Quarta-feira, 31 de Julho de 2013

Recordando... Eduardo Pitta

AGORA QUE AS PALAVRAS SECARAM

 

Agora que as palavras secaram
e se fez noite
entre nós dois,
agora que ambos sabemos
da irreversibilidade
do tempo perdido,
resta-nos este poema de amor e solidão.

No mais é o recalcitrar dos dias,
perseguindo-nos, impiedosos,
com relógios,
pessoas,
paredes demasiado cinzentas,
todas as coisas inevitavelmente
lógicas.

Que a nossa nem sequer foi uma história
diferente.
A originalidade estava toda na pólvora
dos obuses, no circunstanciado
afivelar
dos sorrisos à nossa volta
e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.

 

In “Marcas de Água”
INCM – Imprensa Nacional

 

Eduardo Pitta
N. 1949

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Quinta-feira, 25 de Julho de 2013

Recordando... Ana Rita Calmeiro

SABERÁS

 

Saberás que penso em ti

porque escrevo um poema

mais forte que o poeta,

um poema que traz o teu nome

escrito a medo

em segredo

com a intensidade de uma quilha

abrindo as asas do sonho.

Saberás que me traí traindo

a promessa de te fingir morto

e que te quis querendo

a lua outra vez a lua e o corpo.

 

In “Luminária”

Editora Alma Azul

 

Ana Rita Calmeiro

N. 1977

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Sexta-feira, 19 de Julho de 2013

Recordando... Luís Veiga Leitão

A PEDRA

 

Rugosa dureza que respiro

cerrado silêncio

rastro das nuvens que partiram

quartzo das montanhas da Nave

xisto azul dos montes Dúrios

 

- Pedras machos me pariram

 

Partido e repartido sob linhas férreas

no forro a côdea do sol e o salário

dos passos ingénuos, degraus de vinhas

e suor e sonho de maltas que saibraram

as entranhas do fogo e as vísceras do mar.

 

- Pedras fêmeas me criaram

 

Minha cidade de funduras compacta

granitos «dente de cavalo» entre os quais

corre uma língua de espelhos marginais

granitos que sobem no ímpeto das torres

e olham, olhos facetados, o sonoro

poente das clarabóias, íris ardendo

 

- Pedras da minha pedra onde morro e moro.

 

(Rosto Por Dentro)

 

In “Biografia Pétrea”

Thesaurus Editora

 

Luís Veiga Leitão **

1912 – 1987

 

** Pseudónimo de Luís Maria Leitão

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Sábado, 13 de Julho de 2013

Recordando... António Osório

MÃE QUE LEVEI À TERRA

 

Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
que farei destas tuas artérias?
Que medula, placenta,
que lágrimas unem aos teus
estes ossos? Em que difere
a minha da tua carne?

 

Mãe que levei à terra
como me acompanhaste à escola,
o que herdei de ti
além de móveis, pó, detritos
da tua e outras casas extintas?
Porque guardavas
o sopro de teus avós?

 

Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
vejo os teus retratos,
seguro nos teus dezanove anos,
eu não existia, meu Pai já te amava.
Que fizeste do teu sangue,
como foi possível, onde estás?

 

In “A Ignorância da Morte”
Editorial Presença

 

António Osório
N. 1933

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Domingo, 7 de Julho de 2013

Recordando... José Saramago

CIRCO

 

Poeta não é gente, é bicho coiso

Que da jaula ou gaiola vadiou

E anda pelo mundo às cambalhotas,

Recordadas do circo que inventou.

 

Estende no chão a capa que o destapa,

Faz do peito tambor, e rufa, salta,

É urso bailarino, mono sábio,

Ave torta de bico e pernalta.

 

Ao fim toca a charanga do poema,

Caixa, fagote, notas arranhadas,

E porque bicho é, bicho lá fica,

A cantar às estrelas apagadas.

 

In “Os Poemas Possíveis”

Editorial Caminho

 

José Saramago

1922 – 2010

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Segunda-feira, 1 de Julho de 2013

Recordando... José Jorge Letria

UM DIA JUNTEI TODAS AS PALAVRAS

 

Um dia juntei todas as palavras

que já aprendera e

busquei para elas novos sentidos,

novas maneiras de soar e de voar

até ao coração dos homens.

Censuraram-me por tê-lo feito

e houve até quem dissesse:

“As palavras são o que são

e procurar para elas novos significados

é pura perda de tempo e ofensa dos deuses.”

Eu não lhes dei ouvidos

e continuei a escrever, aprendendo

O sabor de casar a palavra ”água”

com a palavra ”vento” e a palavra

“corpo” com a palavra “terra”

e a palavra “homem” com “sonho”

e a palavra “natureza” com “vida”.

Foi, assim um pouco sem o querer,

um pouco sem o esperar, que usei

pela primeira vez a palavra”poesia”,

que viaja comigo, companheira eterna,

para todos os lugares onde vou,

desde a memória do homem

até aos últimos esconderijos da noite,

até ao fundo da claridade dos dias(…)

 

In “No Voo de uma palavra”

Editora Teorema

 

José Jorge Letria

N.1951

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