Quarta-feira, 30 de Abril de 2014

Recordando... Adolfo Casais Monteiro

AURORA

 

A poesia não é voz — é uma inflexão.

Dizer, diz tudo a prosa. No verso

nada se acrescenta a nada, somente

um jeito impalpável dá figura

ao sonho de cada um, expectativa

das formas por achar. No verso nasce

à palavra uma verdade que não acha

entre os escombros da prosa o seu caminho.

E aos homens um sentido que não há

nos gestos nem nas coisas:

 

voo sem pássaro dentro.

 

"Voo sem pássaro dentro"

 

In “Poesias Completas”

INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda

 

Adolfo Casais Monteiro

1908 – 1972

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Sexta-feira, 25 de Abril de 2014

Recordando... Manuel Alegre

LETRA PARA UM HINO

 

É possível falar sem um nó na garganta.

É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

 

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

 

É possível viver de outro modo.
É possível transformar em arma a tua mão.
É possível viver o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

 

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.

 

In “O Canto e as Armas”

Publicações Dom Quixote

 

Manuel Alegre

N. 1936

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Quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Recordando... Luís Vaz de Camões

LEDA SERENIDADE DELEITOSA

 

Leda serenidade deleitosa,

que representa em terra um paraíso;

entre rubis e perlas doce riso,

debaixo de ouro e neve, cor-de-rosa.

 

Presença moderada e graciosa,

onde ensinando estão despejo e siso

que se pode por arte e por aviso,

como por natureza, ser formosa:

 

fala de quem a morte e a vida pende,

rara, suave; enfim, Senhora, vossa,

repouso nela alegre e comedido;

 

Estas as armas são com que me rende

e me cativa Amor; mas não que possa

despojar-me da glória de rendido.

 

 

In “SE TUDO FOSSE IGUAL A TI”

Poesia de Luís de Camões

Editora Alma Azul – Janeiro 2007

 

Luís Vaz de Camões

1524 (?) – 1580

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Domingo, 13 de Abril de 2014

Recordando... António Ferreira

LIVRO, SE LUZ DESEJAS, MAL TE ENGANAS

 

Livro, se luz desejas, mal te enganas.
Quanto melhor será dentro em teu muro
Quieto, e humilde estar, inda que escuro,
Onde ninguém t'impece, a ninguém danas!

Sujeitas sempre ao tempo obras humanas
Coa novidade aprazem; logo em duro
Ódio e desprezo ficam: ama o seguro
Silêncio, fuge o povo, e mãos profanas.

Ah! não te posso ter! deixa ir comprindo
Primeiro tua idade; quem te move
Te defenda do tempo, e de seus danos.

Dirás que a pesar meu fostes fugindo,
Reinando Sebastião, Rei de quatro anos:
Ano cinquenta e sete: eu vinte e nove.

 

In “Poemas Lusitanos” – 1598

Mandado publicar por seu filho, Miguel Leite Ferreira

 

António Ferreira

1528 – 1569

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Segunda-feira, 7 de Abril de 2014

Recordando... José Luís Peixoto

MÃE QUEREMOS AINDA PASSEAR

 

mãe queremos ainda passear

e já não temos quem nos leve

perdeu-se o olhar que nos guiava

e explicava os caminhos

perdeu-se a mão dobrada pela

lâmina de tanto trabalhar que

nos amparava se as curvas

da estrada anoiteciam

mãe já não temos a camioneta

azul onde construímos casas

e vivemos tanta vida

mãe já não temos a carrinha

branca onde voltaste ao

que conhecias para conhecer

de novo onde ouvimos música

de piqueniques e risos de netas

mãe queremos ainda passear

e já não temos quem nos leve

esperamos uma madrugada

que nos apresse a entrar na

camioneta azul na carrinha branca

um conforto que chegue e nos leve

um conforto que não chega

que não chega nunca mãe

 

In “A Criança em Ruínas”

Quasi Edições  

 

José Luís Peixoto

N. 1974

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Terça-feira, 1 de Abril de 2014

Recordando... Jorge Reis-Sá

DOIS AMANTES, O MUNDO

 

dois amantes, o mundo
cada um no seu reino, beijam-se nas praias
quando as ondas batem as areias

o mar é o meu navio,
hoje naufrago feliz

sabes quem sou, as dunas
que se levantam com o vento são
os sonhos do amor que dormita
em sossego nas praias

a terra és tu o mar sou eu

 

In "A Palavra no Cimo das Águas"

Editora Campo das Letras

 

Jorge Reis-Sá

N. 1977

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