Sábado, 31 de Agosto de 2013

Recordando... Américo Durão

A MINHA MÃE

 

Lembra alvuras de cisne sobre um lago,

A minha vida imaculada e honesta;

Oiço bater meu coração em festa,

Pela bondade e amor que nêle trago.

 

Do meu orgulho olímpico de mago,

Só o desdém aos meus inimigos resta,

Maior que às folhas mortas da floresta

Que nos meus dedos pálidos esmago.

 

Mas a piedade enche o meu peito e vem,

Em vez de tão humano e vil desdém,

Ungir meus lábios num perdão divino.

 

– Julguei ser Deus… E choro de cansaço!

 Ó mãe piedosa, embala no regaço,

Meu coração exausto de menino.

 

In “Alma Nova” – Revista de Ressurgimento Nacional

III Série Nos. 4 a 6  Dezembro – Março 1923

Edição da Emprêsa de Arte e Publicidade “Ressurgimento”

 

Américo Durão

1894 – 1969

 

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Domingo, 25 de Agosto de 2013

Recordando... Manuel de Oliveira Guerra

DOMINGO

 

Porto, domingo. Morre de cansada

a tarde ruiva de olhos azulinos,

isto apesar de não ter feito nada

pois que guardou os ócios citadinos.

 

Foi para a Foz, levou a pequenada

para os folguedos próprios dos meninos,

e a certa altura estava tão corada

como quem bebe largos vinhos finos.

 

Agora esvai-se e mancha de vermelho

os vidros altos deste Porto velho

que muito preza as tardes domingueiras.

 

É que amanhã começa uma semana

de luta imensa e inveja e luta insana,

uma infernal semana de canseiras.

 

In “Caminho Longo”

Papiro Editora

 

Manuel de Oliveira Guerra

1905 – 1964

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Segunda-feira, 19 de Agosto de 2013

Recordando... Inês Lourenço

CHUVA NA HAUPTSTRASSE

 

Enrodilhados neste disforme
edredão de penas, sofre-se o conceito
germânico de leito, ouvindo chegar
um Junho humedecido, no Balkom envidraçado
do quarto do Hotel Schöneberg. Desistimos
da visita à sepultura de Marlene, num
pequeno cemitério aqui próximo, que dizem
bastante arborizado e apetecivelmente
deserto. E ficámos a olhar
a mulher turca de cabeça velada, com
a filhita pela mão, vestida em tons
berrantes. No passeio em frente,
os grandes contentores da Rotes Kreuz,
para donativos de roupas usadas,
atestam a organizada caridade
do povo alemão. Até a chuva
parece aderir organizadamente a todas
as formas estáticas ou animadas, com
o seu antigo manto.

Berlim, 96

In “Um Quarto com Cidades ao Fundo”
Quasi Edições

 

Inês Lourenço

N. 1942

 

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Terça-feira, 13 de Agosto de 2013

Recordando... Armando Côrtes-Rodrigues

ANOITECER

 

Ficou o céu descòrado…

E a Noite, que se avizinha,

Vem descendo ao povoado,

Como trôpega velhinha.

 

Para a guiar com cuidado

Veio-lhe ao encontro a Tardinha,

Não fosse a Noite sozinha

Perder-se em caminho errado.

 

Vão as duas caminhando…

E como o Sol já não arde,

Para o caminho ir mostrando

 

A primeira estrêla brilha…

Então diz a Noite à Tarde:

– Vai-te deitar minha filha.

 

In “Alma Nova” – Revista de Ressurgimento Nacional

III Série Nos. 4 a 6  Dezembro – Março 1923

Edição da Emprêsa de Arte e Publicidade “Ressurgimento”

 

Armando Côrtes-Rodrigues

1891 – 1971  

 

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Quarta-feira, 7 de Agosto de 2013

Recordando... Deolinda Reis

VOZES IMPERCEPTÍVEIS

 

Não vos percebo, tal é a confusão

sonora em que vos ondulais.

Proferis sentimentos ritmados,

histórias enquadradas numa vida,

segredos por vós tantas vezes ocultados.

Sois vozes discretas, vozes vazias

pelo pôr do sol que ficou esquecido.

Silêncio... quase não vos ouço!

Preciso decifrar vossos ecos,

lisonjear-me por vos poder escutar,

ouvir as histórias que já não percebo,

na ânsia de as poder desmistificar.

Oh, vozes com várias tonalidades...

Umas repassadas de euforias, alegrias,

outras mais desventuradas,

vozes vazias de sonoridades

que formam o eco de tantas vidas

perdidas no antro de suas ansiedades.

 

In “Triângulos Poéticos I”

1ª. Edição – Abril de 2008

artEscrita Editora

 

Deolinda Reis

N. 1964

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Quinta-feira, 1 de Agosto de 2013

Recordando... Joaquim Pessoa

ARREBANHAI O RISO E FAZEI TROÇA

 

Arrebanhai o riso e fazei troça

da nova situação que não é nova.

Poupai tempo fazendo vista grossa,

utilizando um pau e uma ova

 

Tranquilos, nem o cão nem a manada.

Embebeda-se o galo na janela

espichando o azul da madrugada

com medo ao facalhão e à panela.

 

Gemendo de prazer na bebedeira

o capão arremete à capoeira

e põe a galinhagem de esperanças.

 

Que Deus o abençoe, meu caro amigo,

mas tire-me esse galo do postigo

que não dá bons exemplos às crianças.

 

In “Sonetos Perversos”

Litexa Portugal

 

Joaquim Pessoa

N. 1948

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