Sábado, 31 de Maio de 2014

Recordando... Alexandre Vargas

NAS MÃOS SINTO A LUZ

 

Nas mãos sinto a luz, a êxul luz

que vem das paliçadas da mansão,

a luz azul em clarificada zona então

aproxima de mim o seu facho de horizonte.

 

E logo eu a lembrar o querido monte

em que pousada estava sobracente a ramaria,

e logo eu então a pedir à maresia

que nos brilhos unos do futuro aproximasse

 

esse rumor de aves onde os raios enfeitasse

e eu oco no caminho que me guia

contivesse as minhas mágoas do passado,

 

e surgisse ali a minha alma em fogo-fátuo

estivesse eu em toda a dimensão do brusco

a nascer das folhas com a boca em luz arado.

 

In “Cyborg”

Livros Horizonte


Alexandre Vargas

N. 1952

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Domingo, 25 de Maio de 2014

Recordando... Sidónio Muralha

OS APAZIGUADORES

 

A tribo é indócil.

Os apaziguadores são boas pessoas.

Eles cantam a paz

na boca das armas.

Eles desarmam as bocas

quando cantam a paz.

Só não desarmam as armas

porque a paz desarmada

passaria a ser paz

e eles ficariam desempregados

porque não há apaziguadores

em tempo de paz.

 

O medo tocou os apaziguadores,

o medo tocou o gatilho das armas,

e os indóceis ficaram apaziguados,

definitivamente apaziguados,

horizontalmente apaziguados.

 

E os apaziguadores voltaram aos lares

e com gestos medidos e apaziguados

guardaram as armas, lavaram as mãos,

e distribuíram beijos pacificamente

a toda a família.

 

In “Cem Poemas Portugueses do Riso  e do Maldizer”

Selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria

Editora Terramar

 

Sidónio Muralha

1920 – 1982 

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Segunda-feira, 19 de Maio de 2014

Recordando... Torquato da Luz

BASTAVA

 

Bastava que dissesses a palavra exacta,

que tens aprisionada na garganta,

Bastava que pendurasses

na porta do teu quarto um lenço branco.

 

Bastava que enfeitasses o chapéu

com as flores que o fim da tarde

pões sedentas da luz dos teus cabelos.

 

Bastava que me olhasses uma vez ainda.

 

In “Ofício Diário”

Papiro Editora – 2007

 

Torquato da Luz

N. 1943

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Terça-feira, 13 de Maio de 2014

Recordando... Flor Campino

AGORA SOU

 

Agora sou

porto de silêncio que conhece

a rota da madeira,

porta do sótão

e turbilhão de folhas

que, pela cozinha, arrasta o vento.

 

Agora sou

a casa que conhece

múrmuras colmeias,

unhas do gato prateado,

o desatino matinal dos pássaros

e o amor das janelas pelas nuvens.

 

Ao perfume da erva

após a chuva

une-se o do café.

 

Do tempo passado

a decifrarmos juntos paredes

de granito e cal

vem-nos doce a fadiga.

Repousemos.

 

In “Cem Poemas Portugueses no Feminino”

Selecção e Org. de José Fanha e José Jorge Letria

Editora Terramar

 

Flor Campino

N. 1934

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Quarta-feira, 7 de Maio de 2014

Recordando... Camilo Pessanha

INTERROGAÇÃO

 

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,

Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;

E apesar disso, crê? Nunca pensei num lar

Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

 

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.

E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.

Nem depois de acordar te procurei no leito

Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

 

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo

A tua cor sadia, o teu sorriso terno...

Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso

Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

 

Passo contigo a tarde e sempre sem receio

Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.

Eu não demoro o olhar na curva do teu seio

Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

 

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...

Eu não sei que mudança a minha alma pressente...

Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,

Que adoecia talvez de te saber doente.

 

In “Poemas de Amor”

Versões Ana Leal

Edição Alma Azul – Janeiro.2006

 

Camilo Pessanha

1867 – 1926 

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Quinta-feira, 1 de Maio de 2014

Recordando... Tomás Pinto Brandão

AVISOS PARA SOLTEIROS

QUE QUISEREM VIVER

 

Todo o solteiro que este mundo logra

E por casado assezoado berra

Considere que peste, fome e guerra

O Diabo lhe dá em dar-lhe sogra.

 

A doce liberdade se malogra,

De todo o paraíso se desterra,

E de viver enfim os termos erra,

Porque em vida se enterra se se ensogra.

 

Terá sogra ab initio e ante bruxa,

Terá sogra ad perpetuam rei tarascia,

Sogra per omnia secula proluxa;

 

Que é peste no contacto que lhe encasca,

É fome na miséria que lhe embucha,

É guerra no dragão que se lhe enfrasca.

 

 

In “Cem Poemas Portugueses do Riso  e do Maldizer”

Selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria

Editora Terramar

 

Tomás Pinto Brandão

1664 – 1743

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