Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2012

Recordando... D. Francisco Manuel de Melo

QUANDO SE VÊ DO MAL O QUE SE NÃO VIA DANTES

 

Se como haveis tardado, desenganos,

Vindes hoje de novo apercebidos,

A troco de vos ver tão prevenidos,

Dou-vos por bem tardados tantos anos.

 

Tardastes; e entretanto estes tiranos

Casos de Amor roubaram-me os sentidos.

Se alcançá-los quereis, bem que são idos,

Buscai-os pelo rastro dos meus danos.

 

Oh, segui-os, prendei-os, porque logo

Teme que foge, quem procura, alcança,

Pois é peso o temor, o gosto é vento.

 

E para quando os alcanceis vos rogo,

Não que façais me tornem a esperança,

Mas que sequer me deixem o escarmento.

 

 

Obras Métricas

 

In “Breve Antologia Poética do Período Barroco”

Livª. Civilização Editora – Porto e Contexto Editora – Lisboa

 

D. Francisco Manuel de Melo

1608 – 1666

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Terça-feira, 25 de Dezembro de 2012

Recordando... Vitorino Nemésio

NATAL CHIQUE

 

Percorro o dia, que esmorece

Nas ruas cheias de rumor;

Minha alma vã desaparece

Na minha pressa e pouco amor.

 

Hoje é Natal. Comprei um anjo,

Dos que anunciam no jornal;

Mas houve um etéreo desarranjo

E o efeito em casa saiu mal.

 

Valeu-me um príncipe esfarrapado

A quem dão coroas no meio disto,

Um moço doente, desanimado...

Só esse pobre me pareceu Cristo.

 

In “O Pão e a Culpa”

Livraria Bertrand – 1959

 

Vitorino Nemésio

1901 – 1978

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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2012

Recordando... Sidónio Muralha

DOIS POEMAS DA PRAIA DA AREIA BRANCA

 

1

Na praia da Areia Branca
os búzios não falam só do mar:
– falam das pragas, dos clamores,
da fome dos pescadores
e dos lenços tristes a acenar.

 

Búzios da praia da Areia branca:

– um dia,
haveis de falar
unicamente do mar.

 

2

 

No fundo do mar,
há barcos, tesoiros,
segredos por desvendar
e marinheiros que foram morenos ou loiros.

 

Ali, não são morenos nem loiros:
– são formas breves, a descansar,
sem ambições para os tesoiros
e de cabelos verdes dos limos do mar.

 

Serenos, serenos, repousam os mortos,

enquanto o mar
ensina o mundo a falar
a mesma língua em todos os portos.

 

 

In “Passagem de Nível”

Portugália Editora

 

Sidónio Muralha

1920 – 1982 

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Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2012

Recordando... António Barbosa Bacelar

A UMAS SAUDADES

 

Saudades de meu bem, que noite e dia

A alma atormentais, se é vosso intento

Acabares-me a vida com tormento,

Mais lisonja será, que tirania.

 

Mas quando me matar vossa porfia,

De morrer tenho tal contentamento,

Que em me matando vosso sentimento,

Me há-de ressuscitar minha alegria.

 

Porém matai-me embora, que pretendo

Satisfazer com mortes repetidas

O que à beleza sua estou devendo.

 

Vidas me dai para tirar-me vidas,

Que ao grande gosto, com que as for perdendo

Serão todas as mortes bem devidas.

 

 

Fénix Renascida II

 

In “Breve Antologia Poética do Período Barroco”

Livª. Civilização Editora – Porto e Contexto Editora – Lisboa

 

António Barbosa Bacelar

1610 – 1663   

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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2012

Recordando... Al Berto

DIZEM QUE A PAIXÃO O CONHECEU

 

Dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

 

Conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

 

Dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos.

 

In “O Medo”

Assírio & Alvim – 2009

 

Al Berto  **

1948 – 1997

 

** Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares

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Sábado, 1 de Dezembro de 2012

Recordando... Soror Maria do Céu

MORTAL DOENÇA

 

Na febre do amor-próprio estou ardendo,

No frio da tibieza tiritando,

No fastio ao bem desfalecendo,

Na sezão do meu mal delirando,

Na fraqueza do ser, vou falecendo,

Na inchação da soberba arrebentado,

Já morro, já feneço, já termino,

Vão-me chamar o Médico Divino.

 

Na dureza do peito atormentada,

Na sede dos alívios consumida,

No sono da preguiça amadornada,

No desmaio à razão amortecida,

Nos temores da morte trespassada,

No soluço do pranto esmorecida,

Já morro, já feneço, já termino,

Vão-me chamar o Médico Divino.

 

Na dor de ver-me assim, vou desfazendo,

Nos sintomas do mal descoroçoando,

Na sezão de meu dano estou tremendo

No risco da doença imaginando,

No fervor de querer-me enardecendo,

Na tristeza de ver-me sufocando,

Já morro, já feneço, já termino,

Vão-me chamar o Médico Divino.

 

Vou ao pasmo do mal emudecendo,

À sombra da vontade vou cegando,

Aos gritos do delito emouquecendo,

No tempo sobre tempo caducando,

Nos erros do caminho entorpecendo,

Na maligna da culpa agonizando,

Já morro, já feneço, já termino,

Vão-me chamar o Médico Divino.

 

 

Obras Várias e Admiráveis

 

In “Breve Antologia Poética do Período Barroco”

Livª. Civilização Editora – Porto e Contexto Editora – Lisboa

 

Soror Maria do Céu

1658 – 1753

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