deus no monte irado,

 

Ao teu sopro de amor as vozes cedem

O que a morte decifra e restitui

Ao espírito liberto do que fui.

 

In “O Verbo e a Morte”

Moraes Editores - 1959

 

Vitorino Nemésio

1901 – 1978

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Sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Recordando... Pedro Homem de Mello

NOSTALGIA

 

Tinha saudades do fato

De hora a hora, roto e sujo,

A que esse andar de marujo

Dava jeitos de retrato.

De certos modos grosseiros

E bruscos, tinha saudade

E daqueles companheiros

Rudes, maus, mas verdadeiros

Como a sua mocidade.

Saudades do tempo incerto

Sem livros, sem oficina.

Em que o mundo era uma esquina

Hoje longe, amanhã perto…

Daquela música triste

Que só da sombra nos chama…

Existe a paixão? Existe.

E há leitos de urze e de lama…

Olhos vítreos de cansaço?

Mão pesada? Negras unhas?

Mas que paz naquele abraço.

Noite alta, sem testemunhas!

 

In “Miserere” – 1948

Editora Portugália

 

Pedro Homem de Mello

1904 – 1984

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Sábado, 19 de Julho de 2014

Recordando... António Gedeão

MINHA ALDEIA

 

Minha aldeia é todo o mundo.

Todo o mundo me pertence.

Aqui me encontro e confundo

com gente de todo o mundo

que a todo o mundo pertence.

 

Bate o sol na minha aldeia

com várias inclinações.

ângulo novo, nova ideia;

outros graus, outras razões.

Que os homens da minha aldeia

são centenas de milhões.

 

Os homens da minha aldeia

divergem por natureza.

O mesmo sonho os separa,

a mesma fria certeza

os afasta e desampara,

rumorejante seara

onde se odeia em beleza.

 

Os homens da minha aldeia

formigam raivosamente

com os pés colados ao chão.

Nessa prisão permanente

cada qual é seu irmão.

Valências de fora e dentro

ligam tudo ao mesmo centro

numa inquebrável cadeia.

Longas raízes que imergem,

todos os homens convergem

no centro da minha aldeia.

 

In “Teatro do Mundo”

Atlântida – Coimbra

 

António Gedeão **

1906 – 1997

 

** Pseudónimo de Rómulo de Carvalho

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Domingo, 13 de Julho de 2014

Recordando... José Carlos Ary dos Santos

O FUTURO

 

Isto vai meus amigos isto vai

um passo atrás são sempre dois em frente

e um povo verdadeiro não se trai

não quer gente mais gente que outra gente.

 

Isto vai meus amigos isto vai

o que é preciso é ter sempre presente

que o presente é um tempo que se vai

e o futuro é o tempo resistente.

 

Depois da tempestade há a bonança

que é verde como a cor que tem a esperança

quando a água de Abril sobre nós cai.

 

O que é preciso é termos confiança

se fizermos de Maio a nossa lança

isto vai meus amigos isto vai.

 

In “Obra Poética”

Edições Avante

 

José Carlos Ary dos Santos

1937 – 1984

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Segunda-feira, 7 de Julho de 2014

Recordando... Eugénio de Castro

O AMOR E A SAUDADE

 

O Amor teve uma filha à qual chamou Saudade.

 

Vendo-a crescida

Vendo-a na idade

De entrar na vida,

Disse-lhe assim um dia:

 

"Envelheci; no meu jardim cai neve...

Já sinto a alma fria,

E no corpo entrará também o frio em breve...

 

De noite vejo só negrumes de ataúdes;

Tudo é inverno p'ra mim; abril, acho-o grisalho...

Velho e doente, é justo, filha, que me ajudes

No meu trabalho.

 

Auxilia-me pois! Quando os amantes,

O seio contra o seio,

Enleados estão em tão suave enleio,

Que as longas noites tomam por instantes,

Ao pé deles me querem sempre, e assim,

Se p'ra deixá-los, já cansado estou,

Começam a chamar por mim,

A perguntar-me para onde vou...

Nunca me deixam, nunca estou tranquilo!

 

Como o trabalho é rude, de hoje em diante.

Devemos reparti-lo,

Que eu já me sinto fraco e vacilante...

De hoje em diante, irei deitar os namorados,

Mas tu, Saudade, junto deles ficarás,

E ao chamarem por mim, em gritos sufocados,

Fingindo a minha voz, tu lhes responderás...

 

Fazem-me louco as noites mal dormidas,

E assim já poderei dormir um pouco,

E recobrar até as minhas cores perdidas...

Vamos! O velho sol já se extinguiu

E a lua branca rompendo vai..."

 

E a Saudade partiu

Atrás do Pai...

 

Desde essa noite azul, ébrios de pasmo e dor,

Os que se beijam com ansiedade

Adormecem ao pé do Amor

E acordam junto da Saudade...

 

In “O Amor na Poesia Portuguesa"

Ed. Família 2000

 

Eugénio de Castro

1869 – 1944

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Terça-feira, 1 de Julho de 2014

Recordando... José Agostinho Baptista

O VERÃO

 

Estás no verão,

num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre

a duna.

Estás em mim,

nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome

pensas:

teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó,

sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas.

És o esplendor do dia,

os metais incandescentes de cada dia.

Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces

o ardor das maçãs,

as claras noções do pecado.

Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos

meus anos.

Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas, os

rituais que previ.

Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em

ti e inclinam-se.

Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.

Doce e cruel é setembro.

Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.

 

(Paixão e Cinzas -1992)

 

In “Biografia”

Assírio & Alvim – 2000  

 

José Agostinho Baptista

N. 1948

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