Terça-feira, 30 de Abril de 2013

Recordando... Égito Gonçalves

PALAVRAS

 

Com palavras me ergo em cada dia!

Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto

e saio para a rua.

Com palavras - inaudíveis - grito

para rasgar os risos que nos cercam.

Ah!, de palavras estamos todos cheios.

Possuímos arquivos, sabemo-las de cor

em quatro ou cinco línguas.

Tomamo-las à noite em comprimidos

para dormir o cansaço.

As palavras embrulham-se na língua.

As mais puras transformam-se, violáceas,

roxas de silêncio. De que servem

asfixiadas em saliva, prisioneiras?

Possuímos, das palavras, as mais belas;

as que seivam o amor, a liberdade...

Engulo-as perguntando-me se um dia

as poderei navegar; se alguma vez

dilatarei o pulmão que as encerra.

Atravessa-nos um rio de palavras:

Com elas eu me deito, me levanto,

e faltam-me palavras para contar...

 

 

In “Os Confrades da Poesia”

Boletim Mensal Nº 43 – Dez.2011

 

Égito Gonçalves

1920 – 2001

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Quinta-feira, 25 de Abril de 2013

Recordando... Manuel Alegre

ABRIL DE ABRIL

Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.

In “30 Anos de Poesia”

Publicações  Dom Quixote

 

Manuel Alegre

N.1936

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Quarta-feira, 17 de Abril de 2013

Recordando... valter hugo mãe

o homem que já não sou

 

não me olhes agora que estou

mais velho e não correspondo em

nada ao homem que

amaste, procura encarar a tristeza

sem me incluíres, seria demasiado

cruel que me usasses para a

dor. para ti

quis trazer as coisas mais belas

e em tudo o que fiz pus o

cuidado meticuloso de quem

ama. não me obrigues a cortar os

pulsos quando fores num minuto ao

jardim com o cão

 

esta noite, sem notares, sustive a

respiração e quase morri. não deste

por nada. julgaste que voltei a

ressonar e até terás esboçado um

sorriso. e se eu pudesse morrer

enquanto sorris, pergunto

 

deixo para depois, ou talvez

desista. mas não pode ser se

tu me olhares em busca de tudo o que

já não existe. não pode ser, levo a

faca maior para debaixo do meu

travesseiro, juro-te que me

mato se continuares assim

 

 

in “contabilidade”

editora objectiva (alfaguara)

 

valter hugo mãe **

n. 1971

 

 

** nome artístico de valter hugo lemos

   

não é gralha, nem descuido ortográfico. é mesmo de propósito, tudo em letras pequenas: valter hugo mãe. nas suas páginas, não se vislumbra uma maiúscula.  

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Sábado, 13 de Abril de 2013

Recordando... Firmino Mendes

A MARGINAL

 

Ao lado do rio faz-se a experiência de nunca estar só.

Caminha-se a favor do vento, das águas correntes e

de algumas aves perdidas dos portos.

 

Não me chames para o lado de dentro dos países nem

para fazer pousada na gruta secreta daquela montanha

coberta de amoras e forrada de líquenes.

 

Aqui, no passo lento de quem não tem certezas nem afectos,

vou a caminho da foz. Chegam barcos, saem outros.

Brilha este lado das águas.

 

A sombra também caminha e só na distância das ondas

poderá estar o espelho brilhante que fixa a luz à terra

ou a chama ao fascínio.

 

Passeio Alegre, Abril, 1998

 

In "A Terra e os Dias"

Pedra Formosa Edições

 

Firmino Mendes

N. 1949

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Domingo, 7 de Abril de 2013

Recordando... Alberto d’Oliveira

VELHICE

 

Água do rio Letes, onde passas?

Venha a mim o teu curso benfazejo

Que sepulta alegrias ou desgraças

No mesmo esquecimento sem desejo.

 

Quero beber-te por contínuas taças...

E às horas do passado que revejo,

Pedir-te que as afogues e desfaças

Na carícia e na esmola do teu beijo!

 

Quem de si nunca esteve satisfeito

E com novas empresas só procura

Corrigir seu engano ou seu defeito,

 

Não pode recordar sem amargura

Que a mais nenhum esforço tem direito

Na ruína presente e na futura...

 

In "Novos Sonetos"

Desconheço a editora

 

Alberto d’Oliveira

1873 – 1940

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Segunda-feira, 1 de Abril de 2013

Recordando... António Manuel Rodrigues Martins

ÀS VEZES

 

Às vezes
te encontro só,
mesmo que acompanhada...
nostálgica,
pensativa,
desenquadrada,

sem fulgor.

Às vezes
a penumbra
nos invade...
numa força superior
a um desejo,
que se não pode prever
ou antever,
sem rigor.

Às vezes
desmarco-me
das simulações,
destas situações
e fomento ilusões...
infundamentadas,
porque ultrapassadas
e consumadas.

Às vezes
és tão diferente...
eu paciente,
tu intolerante...
ofuscando o passado,
persistentemente,
e julgando o presente...
irrelevante.

Às vezes
eu
também pareço
não o ser!...

 

 

In "Ser Poeta" (2009)

Edições Temas Originais

 

António Manuel Rodrigues Martins

N. 1955

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