Segunda-feira, 31 de Março de 2014

Recordando... Manuel da Fonseca

NOITE DE SONHOS VOADA

 

Noite de sonhos voada
cingida por músculos de aço,
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca armodaçada
noutra boca,
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tão dominado e tão solto
tão vencedor, tão vencido e tão rebelde ao breve espaço
consentido
nesta angústia renovada
de encerrar
fechar
esmagar
o reluzir de uma estrela
num abraço
e a ternura deslumbrada
a doce, funda alegria
noite de sonhos voada
que pelos seus olhos sorria
ao romper de madrugada:
— Ó meu amor, já é dia!...

 

“Poemas Dispersos”

 

In "Poemas Completos"
Editora Caminho

 

Manuel da Fonseca

1911 – 1993  

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Terça-feira, 25 de Março de 2014

Recordando... Luís Filipe Castro Mendes

OS AMANTES OBSCUROS

 

Nossos sentidos juntos fazem chama:
e as fantasias nossas vão soltar
os desejos desertos de quem ama
e em verso ou coração se quis tornar.

Nossos sentidos são matéria prima
de um canto que é mais leve do que o ar;
o mundo todo não nos adivinha:
somos sombra sem luz, sequer luar.

Que o corpo quebre a noite desolada,
que o corvo ceda a voz à escuridão:
mil luzes são o nome da amada;
quem se perdeu no verso é sem perdão.

"Os Amantes Obscuros"

 

In “Poesia Reunida (1985-1999)”

Quetzal Editora

Luís Filipe Castro Mendes
N. 1950

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Quarta-feira, 19 de Março de 2014

Recordando... Joaquim Manuel Magalhães

ERA DE INVERNO, EM VILA REAL

 

Era de inverno, em Vila Real. A neve

cobria as ruas que levavam ao liceu.

Dentro da confeitaria, as luvas de cabedal

no tampo do vidro, o vapor da respiração

ligava-nos entre as conversas de mesa indiferentes.

E querias olhar para mais dentro de mim.

 

Os pombos escondidos nos beirais tapavam

a cabeça na plumagem de chumbo, cor do céu.

Calados, afeitos ao silêncio, enlaçámos

em cada um dos nossos livros a primeira letra

dos nossos nomes, de modo a desenharem

uma única letra que não havia em alfabeto nenhum.

Que bem que estávamos tão mal ali sentados,

a faltar às aulas, nessa primeira vez

em que nos acontecia, sem sabermos, um amor.

 

Tu não ias adivinhar as leis secretas

que já nos separavam. Tu não podias

lutar na via de sangue da minha vida.

Mas sempre que tombar neve em Vila Real

e desceres a avenida a caminho do café

de alguma destas coisas, quem sabe, te hás-de lembrar.

 

In “Segredos, Sebes, Aluviões” – 2.ª edição 
Editorial Presença – 1985   

 

Joaquim Manuel Magalhães
N. 1945

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Quinta-feira, 13 de Março de 2014

Recordando... António Braga Coelho

HÁ SETE ANOS

 

Depois de nos amarmos rosto a rosto
perdemo-nos ao conto das estrelas.
na espera deixou-nos o desgosto
sete redondas laranjas amarelas.

 

Os gomos estão cheios do revés

dos sonhos que ficaram em promessa.
O amor o sol desfazem a acidez

beijando a casca amarelinha espessa.

 

Laranjas do laranjal da vida
que o tempo amadurou no seu rodar
quando acabar tão longa despedida
hei-de fazer com elas um colar.

 

Ou pela tarde quando o sol desmaia
vou atirá-las uma a uma ao ar
e tu compões de leve a tua saia
que em teu regaço é que irão pousar.

 

In “No Mar Oceano”
Editorial Caminho

 

António Braga Coelho

N. 1928

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Sexta-feira, 7 de Março de 2014

Recordando... Mário Dionísio

OS AMIGOS DESCONHECIDOS

 

Quando ouvi onde ouvi este rosto vulgar e fatigado
estes olhos brilhantes lá no fundo
e este ar abandonado e inconformado
que aproxima?

Quando ouvi esta voz
que se eleva em surdina em meu ouvido e diz
frases tão conhecidas?

Quando foi que senti
estes dedos amigos nos meus dedos
este aperto de mão
tão comovidamente prolongado?

Não somos nós dois estranhos que se cruzam
com o mesmo passado
e com a mesma féria?

Ah dois amigos velhos que se encontram
pela primeira vez

In “Poesia Incompleta”
Publicações Europa-América

 

Mário Dionísio
1916 – 1993

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Sábado, 1 de Março de 2014

Recordando... Maria Teresa Horta

ABRIGO

 

Abrigo-me de ti

de mim não sei

há dias em que fujo

e que me evado

 

há horas em que a raiva

não sequei

nem a inveja rasguei

ou a desfaço

 

Há dias em que nego

e outros onde nasço

 

há dias só de fogo

e outros tão rasgados

 

Aqueles onde habito com tantos

dias vagos.

 

In “Minha Senhora de Mim”

Editorial Futura – 1974

 

Maria Teresa Horta

N. 1937

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