Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2013

Recordando... António Feijó

EU E TU

 

Dois! Eu e Tu, num ser indissolúvel! Como

Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia,

Aspiram a formar um todo, – em cada assomo

A nossa aspiração mais violenta se ateia...

 

Como a onda e o vento, a lua e a noite, o orvalho e a selva,

– O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noite,

Ou o orvalho inundando as verduras da relva –

Cheio de ti, meu ser d’eflúvios impregnou-te!

 

Como o lilás e a terra onde nasce e floresce,

O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,

O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,

– Nós dois, d'amor enchendo a noite do degredo,

 

Como parte dum todo, em amplexos supremos

Fundindo os corações no ardor que nos inflama,

Para sempre um ao outro, Eu e Tu pertencemos,

Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama.

 

 

In “Sol de Inverno”

Edição de ?

Publicado em 1922

 

António Feijó

1859 – 1917

 

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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013

Recordando... Campos de Figueiredo

O MILAGRE DAS ROSAS

 

Trazia ouro aos Pobres… dava estrelas,

que no jardim azul do céu colhera,

mas, quando El-Rei Dinis desejou vê-las,

floriu, no seu regaço, a primavera.

 

− «Vede, são rosas brancas, fui colhê-las

para os gafos, Senhor! Julgáveis que era

dinheiro em vez de flores? A Deus prouvera

que em oiro e pão pudesse convertê-las!»

 

Repete-se o milagre, eternamente:

caem do céu, às horas do poente,

rosas de oiro, vermelhas, a sangrar…

 

E, à noite, é Ela sempre que, na treva,

sobre a linda Cidade medieva,

desfolha rosas brancas, ao luar!

 

 

In “A Circulatura do Quadrado”

Edições Unicepe – Coop. Livreira de Estudantes do Porto

 

Campos de Figueiredo

1899 – 1965

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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013

Recordando... Cesário Verde

DESLUMBRAMENTOS

 

Milady, é perigoso contemplá-la,

Quando passa aromática e normal,

Com seu tipo tão nobre e tão de sala,

Com seus gestos de neve e de metal.

 

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,

Quantas vezes, seguindo-lhes as passadas,

Eu vejo-a, com real solenidade,

Ir impondo toilettes complicadas!…

 

Em si tudo me atrai como um tesoiro:

O seu ar pensativo e senhoril,

A sua voz que tem um timbre de oiro

E o seu nevado e lúcido perfil!

 

Ah! Como me estonteia e me fascina…

E é, na graça distinta do seu porte,

Como a Moda supérflua e feminina,

E tão alta e serena como a Morte!…

 

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,

Britânica, e fazendo-me assombrar;

Grande dama fatal, sempre sozinha,

E com firmeza e música no andar!

 

O seu olhar possui, num jogo ardente,

Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;

Como um florete, fere agudamente,

E afaga como o pêlo dum regalo!

 

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,

E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,

O modo diplomático e orgulhoso

Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

 

E enfim prossiga altiva como a Fama,

Sem sorrisos, dramática, cortante;

Que eu procuro fundir na minha chama

Seu ermo coração, como a um brilhante.

 

Mas cuidado, Milady, não se afoite,

Que hão-de acabar os bárbaros reais;

E os povos humilhados, pela noite,

Para a vingança aguçam os punhais.

 

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,

Sob o cetim do Azul e as andorinhas,

Eu hei-de ver errar, alucinadas,

E arrastando farrapos – as rainhas!

 

 

“O Livro de Cesário Verde”

 

In “Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

Cesário Verde

1855 – 1886

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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2013

Recordando... João Miguel Fernandes Jorge

EU FALEI DA TUA MORTE

 

Eu falei da tua morte. Da ave

que levantou a palavra

morte, injusta e funesta no

seu ser. Da tua morte falo.

 

Do meu discurso nenhum sábio

saberá admitir a unidade, o

tempo infinito formando verão

e mar, o longo nome de ti.

 

Fim ou movimento? Toda a

unidade será sempre uma

ausência e um excesso.

 

Sobre os lábios do homem a

única duração da vida é razão

de um silêncio ou de uma rosa?

 

 

Sob Sobre Voz (1971)

 

 In “Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

João Miguel Fernandes Jorge

N. 1943

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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2013

Recordando... José Duro

ALVÍSSIMA

 

 (Oração)

 

Como a Noite, Senhor, é linda

Com seus cabelos de luar…

Não chores mais, Lua bemvinda

Que me fazes também chorar…

 

Sorrisos do luar d’uma Caveira oca,

Sorrisos do luar enfeitiçando os brejos

Sorrisos do luar a angelizar a boca,

Sorrisos do luar onde escondi meus beijos…

 

Orações do luar  dos lábios de nós ambos,

Orações do luar que os astros não rezaram,

Orações do luar a consagrar os tambos,

Orações do luar, das almas que noivaram.

 

Cabelos do luar, aveludados, frios,

Cabelos do luar em tranças latescentes;

Cabelos do luar — alvíssimas serpentes,

Cabelos do luar banhando-se nos rios…

 

Aromas do luar em revoadas francas,

Aromas do luar, a perfumar o céu…

Aromas do luar, sonâmbulos ao léu,

Aromas do luar, por noites todas brancas…

 

Brancuras do luar dispersas pelos montes…

Brancuras do luar — finos lençois de gelo…

Brancuras do luar, olhai o sete estrelo,

Brancuras do luar, a namorar as fontes…

           

Veludos do luar tecidos pela lua,

Veludos do luar, de lírios e de rosas…

Veludos do luar, ó vestes preciosas

Veludos do luar vestindo a noite nua…

 

Trémulos de luar — litanias peregrinas,

Trémulos de luar — ó harmonias cérulas,

Trémulos de luar, nas bocas aspérulas

Trémulos de luar, e lábios das boninas…

 

Tristezas do luar caindo-nos no peito,

Tristezas do luar, como um dobrar profundo…

Tristezas do luar anestisiando o Mundo,

Tristezas do luar, em lágrimas desfeito…

 

Lágrimas do luar da Lua aventureira,

Lágrimas do luar, da débil flor dos linhos…

Lágrimas do luar da mágua derradeira,

Lágrimas do luar, de moços e velhimhos…

 

Saudades do luar, na rama dos ciprestes,

Saudades do luar, há mochos a cantar…

Saudades do luar, são almas a chorar…

Saudades do luar, as podridões agrestes…

 

Velhinhos corações a verter sangue e máguas,

Velhinhos corações de mocidade negras,

Velhinhos corações — doridas toutinegras,

Velhinhos corações aos tombos pelas frágoas.

 

Vamos todos pedir à Lua sacrossanta

Na aspiração do Amor, na comunhão do Bem

Que o seu bendito olhar, o seu olhar de Santa,

Nos abençõe agora e para sempre amén!

 

 

In “Antologia de Poetas Alentejanos”

Edição de ?

 

José Duro

1873 – 1899

 

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